terça-feira, 30 de julho de 2013

Quem casa quer casa



Meses depois da cerimônia, os recém-casados foram morar em uma das fazendas do Senhor Cristiano Fonseca, pai de Tiãozinho. Para Landica, a vida por ali também não foi fácil, pois, em anexo com a casa tinha uma pequena mercearia que atendia aos fazendeiros da região, suprindo suas despensas. Como não tinham nenhum funcionário, Landica precisava acordar antes do sol nascer para dar conta de todo o serviço doméstico e ainda atender no comércio.
            
Tiãozinho ficava encarregado de buscar os mantimentos em Lagoa Formosa, arraial a mais ou menos 20 quilômetros da fazenda. Às vezes, ele fazia uns carretos para algumas cidades mais distantes, a fim de complementar a renda familiar. O marido sonhava alto, queria que o negócio crescesse e desse muitos lucros. Ela não via nenhum mal nisso, até admirava sua garra para o trabalho e preocupação com o futuro.
           
O tempo passou e quando a vida já estava se tornando muito monótona: a novidade. Um dia, Landica começou a sentir umas coisas estranhas e já imaginou o que pudesse ser, afinal, estava em tempo. Os seios se dilatavam, as náuseas se tornavam frequentes e, pouco tempo depois, Iolanda tinha a certeza. Passados dez meses, em setembro de 1962 ela descobriu que eles iriam se tornar uma família de verdade. Dentro de poucos meses chegaria um bebê para revigorar a felicidade naquela casa.

 E foi logo na primeira gravidez que Landica descobriu vários problemas: sua baixa resistência, fraqueza e intolerância a todos os tipos de alimentos em períodos de gestação. Não conseguia segurar nada no estômago. Os enjoos eram tão fortes que, muitas vezes, Tiãozinho tinha que coloca-la no carro e se deslocar 40 quilômetros até Patos de Minas, uma das cidades mais bem estruturadas da região, para atendimento médico. Devido à gravidade dos sintomas ela precisava de um hospital bem preparado, com clínicos especializados, e isso ainda não existia no pequeno arraial, Lagoa Formosa.
           
A cada 60 dias, Landica retornava ao hospital para se reidratar e nutrir. Era nesses pequenos intervalos de mais ou menos três dias que a futura mamãe conseguia ingerir uma sopinha, ou qualquer outra comida leve, sem vomitar logo em seguida, como acontecia em casa. Isso somente era possível graças aos remédios misturados ao soro.
            
 Mas, quando voltava para a fazenda, os vômitos voltavam com ela. Esse era um problema que os médicos tentavam resolver na base do “erro e acerto” com incontáveis medicamentos, entre eles alguns antibióticos. Landica não sabia muito sobre aqueles remédios, apenas tomava e seguia as recomendações dos clínicos, que justificavam dizendo que a desnutrição baixava a imunidade e tornava bem mais fácil o contágio das doenças oportunistas. No entanto, nenhum deles tinha o efeito esperado.
             
Após sete meses entre hospital e fazenda, finalmente, no dia 1º de abril de 1963, Marlúcia nasceu, trazendo no sorriso toda a alegria de que seus pais precisavam. Voltaram para a fazenda com a filha nos braços e novas expectativas para o futuro. Landica sentia-se muito feliz por ter sua menininha para criar. Era uma garotinha linda, de bochechas rosadas e olhos espertos que a fazia lembrar-se dos seus tempos de criança, quando sonhava com bonecas. Mas nem em sonho havia imaginado uma bonequinha tão perfeita. A jovem mãe adorava alimentar, banhar e brincar com o bebê, que era sua melhor companhia na maior parte do tempo.
            
Porém, as tarefas domésticas também precisavam ser cumpridas. Como as duas ficavam sozinhas quase o tempo todo, Landica carregava a menininha enganchada nas cadeiras para todos os lugares. Às vezes Marlúcia não ficava quieta, por isso, quando a mãe ia cozinhar no fogão à lenha, com ela no colo, quase sempre o calor da fornalha lhe queimava o pezinho. Mas, ainda assim, a garotinha preferia ficar nos braços. Quando podia, Landica colocava-a para brincar em algum lugar próximo a si com bonecas improvisadas de espigas de milho, bolas de meia, colheres, que ela batia uma na outra para fazer barulho, e caixinhas de fósforos, que também lhes servia de chocalho.

            
A mercearia dava muito trabalho, sempre que se via atarefada alimentando os porcos e as galinhas, ou até mesmo trocando as fraldas do bebê, aparecia um cliente, que às vezes demorava horas, só puxando conversa sem importância para matar o tempo. A vida na roça era solitária, o vizinho mais próximo ficava a uns quinze minutos de caminhada. Por isso, quando as pessoas se encontravam não perdiam a oportunidade de saber das notícias, perguntar sobre a família, os que moravam mais distante, a saúde... Enquanto o serviço se acumulava, ela ficava ali ouvindo as lamúrias, ou os causos de algum fazendeiro entediado. Nesse momento, Landica quietava-se e cumpria seu papel de ouvinte, pacientemente. Seria incapaz de fazer alguma desfeita com os fregueses da mercearia, não era educado e nem inteligente espantar os compradores.
 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Um vislumbre da felicidade


Imagem: http://www.versodeamor.com.br/quem-diz-que-amor-e-falso-ou-enganoso


Iolanda Xavier da Rosa Fonseca nasceu e cresceu numa pequena fazenda no interior de Minas Gerais, em 1944. E como toda mocinha de interior da época, foi criada para casar e constituir família. Então, entre os afazeres próprios da roça – tirar leite, fazer queijo, tratar das galinhas, porcos e gado, plantar e colher... – Landica, como é chamada pelos onze irmãos, também aprendia  prendas domésticas como bordar, costurar, cozinhar, lavar e passar, entre outras. 

Dedicada e muito bonita, apesar da vida dura, não demorou a conquistar um pretendente. Sebastião da Fonseca, rapaz magro de cabelos negros e muito lisos, pele bronzeada, por causa do trabalho árduo debaixo do sol, e rústico, como quem fora criado junto dos bichos, numa família com maioria de homens. Ele era um dos doze filhos do fazendeiro vizinho, que ao contrário dos pais da moça, possuía muitas terras por aquelas bandas. No princípio, Tiãozinho, como era chamado pelos mais próximos, ia cortejar a irmã mais velha de Landica, uma morena de nome Norida. Mas, em pouco tempo se encantou pela menina tímida de cabelos claros - sempre amarrados e escondidos debaixo de um lenço, para protegê-los do sol e evitar que caíssem sobre os olhos - e pele muito delicada delineando um corpo cheio de curvas que, de vez em quando, passeava pela sala onde Tiãozinho cortejava Norida. Ele não teve como ignorá-la, logo estava preso pelos encantos da moça, seu olhar a seguia por toda a parte. Então, completamente fascinado, desistiu da irmã e resolveu firmar namoro com Landica, com planos para casamento o mais rápido possível.
            
Apesar de ter pena de Norida, ela também se apaixonou pelo rapaz, que era dono de um detalhe bastante peculiar: Tiãozinho só enxergava com um dos olhos, o outro era furado. Landica já o tinha visto na escola rural, onde estudavam, e sempre ficou imaginando que tipo de violência ou acidente teria causado aquilo. Tinha ouvido um comentário ou outro, mas nada que Le mesmo tivesse relatado. Era extremamente reprovável que uma moça “de família” ficasse de conversinha com os rapazes e, além do mais, as experiências de convívio entre vizinhos com Tiãozinho não foram nada agradáveis.             

Quando ela e os irmãos faziam o caminho de volta, da escola para casa, precisavam caminhar três vezes mais do que o normal contornando a fazenda do pai dele, mesmo sabendo que se passassem dentro da propriedade iriam poupar muito tempo e cansaço. Mas não valia a pena, pois, quando resolviam cortar caminho pelo pasto, o rapaz os ameaçava com uma espingarda:
            - Ahhh cambada, como se atrevem a fazer trilhas no pasto? Assim acabam com o capim! Da próxima vez vou acertá-los com uns tiros de chumbinho!
            
Landica ficava intimidada por aquelas palavras e o comportamento agressivo dele, por isso nunca teve a oportunidade, a curiosidade e nem coragem de especular mais sobre aquele colega tão arredio. Mas agora o moço se tornara seu namorado e a situação era diferente. Um dia, apesar da timidez, resolveu conversar com Tiãozinho por mais tempo e ficou sabendo da história toda.
            
Ele disse que sofrera um acidente aos três anos de idade, provocado pelo irmão, Tonico, que trabalhava com um facão no feitio de um canzil[1]·. O pequeno Tiãozinho, que passeava pelo quintal, curioso como toda criança, aproximou-se para ver de perto sua lida. Mas Tonico estava distraído e não notou a presença do garoto. A mãe deles percebeu o que ia acontecer e correu em direção aos dois, desesperada, a fim de tentar impedir a fatalidade. Mas, ela estava muito longe. Tonico, ao ajeitar o facão para impulsionar o golpe que daria na madeira, acertou o olho do irmão mais novo, causando uma enfermidade que deixaria marcas permanentes.  A família levou o menino a vários médicos e descobriu que nada podia ser feito. No fim das contas ele ficaria sem um dos olhos, para sempre.
           
Landica não achava Tiãozinho menos encantador por causa do acidente, muito pelo contrário. Ele era o rapaz mais charmoso que conhecera na vida e, apesar da pouca, ou nenhuma, experiência em relação aos rapazes, ela tinha certeza que jamais encontraria outro que lhe agradasse tanto. Ele também demonstrava enorme interesse em relação a ela, não tinham motivos para esperar.
           
Assim, Tiãozinho formalizou o pedido ao pai de Landica, que concedeu a mão da jovem de imediato. Talvez por se tratar de rapaz com boas referências, membro de família abastada e com intenções sinceras. Mas, também porque as moças daquela época eram mesmo criadas para o casamento e, quanto antes se cumprisse esse objetivo, melhor.
           
Casaram-se numa tarde quente. Era um sábado, no mês de setembro de 1961, ela com 17 anos de idade e ele com 19. Sebastião queria que se casassem no dia de seu aniversário, mas como caiu num domingo e não se fazia casamentos nesses dias, decidiram realizar a cerimônia um dia antes.
            
Passaram a noite de núpcias na casa dos pais de Landica. Ela se sentia extremamente constrangida por começar uma vida conjugal ali e a situação piorou ainda mais quando descobriu que uma das convidadas, prima de Tiãozinho, havia mandado alguém espionar o quarto onde o casal iria ficar. O pedido foi feito poucas horas antes da cerimônia. Ao ser interpelada por Landica, a garota que fuçava entre os lençóis, disse que Maura, a prima do noivo, havia mandado procurar por uma toalhinha higiênica, debaixo do travesseiro.
           
Naquele momento, a noiva não soube muito bem o que pensar, pois não entendeu o que Maura pretendia com tal constatação. Mas depois, quando descobriu a serventia da tal toalhinha, se sentiu profundamente invadida e desrespeitada.



[1] Peça que se usa para cangar, ou prender o boi.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Livro 2


Imagem: http://monsenhorhorta.blogspot.com.br/2013/05/o-valor-da-prece.html


...Por tudo que vivo
agradeço,
embora pareça
infortúnio, é assim 
que amadureço.
E por agradecer, 
vivo o tudo!
Às vezes choro,
mas sempre passa!
A noite se faz dia 
e novamente me abraça.


(Rita Reikki, 2007)

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Quando o coda sai da concha


Imagem:http://poemasemfoco.wordpress.com/2012/02/22/conchas/

           
 Ao contrário de Júlio, há casos em que o coda nasce e cresce em contato apenas com a cultura surda e a Língua de Sinais. Quando precisa se inserir na sociedade e começa a frequentar as escolas, rejeita a cultura ouvinte. Muitas vezes, devido ao impacto provocado pelo choque de culturas, abandona ou evita o convívio em escolas mistas.
           
Algumas crianças que nascem e crescem no seio de uma família de surdos não entendem o preconceito, os rótulos e nem mesmo a falsa patologia imposta pelo senso-comum. Quando percebem a maneira pejorativa ou desdenhosa que a sociedade trata seus pais e amigos surdos, torna-se impossível evitar as consequências disso: revolta e rejeição aos ouvintes.
            
Para esses codas a convivência em sociedade se dá somente – e por meio de muito esforço - pela necessidade de estudar e ter uma profissão. Também por imposição dos pais. O depoimento de uma estudante bilíngue, filha de surdos, e ouvinte, recortado do artigo assinado por Quadros e Massutti (2007), ilustra com clareza a situação vivida por filhos de pais surdos na escola de ouvintes.
             
Ela conta que seu maior problema foi à falta de conhecimento da escola em relação a sua condição de coda. Ninguém sabia nada sobre a língua ou a cultura dela. Não sabiam lidar com uma filha de surdos e não estavam preparados para ampará-la e acolhê-la como tal. Ao contrário, os colegas debochavam de seus pais, transformando a convivência em verdadeira tortura. Nesse sentido não é errado afirmar que os codas, assim como os surdos, na maioria das vezes, também são vítimas de bullying[1]

 

FIG. 12 Representação do mundo surdo
Fonte: blog Paula Calisto


            
Para conviver com a sociedade ouvinte, tanto os surdos quanto os codas são sujeitados a várias situações desagradáveis. Porém, muitos deles persistem em levar os estudos até o fim, apesar das dificuldades. O trecho abaixo revela um pouco dessa persistência:


Meus colegas tiravam sarro dos meus pais todo o tempo. Eu tive que conviver com uma perspectiva ouvinte da surdez que eu não compartilhava. Para mim, era normal ser surdo, mas para eles era algo ruim. Eu não gostei da minha primeira escola. Apesar disso, meus pais estavam tão confiantes sobre a escola que nem se importavam com o que a escola pensava sobre eles. Eles sempre me diziam que as pessoas zombavam deles porque não conheciam as pessoas surdas e sua língua de sinais. Nesse sentido, meus pais nos colocam em vantagem em relação aos ouvintes da escola, pois nós sabíamos sobre os surdos, sobre a língua de sinais e que, ainda, eu iria aprender a ler e escrever a língua portuguesa. Essa foi a mensagem dada pelos meus pais a mim, especialmente da minha própria mãe. Para mim, como uma CODA, esse contexto não era fácil e eu tive que aprender como lidar com essas diferentes perspectivas. (MÜLLER DE QUADROS e MASSUTTI, 2007, p. 259).
  
    
Nota-se que a postura da família é de extrema importância para a formação do coda. O apoio dos amigos também.  Mas, a persistência dos pais em não sucumbir aos entraves e apoiar os filhos nas situações mais embaraçosas é fundamental. Reafirmar sua condição de surdo, cidadão e indivíduo dotado de todos os direitos e deveres sociais é essencial para cimentar essa relação de confiança e inspirar respeito no próprio filho. Quando os pais surdos têm uma atitude firme em relação a sua cultura e passa isso para os filhos ouvintes, os laços são fortalecidos e as convicções partilhadas.





[1] O termo bullying tem origem na palavra inglesa bully, que significa valentão, brigão. Mesmo sem uma denominação em português, é entendido como ameaça, tirania, opressão, intimidação, humilhação e maltrato. (Fonte: site nova escola).

sexta-feira, 5 de julho de 2013

A face dura da rejeição


Imagem: http://guiadobebe.uol.com.br/sindrome-da-alienacao-parental/

Quem primeiro notou a mudança foi Marli. Ela ia levar e buscar o filho na escola todos os dias, porém, depois de um tempo, Júlio começou a se esconder da mãe. Só aparecendo depois que os colegas já tinham ido embora. Junto com os desaparecimentos do garoto começaram a sumir também os recados dos professores, marcando reunião de pais e mestres. Estava claro que ele atravessava uma crise de identidade e, por ainda estar em fase de formação de valores, não sabia como lidar com tal situação.
           
Müller de Quadros e Massutti explicam que o ponto de vista bilíngue de um Coda em escola de ouvintes é negligenciado. As características culturais, sociais e linguísticas, que deveriam ser subsídios importantes para sua melhor interação escolar são neutralizadas. A escola recebe essa criança ouvinte, filha de pais surdos, e estabelece um bloqueio entre elas e os pais. No interior dessas escolas, os pais viram “figuras alienígenas”, não são orientados em relação aos seus filhos.
             
A maioria das instituições de ensino fundamental e médio não está preparada nem para compreender a cultura surda e tampouco a língua de sinais. Tal fato não é problema detectado somente nas escolas públicas, também os educandários particulares ignoram essa realidade. “Isso cria uma cisão entre o mundo escolar e o universo íntimo, espaços que concorrem de maneira distinta na forma de colocar relevância aos assuntos e construir um olhar para a realidade.” (MÜLLER de QUADROS; MASSUTTI, 2007, p. 257). E denunciam:


[...] A escola desconhece os surdos e sua língua. Então, quando esta criança precisa ir à escola, ela se sente fora de seu mundo, ela não tem uma relação de pertencimento com aquele espaço. Para a escola, os pais surdos são vistos como alienígenas. A escola não consegue atribuir a esses pais o status de pais, por que eles são surdos. Eles não são vistos como pais, mas vistos como surdos. A eles não é outorgado o direito de serem pais. A escola repassa à própria criança a responsabilidade dos pais, porque ela ouve. (MÜLLER de QUADROS; MASSUTTI, 2007, p. 257).
           
Na maioria das vezes o que acontece é um estranhamento entre a instituição de ensino e os pais surdos. Por ser um espaço composto por ouvintes e para ouvintes, não há nenhum esforço para que haja uma interação entre os professores e os pais de codas. Isso estabelece uma fronteira comunicacional e também desconforto para o aluno coda, que percebe e vivencia essa animosidade entre as culturas.
             
Nem sempre resistem às pressões ouvintistas e acabam se equivocando em priorizar a língua falada, ou mesmo rejeitar a Libras. Júlio, com o tempo, também começou a trocar os passeios com os pais nas associações de surdos pela casa dos avós ou tios. Ele não queria mais participar das festas e manifestações culturais dos surdos. De alguma forma, rejeitava a ideia de pertencer a uma cultura que é estranha para a maioria e excluída pela sociedade. As autoras MÜLLER de Quadros e Massutti (2007) esclarecem:


Paradoxalmente, os codas também são vítimas do próprio preconceito que cada língua porta. Muitas vezes, esse sujeito não compartilha de uma série de estereótipos disseminados nos distintos sistemas culturais, justamente porque tem a percepção da diferença em sua vivência cotidiana. Entretanto, esse sujeito não consegue apagar a leitura cultural que faz de si e dos outros, e é intensamente afetado por ela. Por haver internalizado os sistemas de representações linguísticos e culturais, esse sujeito reconhece os preconceitos que se incrustaram em ambas as línguas, em cada uma
a sua forma. (MÜLLER de QUADROS; MASSUTTI, 2007, p. 251).

            
Nesses momentos de dúvida e questionamento de valores o apoio dos membros ouvintes mais próximos é de extrema importância para conscientizar o coda do seu papel como filho de surdos, bilíngue. É preciso um trabalho conjunto entre família e escola a fim derrubar os muros impostos pela oralidade e valorizar a cultura e a língua dos surdos. Assim, seus filhos aprendem a ter orgulho da condição de ponte entre essas duas realidades.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Codas: uma ponte entre dois mundos



Os filhos de surdos têm acesso às duas línguas sem maiores dificuldades, já que aprendem língua de Sinais e oral, geralmente, com membros da família que, nesse caso, é composta por surdos e ouvintes. Esclarecendo que o Coda nasce de pai e mãe surdos. Por isso assume instantaneamente o papel de intérprete dos pais e para os pais. Porém, alguns Codas sentem-se extremamente desconfortáveis ao serem interpelados - tanto por surdos como por ouvintes - para o cumprimento dessa missão imposta tanto pelos pais quanto pelos ouvintes mais próximos. Nesse sentido, o Coda acaba sendo utilizado como um objeto de tradução simultânea para ambas as partes.
           
Porém, nada é tão simples. As línguas têm sua subjetividade e as diferenças de interpretação não podem ser traduzidas. Assim, os Codas se veem numa situação delicada e difícil de resolver. Esse desconforto é apontado por MÜLLER de Quadros e Massutti (2007) quando descrevem os conflitos gerados pela convivência do Coda com dois grupos distintos e representações linguísticas díspares – ouvintes, representados pela Língua Portuguesa e surdos pela Libras. Um marcado pela falta de conhecimento e interesse pelo outro, que por sua vez tem a própria língua demarcada pelo embate e rejeição social.
            
 A convivência familiar de uma pessoa com os costumes, princípios e crenças acolhidos e ensinados no interior de cada lar, de geração em geração, acaba por interferir na percepção que o sujeito tem do mundo ao redor. Contudo, ainda há os conflitos suscitados pelo campo das significações de toda língua e isso não é diferente com a língua de sinais e a língua portuguesa. O Coda fica na fronteira entre ambas. Ele pertence tanto ao grupo cultural dos surdos quanto dos ouvintes e isso se traduz em uma imensa agonia na interpretação e tradução de ambos.
            
Não há como passar para a língua portuguesa uma palavra, que em Libras é repleta de subjetividade, sem perder muito do significado. O mesmo acontece quando se tenta traduzir para Libras frases que carregam carga semântica própria da língua portuguesa e que no imaginário do surdo tem outro tipo de representação. “Não é apenas a forma de dizer na língua de sinais e na língua falada que difere, mas o próprio campo afetivo se constitui culturalmente de substâncias diferentes.” (MÜLLER de QUADROS; MASSUTTI, 2007, p. 248-249).
            
O impasse se mostra mais acentuado na fase em que a criança Coda começa a interagir com as duas culturas. É impossível não perceber a diferença de valoração entre uma e outra. Para a criança, o senso comum, muitas vezes é o que dita o certo e o errado, o melhor e o pior. Isso pode ser ilustrado por meio de uma experiência vivida por outra personagem do capítulo 2 : Marli, filha de Iolanda, surda, casada com Carlos, também surdo. O casal tem um filho de 13 anos chamado Júlio, ouvinte. Ele aprendeu a língua de sinais com os pais e a oralidade com os tios e avós. Tornou-se bilíngue, como esperado.
            
O problema surgiu quando o garoto começou a frequentar a escola normal do ensino fundamental. Em contato com as outras crianças ouvintes ele começou a confrontar as duas culturas e, consequentemente, se comparar aos colegas. Isso é comum entre crianças e adolescentes, levando-se em conta que estão na fase de desenvolvimento corporal e formação da personalidade. Até aqui não há problema. Mas há de se considerar que Júlio, assim como todos os CODAs, está em contato direto com duas culturas e línguas completamente indissolúveis e heterogêneas. Em algum momento ele se viu numa encruzilhada onde teria que escolher entre uma e outra. Nesse impasse prevaleceu a mais forte: a oralidade. Ela o tornava igual aos colegas com quem convivia diariamente na escola.