sexta-feira, 7 de junho de 2013

Como se diz?

Imagem: http://www.inglesnapontadalingua.com.br

Amine Leitão, estudante de jornalismo em uma faculdade de Salvador, BA, certa vez se viu às voltas com uma matéria, que precisava escrever, sobre a inclusão de deficientes no mercado de trabalho. Era simples, só teria que pesquisar um pouco e entrevistar as fontes. Ela ficou sabendo que um supermercado, nos arredores da faculdade, tinha um quadro de empregados com esse perfil e foi até lá a fim de entrevistá-los. No entanto, não foi possível concluir sua tarefa. Havia duas empacotadoras que poderiam ter dado as entrevistas, mas eram surdas e Amine não sabia se comunicar com elas.

Essa história serve para ilustrar a falta de interatividade entre surdos e ouvintes no Brasil, assim como a situação constrangedora para ambas as partes. Uma porque não consegue entender e a outra por não ser entendida, apesar de ter sua língua reconhecida por lei. Amine, ao contrário da maioria, se mostrou curiosa sobre o significado dos gestos manuais e faciais utilizados pelas surdas.
            - Será que aprender Libras é assim tão complicado? Todos aqueles sinais parecem muito complexos. – Ela pensou.
 


Fig.9: Os sinais parecem mais complicados do que realmente são.
Fonte: site Retratos da Alma


Na verdade, aprender a se comunicar por meio da Libras pode ser divertido e prazeroso. As semelhanças entre a língua de sinais e a língua falada se dão tanto em relação à sua complexidade quanto à sua expressividade. Devido a sua modalidade viso-gestual são utilizadas as mãos, assim como expressões faciais e corporais. Assim, são produzidos os sinais linguísticos que são captados pelos olhos e traduzidos pela mente. No caso das línguas orais é utilizada a modalidade oral auditiva, nela os sons são percebidos pelos ouvidos. “Além disso, as diferenças não se restringem apenas ao canal de comunicação, mas também às estruturas gramaticais de cada língua.” (Oliveira e Cunha, 2009, pág. 2).

 Como qualquer outra tarefa, para bem apreender a Libras, basta interesse, dedicação e trabalho. Por meio das mãos é possível dizer tudo. A figura abaixo mostra o alfabeto como é na Língua Brasileira de Sinais:



FIG. 10: Os gestos correspondentes a cada letra do alfabeto.
Fonte: site Vejo Vozes (Eebllibras)

 A Libras tem gramática, fonologia e significados próprios. Os sinais representam as palavras e isso é feito através da combinação do movimento das mãos com certa representação corporal. Por exemplo, parte externa da mão sobre os lábios, quer dizer mamãe, ou dedo indicativo acima do lábio superior, no canto da boca, é papai. Mas não é regra que esses sinais sejam os mesmos para todos os surdos. Ao contrário, há muitas variações de acordo com a região do Brasil. A língua de sinais também tem regionalismo, assim como outras línguas. Os sinais variam não só de acordo com o estado, mas também com as culturas regionais, religiões, grupos sociais, etc. No entanto, alguns parâmetros foram encontrados, como descrevem Oliveira e Cunha (2009):

Os parâmetros encontrados em língua de sinais são os seguintes:
Configuração de mãos, que seria a forma das mãos durante a realização do sinal; ponto de articulação ou locação, que é o espaço de enunciação; movimento, envolvendo movimentos internos da mão, do pulso e outros direcionais no espaço; orientação/ direcionalidade, referindo-se à direção da palma da mão ao produzir os sinais; expressão facial e/ou corporal, que são os componentes não manuais importantes na distinção entre alguns sinais. Pesquisas mostram que a língua de sinais, assim como a língua oral, se estrutura em níveis fonológico, morfológico, sintático, semântico e pragmático. (OLIVEIRA;CUNHA, 2009, pp. 02-03)

Apesar de ambas as línguas (LS e a Língua Portuguesa) possuírem morfologia, sintaxe, semântica e fonologia, foi detectado diferenças expressivas entre elas. Oliveira e Cunha (2009) afirmam que por se tratar da língua de sinais a morfologia “apresenta características bem complexas em relação à derivação, flexão e composição, sendo observáveis quanto à motivação icônica, lexicalização e sistematicidade linguística”. Isso pode ser detectado observando as modificações da configuração de mãos durante o diálogo. O nível fonológico é aplicado de forma abstrata, já que na Libras não se trabalha com os sons, efetivamente.

Na sintaxe há controvérsias em relação à organização das frases. Nota-se certa flexibilidade na ordem das palavras. Ainda assim, a forma que prevalece é Sujeito-Verbo-Objeto. Há também discussões sobre os estudos das relações, foi detectado que não existe ligação direta entre os significados da língua de sinais e a língua oral. “Ressaltando que os sinais não são criados aleatoriamente, mas seguindo critérios estruturais pré-definidos.” Oliveira e Cunha (2009, p. 4).

 A despeito de possuir uma estrutura linguística bem organizada, o que se nota é um grande descaso em relação à disseminação da Libras. Essa língua, relegada pela sociedade, ainda não conta com a credibilidade e apoio necessários para conquistar espaço como disciplina nas grades fixas de escolas regulares e faculdades brasileiras. É considerada “pantomima” ou “mímica”, incapaz de transmitir mensagens de forma dinâmica, como apontado por alguns pesquisadores.

Continuar rejeitando a Libras é limitar os surdos e o seu direito de ser e de viver sua própria humanidade. Teixeira e Silva, em sua tese de doutorado apresentada na PUC-Rio em agosto de 2004, esclarecem que uma das principais características dos seres humanos é a capacidade de simbolizar e construir, por meio das linguagens, o mundo ao seu redor. A língua dos surdos (língua de Sinais) é utilizada quase que exclusivamente por eles próprios, poucos são os nativos de outras línguas que sabem utilizar a LS.

Os pesquisadores afirmam que a observação empírica confirma o status inferiorizado da Libras em comparação com a Língua Portuguesa, para quem as conhece. Alguns grupos sequer sabem da existência de uma língua de sinais. A desconsideração da LS traz grandes prejuízos à comunidade surda, pode-se afirmar até que “esta comunidade perde, aos olhos dos outros, sua humanidade, sua possibilidade de significar junto com outros grupos sociais.” (TEIXEIRA E SILVA, 2004, p. 23).

 Por isso, convém ratificar que, a implantação da Língua de Sinais nas instituições, principalmente nas escolas regulares de ensino básico, só iria enriquecer a comunicação entre os membros da sociedade. Assim seria instituído o bilinguismo, que viabiliza a interatividade entre surdos e ouvintes em um nível de compreensão equivalente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário