quinta-feira, 2 de junho de 2016

Muito além da proteção





Marli já estava com mais ou menos uns dez anos e seguia sua rotina na APAE, porém, precisava ser alfabetizada. Então os pais resolveram seguir algumas recomendações médicas e procurar por escolas especializadas. Landica e Tiãozinho já estavam pesquisando uma instituição em Uberaba quando descobriram o Instituto Santa Inês em Belo Horizonte.
            O lugar era administrado por irmãs da Congregação Filhas de Nossa Senhora do Monte Calvário e o colégio representava o que existia de melhor para quem tinha necessidade de atenção especial no processo de aprendizagem: pessoas surdas, assim como Marli. Por ser uma escola de renome e particular, somente era acessível a quem pudesse pagar. Felizmente isso não seria problema. Quando estava tudo certo para a inserção de Marli no colégio, ainda restava o entrave da hospedagem, ou moradia. Landica não poderia se mudar para a capital.
            Na procura de alternativas para que a filha pudesse frequentar as aulas naquela instituição, conheceu uma das freiras que trabalhava no instituto. Foi ela quem indicou uma pensão, próxima ao colégio, onde algumas alunas, que moravam em outras cidades, se hospedavam.

            O CASAL, LEVANDO MARLI PELA MÃO, PROCUROU A DONA DA PENSÃO: senhora Maria. Depois de muita conversa ficou combinado que a proprietária do pensionato, com a ajuda da filha, que também se chamava Maria, levaria e buscaria Marli na escola. Também se comprometeram em preparar e ministrar os remédios que ela fazia uso ininterrupto desde os três aninhos. A responsabilidade era grande, pois os medicamentos deveriam ser dados sem falta e nem atraso, todos os dias.      Naquela época, a escola em Belo Horizonte parecia a mais apropriada, então, a contragosto e desolada, Landica deixou sua menina, de apenas onze anos, aos cuidados de dona Maria e das irmãs do Instituto Santa Inês. Voltou para casa com a conhecida sensação de estar deixando algo importante para trás e nesse momento, pensou no que disseram os médicos:
            - É o melhor para ela. Lá Marli será alfabetizada e terá mais chances de levar uma vida normal. – Por isso Landica se afastava da filhinha mais uma vez. Não poderia ser egoísta querendo segurá-la junto a si, no interior, onde os recursos eram limitados. Só para o bem de Marli é que a mãe abria mão de sua presença. Ela sabia que não seria nada fácil cortar mais uma vez o cordão umbilical que unia as duas e estava certa.
            Marli não se conformava e sempre relutava em se despedir dos pais. Aquilo era um veneno que Landica engolia aos poucos, para curar a filha. Por várias vezes teve o impulso de pegar a menina pela mão e sair correndo dali, sem olhar para trás e nem parar, até chegar em casa, onde estariam a salvo.



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