terça-feira, 12 de março de 2013

O que é ser surdo?

http://organizando-ideias.blogspot.com.br/2011/08/e-preciso-ser-surdo-para-entender.html



 Quando se faz a pergunta, parece que a resposta é espontânea e obvia: surdo é o sujeito que não ouve. A definição encontrada no dicionário Soares Amora (2008, p. 701) reforça esse conceito: “adj. 1. Que não ouve ou que ouve muito pouco”. Realmente, essa é a explicação universal para o termo técnico. Mas será que isso engloba todo o significado da palavra e explica quem é o indivíduo surdo, como ele vive e sente essa surdez?

O que os médicos chamavam de deficiência auditiva já não é mais como antes, nem na terminologia e tampouco no significado. E, como esclarecem Santana e Bérgamo (2005, p. 03), a “mudança de nomenclatura não é só terminológica, mas conceitual”. A surdez transita de patologia para fato social e o deficiente auditivo torna-se e passa a ser chamado surdo: pessoa normal, apenas diferente.

 Romeu Kazumi Sassaki, autor do livro Inclusão. Construindo uma sociedade para todos, esclarece que o termo usado para se referir ao surdo pode variar de acordo com a situação. “A rigor, diferencia-se entre deficiência auditiva parcial (quando há resíduo auditivo) e surdez (quando a deficiência auditiva é total)”. Porém, ele alerta que surdo-mudo; pessoa surda; ou pessoa com deficiência auditiva são denominações a serem evitadas, pois não corresponde a realidade do indivíduo em questão. Deve-se levar em conta que a denominação “surdo” foi escolhida por eles próprios. Pois não remete a condição de doença e possibilita enxergar o surdo como igual. Tanto que alguns fazem questão de afirmar que podem tudo, tal qual um ouvinte, menos ouvir. Por isso eles desenvolveram sua linguagem através de outros recursos mais relacionados à natureza Visio motora - linguagem orofacial, gestual e datilológica - (1995, p.2).

Apesar de essa visão culturalista ser razoavelmente nova - se for levada em conta a época em que os personagens deste livro cresceram e a forma como eram tratados - já muda muito na maneira que eles próprios se veem. Surdos preferem ser chamados pelo nome, como qualquer pessoa, porém, caso seja necessário uma nomenclatura, que sejam surdos, dispensando a frieza técnica e a carga semântica que envolve o termo “deficiente auditivo”.

Algumas pessoas nascem com a surdez, outras adquirem depois de adultas. No primeiro caso, é preciso contar com a sensibilidade da família em se adequar ao fato e facilitar a adaptação do surdo ao meio social em que vive. De acordo com Rinaldi (1997, p. 13) pelo menos uma em cada mil crianças nasce profundamente surda. No segundo, há um conflito maior, já que a audição foi perdida, aos poucos ou abruptamente, dependendo do tipo de surdez e a maneira que foi adquirida. Em ambos o processo é complicado e trabalhoso. Porém, algumas variações da surdez são reversíveis completa ou parcialmente. E, apesar de “ser surdo” ou “estar surdo” não significar limitação para o indivíduo, muitos deles ainda procuram viver conforme os padrões ouvintistas[1]. Nessa busca, influenciados pelos pais ou por conta própria, sempre acabam num consultório ou numa mesa de cirurgia - quando o processo é mais delicado. Seja para adquirir aparelhos amplificadores e tentar ouvir - mesmo que sons disformes e incompreensíveis como ruídos, chiados e barulhos desagradáveis - ou inserir um dispositivo coclear.

 Vale esclarecer que grande parte dos surdos não concorda com o uso de aparelhos auditivos ou implantes cocleares, pois defendem que a surdez seja uma diferença e não uma deficiência. Usar tais recursos seria descaracterizá-los ou tentar igualá-los aos ouvintes, desprezando sua condição. Sem falar no desconforto de tais procedimentos. Everaldo Santos é uma dessas pessoas. Ele não concorda com procedimentos que visam devolver ou inserir a audição ao surdo, pois além de serem desconfortáveis e doloridos não têm o resultado esperado. “Não há deficiência a ser curada, quando um surdo passa a ouvir quem se beneficia disso são os ouvintes que antes não entendiam a língua dele. Já que ele se tornou ouvinte é obrigado a se fazer entender através da oralidade.”




[1] O ouvintismo é “um conjunto de representações dos ouvintes, a partir do qual o surdo está obrigado a olhar-se e narrar-se como se fosse ouvinte”. (SKLIAR, apud CUNHA 2007, p. 58).

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