Meses depois da cerimônia, os
recém-casados foram morar em uma das fazendas do Senhor Cristiano Fonseca, pai
de Tiãozinho. Para Landica, a vida por ali também não foi fácil, pois, em anexo
com a casa tinha uma pequena mercearia que atendia aos fazendeiros da região,
suprindo suas despensas. Como não tinham nenhum funcionário, Landica precisava
acordar antes do sol nascer para dar conta de todo o serviço doméstico e ainda
atender no comércio.
Tiãozinho ficava encarregado de
buscar os mantimentos em Lagoa Formosa, arraial a mais ou menos 20 quilômetros
da fazenda. Às vezes, ele fazia uns carretos para algumas cidades mais
distantes, a fim de complementar a renda familiar. O marido sonhava alto,
queria que o negócio crescesse e desse muitos lucros. Ela não via nenhum mal
nisso, até admirava sua garra para o trabalho e preocupação com o futuro.
O tempo passou e quando a vida já
estava se tornando muito monótona: a novidade. Um dia, Landica começou a sentir
umas coisas estranhas e já imaginou o que pudesse ser, afinal, estava em tempo.
Os seios se dilatavam, as náuseas se tornavam frequentes e, pouco tempo depois,
Iolanda tinha a certeza. Passados dez meses, em setembro de 1962 ela descobriu
que eles iriam se tornar uma família de verdade. Dentro de poucos meses
chegaria um bebê para revigorar a felicidade naquela casa.
E foi logo na primeira gravidez que
Landica descobriu vários problemas: sua baixa resistência, fraqueza e
intolerância a todos os tipos de alimentos em períodos de gestação. Não
conseguia segurar nada no estômago. Os enjoos eram tão fortes que, muitas vezes,
Tiãozinho tinha que coloca-la no carro e se deslocar 40 quilômetros até Patos
de Minas, uma das cidades mais bem estruturadas da região, para atendimento
médico. Devido à gravidade dos sintomas ela precisava de um hospital bem
preparado, com clínicos especializados, e isso ainda não existia no pequeno
arraial, Lagoa Formosa.
A cada 60 dias, Landica retornava ao
hospital para se reidratar e nutrir. Era nesses pequenos intervalos de mais ou
menos três dias que a futura mamãe conseguia ingerir uma sopinha, ou qualquer
outra comida leve, sem vomitar logo em seguida, como acontecia em casa. Isso
somente era possível graças aos remédios misturados ao soro.
Mas, quando voltava para a fazenda, os vômitos
voltavam com ela. Esse era um problema que os médicos tentavam resolver na base
do “erro e acerto” com incontáveis medicamentos, entre eles alguns
antibióticos. Landica não sabia muito sobre aqueles remédios, apenas tomava e
seguia as recomendações dos clínicos, que justificavam dizendo que a
desnutrição baixava a imunidade e tornava bem mais fácil o contágio das doenças
oportunistas. No entanto, nenhum deles tinha o efeito esperado.
Após sete meses entre hospital e fazenda,
finalmente, no dia 1º de abril de 1963, Marlúcia nasceu, trazendo no sorriso toda
a alegria de que seus pais precisavam. Voltaram para a fazenda com a filha nos
braços e novas expectativas para o futuro. Landica sentia-se muito feliz por
ter sua menininha para criar. Era uma garotinha linda, de bochechas rosadas e
olhos espertos que a fazia lembrar-se dos seus tempos de criança, quando
sonhava com bonecas. Mas nem em sonho havia imaginado uma bonequinha tão perfeita.
A jovem mãe adorava alimentar, banhar e brincar com o bebê, que era sua melhor
companhia na maior parte do tempo.
Porém, as tarefas domésticas também
precisavam ser cumpridas. Como as duas ficavam sozinhas quase o tempo todo,
Landica carregava a menininha enganchada nas cadeiras para todos os lugares. Às
vezes Marlúcia não ficava quieta, por isso, quando a mãe ia cozinhar no fogão à
lenha, com ela no colo, quase sempre o calor da fornalha lhe queimava o pezinho.
Mas, ainda assim, a garotinha preferia ficar nos braços. Quando podia, Landica colocava-a
para brincar em algum lugar próximo a si com bonecas improvisadas de espigas de
milho, bolas de meia, colheres, que ela batia uma na outra para fazer barulho,
e caixinhas de fósforos, que também lhes servia de chocalho.
A mercearia dava muito trabalho,
sempre que se via atarefada alimentando os porcos e as galinhas, ou até mesmo
trocando as fraldas do bebê, aparecia um cliente, que às vezes demorava horas,
só puxando conversa sem importância para matar o tempo. A vida na roça era
solitária, o vizinho mais próximo ficava a uns quinze minutos de caminhada. Por
isso, quando as pessoas se encontravam não perdiam a oportunidade de saber das
notícias, perguntar sobre a família, os que moravam mais distante, a saúde... Enquanto
o serviço se acumulava, ela ficava ali ouvindo as lamúrias, ou os causos de
algum fazendeiro entediado. Nesse momento, Landica quietava-se e cumpria seu
papel de ouvinte, pacientemente. Seria incapaz de fazer alguma desfeita com os
fregueses da mercearia, não era educado e nem inteligente espantar os
compradores.





