Marli
já estava com mais ou menos uns dez anos e seguia sua rotina na APAE, porém,
precisava ser alfabetizada. Então os pais resolveram seguir algumas
recomendações médicas e procurar por escolas especializadas. Landica e
Tiãozinho já estavam pesquisando uma instituição em Uberaba quando descobriram
o Instituto Santa Inês em Belo Horizonte.
O lugar era administrado por irmãs da Congregação Filhas de Nossa
Senhora do Monte Calvário e o colégio representava o que
existia de melhor para quem tinha necessidade de atenção especial no processo
de aprendizagem: pessoas surdas, assim como Marli. Por ser uma escola de renome
e particular, somente era acessível a quem pudesse pagar. Felizmente isso não
seria problema. Quando estava tudo certo para a inserção de Marli no colégio, ainda
restava o entrave da hospedagem, ou moradia. Landica não poderia se mudar para
a capital.
Na procura de alternativas para que
a filha pudesse frequentar as aulas naquela instituição, conheceu uma das
freiras que trabalhava
no instituto. Foi ela quem indicou uma pensão, próxima ao colégio,
onde algumas alunas, que moravam em outras cidades, se hospedavam.
O
CASAL, LEVANDO MARLI PELA MÃO, PROCUROU A DONA DA PENSÃO: senhora Maria.
Depois de muita conversa ficou combinado que a proprietária do pensionato, com
a ajuda da filha, que também se chamava Maria, levaria e buscaria Marli na
escola. Também se comprometeram em preparar e ministrar os remédios que ela
fazia uso ininterrupto desde os três aninhos. A responsabilidade era grande,
pois os medicamentos deveriam ser dados sem falta e nem atraso, todos os dias. Naquela época, a escola em Belo Horizonte
parecia a mais apropriada, então, a contragosto e desolada, Landica deixou sua
menina, de apenas onze anos, aos cuidados de dona Maria e das irmãs do Instituto
Santa Inês. Voltou para casa com a conhecida sensação de estar deixando
algo importante para trás e nesse momento, pensou no que disseram os médicos:
- É o melhor para ela. Lá Marli será
alfabetizada e terá mais chances de levar uma vida normal. – Por isso Landica
se afastava da filhinha mais uma vez. Não poderia ser egoísta querendo
segurá-la junto a si, no interior, onde os recursos eram limitados. Só para o
bem de Marli é que a mãe abria mão de sua presença. Ela sabia que não seria
nada fácil cortar mais uma vez o cordão umbilical que unia as duas e estava
certa.
Marli não se conformava e sempre relutava
em se despedir dos pais. Aquilo era um veneno que Landica engolia aos poucos,
para curar a filha. Por várias vezes teve o impulso de pegar a menina pela mão
e sair correndo dali, sem olhar para trás e nem parar, até chegar em casa, onde
estariam a salvo.