quinta-feira, 23 de outubro de 2014

OUTRA COISA QUE INCOMODAVA LANDICA



A curiosidade das pessoas. Sempre se mostravam muito interessados quando descobriam que o casal tinha uma filha doente. Algumas visitinhas ela sabia que eram apenas para ver Marli e constatar as limitações dela. Para a mãe, isso era falta de respeito e compaixão pelo sofrimento da família. Então, ela se mostrava mais nervosa a cada dia.

Quando Marli completou três anos confirmou-se que ela tinha raquitismo do 3º grau, por falta de alimentação e problemas renais graves. Landica acompanhou todos os exames e testes: o mais complexo foi o que media a água ingerida pela menina e o xixi, toda manhã e noite durante 15 dias para averiguar o funcionamento dos rins. O resultado foi positivo também para problemas renais.

A pesquisa de todas as doenças durou seis meses. Entre exames e tratamento foi se formulando uma lista de remédios que fariam da casa de Landica algo semelhante a uma farmácia. Alguns deles muito difíceis de conseguir na época, outros, complicado de se encontrar ainda hoje: Cálcio Sandoz forte, Aderogil D 3 ampola, fortificante,  Solução Shoul e, posteriormente descobriu-se uma mistura de ácido cítrico e citrato de sódio dissolvidos em um litro d’ água para fortificar os ossos. Havia também uma indicação para cirurgia de remoção das amígdalas, mas, como Marli estava muito fraca e abaixo do peso (7.500kg aos três anos), acharam melhor protelar.

Foi nessa época que Marli ficou internada em Belo Horizonte por seis meses. Apesar de todas as outras dificuldades, Landica descreve esse momento como o mais triste. Ela se lembra das palavras desestimulantes, proferidas por vários médicos que não davam esperanças de vida para sua filha. Além de tudo, não era permitido que a acompanhasse durante a internação. As visitas eram criteriosamente agendadas, com hora para começar e para terminar, sem exceções.         A capital fica há 380 km de Lagoa Formosa e uma das dificuldades, para Landica, era hospedagem, além do tempo que ficava longe de casa e das outras filhas.         

No hospital não aceitavam nenhum pertence de Marli, foi à custa de muita insistência que Landica conseguiu fazer com que as enfermeiras ficassem com uma das mamadeiras. Ela temia que, por estranhar as enfermeiras, a menina parasse de tomar leite definitivamente. Já era muito difícil fazê-la ingerir uma pequena quantidade por dia. Com a mamadeira, que já era familiar, talvez aceitasse ser alimentada por outras pessoas. Tudo parecia uma dificuldade a mais, sua filha naquele ambiente hospitalar, mais uma vez, impedida de aproveitar a infância como as crianças da mesma idade, sem a proteção e o aconchego maternos. Era mais do que uma mãe poderia suportar, por mais forte que fosse.

Chucas, chupetas e roupinhas de criança ficavam espalhados pela casa e não deixavam que Landica esquecesse a filhinha nem por um minuto. Marli estava desamparada e longe de todos que a amavam. Às vezes, quando lhe era permitido uma visita, Landica encontrava um dos médicos brincando de riscar reloginhos no bracinho magro de sua filha e se sentia grata, esse era um dos breves momentos em que Marli podia ser uma criança como qualquer outra. Para a mãe, aquele relógio desenhado a caneta representava muito mais do que uma simples distração. Era um pouco de zelo e carinho que um estranho oferecia a sua filha naquele ambiente impessoal e, às vezes, hostil. Eram os sorrisos daquela criança que não iluminavam mais o seu lar. Aquele reloginho marcava, segundo por segundo, todo o tempo que Landica permanecia numa espécie de limbo, entre hospital e casa, impedida de estar ao lado da sua caçula.


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

As surpresas da vida I



Landica não podia imaginar que o pesadelo estava longe de terminar. Nos poucos intervalos em que podia levar a filha para casa, notou algo estranho com Marli, ela parecia não corresponder às reações de um bebê da mesma idade. A menina era distante, indiferente aos estímulos da mãe. Foi então que Landica, desconfiada, resolveu fazer um teste de comparação: colocou a pequena para brincar com uma priminha e, quando as duas engatinhavam de costas para ela, chamou pelo nome da filha:
            - Marli, ô Marli... Vem com a mamãe bebê – Nada.
Com lágrimas nos olhos, ainda tentou várias vezes. Marli tinha que olhar para trás, em algum momento ela o faria porque a mãe não iria desistir. Chamaria quantas vezes fosse preciso até a pequena entender que Marli era ela e corresponder ao chamado.

Mas, após muitas tentativas, apenas a sobrinha se virava atendendo ao chamado.  O que antes era uma desconfiança se configurou como certeza. Mas, apenas Landica aceitava a realidade. Tiãozinho dizia ser nada, estava tudo bem e a esposa tinha mania de complicar as coisas e ver doença em tudo. Talvez ele fizesse isso por achar que admitindo essa verdade, tornaria ainda mais dura a vida de sua filha. Afinal, ele sabia que uma surdez era sempre um grande desafio numa sociedade excludente como a nossa.

 Para Tiãozinho, o certo era que naquele momento fazia-se mais importante dar atenção a outros problemas mais urgentes, como manter a criança longe dos médicos, com o máximo de conforto e o mínimo de dor. Garantir qualidade de vida dentro de todas as limitações, que eram evidentes. E assegurar isso, naquela ocasião, já parecia quase impossível. Pra quê complicar?