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| http://organizando-ideias.blogspot.com.br/2011/08/e-preciso-ser-surdo-para-entender.html |
Quando se faz a pergunta, parece que
a resposta é espontânea e obvia: surdo é o sujeito que não ouve. A definição
encontrada no dicionário Soares Amora (2008, p. 701) reforça esse conceito:
“adj. 1. Que não ouve ou que ouve muito pouco”. Realmente, essa é a explicação
universal para o termo técnico. Mas será que isso engloba todo o significado da
palavra e explica quem é o indivíduo surdo, como ele vive e sente essa surdez?
O que os médicos chamavam de deficiência
auditiva já não é mais como antes, nem na terminologia e tampouco no
significado. E, como esclarecem Santana e Bérgamo (2005, p. 03), a “mudança de
nomenclatura não é só terminológica, mas conceitual”. A surdez transita de
patologia para fato social e o deficiente auditivo torna-se e passa a ser
chamado surdo: pessoa normal, apenas diferente.
Romeu Kazumi Sassaki, autor do livro Inclusão. Construindo uma sociedade para todos, esclarece que o
termo usado para se referir ao surdo pode variar de acordo com a situação. “A
rigor, diferencia-se entre deficiência auditiva parcial (quando há resíduo
auditivo) e surdez (quando a deficiência auditiva é total)”. Porém, ele alerta
que surdo-mudo; pessoa surda; ou pessoa com deficiência auditiva são
denominações a serem evitadas, pois não corresponde a realidade do indivíduo em
questão. Deve-se levar em conta que a denominação “surdo” foi escolhida por
eles próprios. Pois não remete a condição de doença e possibilita enxergar o
surdo como igual. Tanto que alguns fazem questão de afirmar que podem tudo, tal
qual um ouvinte, menos ouvir. Por isso eles desenvolveram sua linguagem através
de outros recursos mais relacionados à natureza Visio motora - linguagem
orofacial, gestual e datilológica - (1995, p.2).
Apesar de essa visão culturalista ser
razoavelmente nova - se for levada em conta a época em que os personagens deste
livro cresceram e a forma como eram tratados - já muda muito na maneira que
eles próprios se veem. Surdos preferem ser chamados pelo nome, como qualquer
pessoa, porém, caso seja necessário uma nomenclatura, que sejam surdos,
dispensando a frieza técnica e a carga semântica que envolve o termo
“deficiente auditivo”.
Algumas pessoas nascem com a surdez,
outras adquirem depois de adultas. No primeiro caso, é preciso contar com a
sensibilidade da família em se adequar ao fato e facilitar a adaptação do surdo
ao meio social em que vive. De acordo com Rinaldi (1997, p. 13) pelo menos uma
em cada mil crianças nasce profundamente surda. No segundo, há um conflito
maior, já que a audição foi perdida, aos poucos ou abruptamente, dependendo do
tipo de surdez e a maneira que foi adquirida. Em ambos o processo é complicado
e trabalhoso. Porém, algumas variações da surdez são reversíveis completa ou
parcialmente. E, apesar de “ser surdo” ou “estar surdo” não significar
limitação para o indivíduo, muitos deles ainda procuram viver conforme os
padrões ouvintistas[1].
Nessa busca, influenciados pelos pais ou por conta própria, sempre acabam num
consultório ou numa mesa de cirurgia - quando o processo é mais delicado. Seja
para adquirir aparelhos amplificadores e tentar ouvir - mesmo que sons
disformes e incompreensíveis como ruídos, chiados e barulhos desagradáveis - ou
inserir um dispositivo coclear.
Vale esclarecer que grande parte dos
surdos não concorda com o uso de aparelhos auditivos ou implantes cocleares,
pois defendem que a surdez seja uma diferença e não uma deficiência. Usar tais
recursos seria descaracterizá-los ou tentar igualá-los aos ouvintes,
desprezando sua condição. Sem falar no desconforto de tais procedimentos.
Everaldo Santos é uma dessas pessoas. Ele não concorda com procedimentos que
visam devolver ou inserir a audição ao surdo, pois além de serem
desconfortáveis e doloridos não têm o resultado esperado. “Não há deficiência a
ser curada, quando um surdo passa a ouvir quem se beneficia disso são os ouvintes
que antes não entendiam a língua dele. Já que ele se tornou ouvinte é obrigado
a se fazer entender através da oralidade.”
[1] O ouvintismo é “um
conjunto de representações dos ouvintes, a partir do qual o surdo está obrigado
a olhar-se e narrar-se como se fosse ouvinte”. (SKLIAR, apud CUNHA 2007, p.
58).

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