sexta-feira, 22 de março de 2013

Nem todo surdo é mudo, aliás, poucos são




 




 

O ouvido humano é dividido em três partes, cada uma com função distinta[1]: O ouvido externo, que serve para coletar o som e levar, por um canal, ao ouvido médio. O ouvido médio, que por sua vez transforma a energia de uma onda sonora em vibrações internas da estrutura óssea do ouvido médio para, enfim, converter estas vibrações em uma onda de compressão ao ouvido interno. E, finalmente, o ouvido interno transforma a onda de compreensão em impulsos nervosos que podem ser transmitidos ao cérebro através da cóclea, órgão em forma de caracol. Rinaldi (1997) explica:


Os três ossos do ouvido médio são os menores do corpo. Devido ao seu formato, chamam-se: martelo, bigorna e estribo. Eles estão interligados de maneira que as vibrações de um osso provocam vibrações no próximo osso da cadeia, levando as ondas sonoras até o ouvido interno, onde são transformadas em impulsos elétricos, que chegam ao cérebro através do nervo auditivo. [...] As vibrações que as ondas sonoras causam no ar são convertidas em sinais elétricos na cóclea do ouvido interno, onde penetram por uma membrana chamada janela oval e passam para um canal cheio de líquido. Tudo isso tem mais ou menos o tamanho do dedo mindinho e o formato de um caracol. O canal contém membranas com milhares de terminações nervosas parecidas com cílios. É o chamado órgão de Corti. As vibrações movimentam o líquido, que mexe os cílios e faz os nervos dispararem sinais elétricos. Esses sinais são transmitidos ao cérebro por meio do nervo auditivo. Vibrações mais fortes criam sons mais intensos. (RINALDI, 1997, p. 11, 12).


Fig. 5: Parte interna do aparelho auditivo
Fonte: Site da Universidade do Rio de Janeiro (UFRJ)


Qualquer lesão ou irregularidade em um desses três ouvidos afeta diretamente a capacidade auditiva. Muitas pessoas desenvolvem esses problemas ao longo da vida por causa de acidentes ou doenças. Outras, simplesmente nascem com surdez devido a irregularidades durante a gestação. E ainda há quem a adquira devido à incompatibilidade sanguínea entre os pais.
Tecnicamente a surdez é classificada em leve, moderada, severa e profunda, podendo ser condutiva (ou condutiva-perceptiva), que afeta o ouvido externo ou médio; neurossensorial ou sensório-neural, envolve o ouvido interno ou o nervo auditivo; e mista, quando o problema se localiza no ouvido médio e interno. Rinaldi (1997, p. 13) exemplifica:


A surdez condutiva faz perder o volume sonoro: é como tentar entender alguém que fala muito baixo ou está muito longe. A surdez neurossensorial corta o volume sonoro e também distorce os sons. Essa interpretação descoordenada de sons é um sintoma típico de doenças do ouvido interno. [...] A surdez neurossensorial pode se manifestar em qualquer idade, desde o pré-natal até a idade avançada. A cóclea é um órgão muito sensível e vulnerável aos fatores genéticos, às doenças infantis, aos sons muito altos e a alguns medicamentos. Muitos idosos também sofrem de surdez neurossensorial. (RINALDI, 1997, p. 14)


 As causas[2] são diversas e variam entre pré, neo e pós-natal. A gravidade dos danos à audição acompanha a classificação da própria surdez (leve, moderada, severa e profunda). Tudo depende do grau de comprometimento do aparelho auditivo ou gravidade das lesões ou doenças, conforme descrito na tabela 3:


CAUSAS


CARACTERÍSTICAS

PRÉ-NATAL

Surdez do tipo congênita, aquela que se pode constatar no ato do nascimento. Adquirida através da mãe, durante a gestação.

Hereditariedade
É o processo biológico que permite a transmissão de informações contidas no DNA e transmitida, de geração a geração, por meio dos genes. No caso da surdez, as causas são endógenas ou exógenas. No primeiro caso, por influência da consanguinidade, quando existe histórico familiar ou quando não há compatibilidade sanguínea entre o pai e a mãe. No segundo, os fatores hereditários não são a origem da deficiência e sim alterações provocadas (por rubéola, por exemplo) no meio intrauterino.

Rubéola
Doença infecto-contagiosa causada por vírus (togavirus). A gestante é contagiada através das vias aéreas e, por sua vez, transmite para o feto pela placenta, por meio da corrente sanguínea. Em sua forma congênita causa surdez e até mesmo cegueira na criança.

toxoplasmose
É contraída através do contato com fezes de gato ou ingestão de alimentos mal cozidos e higienizados. Transmitida para o feto através da placenta.

citomegalovírus
Doença viral da família do Herpes.

Herpes
Herpes simples é doença sexualmente transmissível e pode ser transmitida ao feto no útero ou durante o parto.

Sífilis
Também é doença sexualmente transmissível. Transmitida ao bebê pela mãe através de infecção intrauterina.

Medicamentos
Algumas drogas como antibióticos e diuréticos, ingeridos pela gestante, podem causar danos à audição do bebê.

Traumatismos
Traumas obstétricos, como escoriações, cortes ou hematomas.

Malformações
Anomalia na constituição de algum órgão. A malformação aparece como consequência das causas acima.


NEO-NATAL

Surdez em recém-nascidos, adquirida até oito dias após o parto. A criança fica surda por causa problemas que surgem durante o parto.
Eristoblastose fetal
Destruição das hemácias pelo soro materno devido à incompatibilidade sanguínea – fator RH.

Prematuridade

Quando o bebê nasce antes de completar as 37 semanas de gestação. O organismo é mais frágil, pouco peso, as orelhas são finas e moles, podendo haver malformação do ouvido.

Fórceps[3]

Aparelho em formato parecido com uma colher, usado durante partos naturais (via vaginal) em caso de urgência, desgaste da mãe ou sofrimento do feto[i].

Icterícia

É causada pelo excesso de bilirrubina no sangue, deixa a pele e o branco dos olhos amarelados. A bilirrubina é um pigmento gerado pelo metabolismo das células vermelhas do sangue. A criança apresenta os sintomas da icterícia quando a formação de bilirrubina é maior do que a capacidade do seu fígado de metabolizá-la. A doença se manifesta por volta do segundo, terceiro dia de vida.

PÓS-NATAL

Todo o tempo depois do parto. Alterações do ouvido interno e das vias nervosas auditivas advindas nesse período são denominadas disacusias neurossensoriais e podem afetar um ou ambos os ouvidos. A surdez, nesse caso, é severa ou profunda. Porém, também pode ocorrer a surdez condutiva, ou do ouvido médio, causada por otites, bloqueio da trompa de Eustáquio ou corpo estranho no canal auditivo externo. Essa última é leve e reversível, podendo ser tratada facilmente.

Otites
Termo médico para todo tipo de infecção no ouvido. Pode ser aguda ou crônica. Afeta o ouvido externo ou o médio.

Parotidites

Tumor de parótida ou tumor nas glândulas salivares. A infecção é causada pelo vírus da caxumba e, frequentemente, resulta em manifestações discretas ou é assintomática. È contagiosa e predomina o crescimento no número de casos na primavera e inverno. Pode levar à surdez transitória ou permanente em um para 20 mil casos, usualmente de início brusco e unilateral em cerca de 80% das vezes.

Sarampo

É uma doença infectocontagiosa provocada por vírus (Morbili vírus) e transmitida através de espirros e tosse. Os sintomas são: manchas vermelhas na pele, febre, tosse, mal-estar, conjuntivite, coriza, perda do apetite e manchas brancas na parte interna das bochechas (exantema de Koplik). Leva até doze dias entre o contágio e o aparecimento dos sintomas, porém a doença pode ser transmitida também nesse período. Entre as complicações graves do sarampo estão otite, pneumonia, encefalite. Quando leva a uma infecção no ouvido médio, pode danificar a cóclea.

Meningite

Inflamação das meninges (membrana que envolve o cérebro) causada por bactérias ou vírus (pneumococo ou meningococo, por exemplo), é contagiosa, sendo que a bacteriana é a mais grave. Há uma produção de pus que espalha a doença por todo o sistema nervoso central. Atinge a garganta, o nariz e os ouvidos, pode destruir o órgão de Corti e o nervo auditivo. Os sintomas são: dor de cabeça, vômitos, rigidez da nuca, prostração e febre alta. Há dois grupos de maior risco: recém-nascidos e idosos.

Ototóxicos

São agentes químicos que lesam o nervo auditivo. Os principais são: monóxido de carbono, mercúrio, tabaco, ouro, arsênico, álcool. Em adultos a aspirina, o quinino e os diuréticos são as únicas drogas que causam perdas auditivas temporárias, passíveis de recuperação quando se retira a medicação. Os efeitos são amplos e atingem todas as faixas etárias.

Traumatismo Craniano
Pancada forte na cabeça pode causar o traumatismo craniano. Os sintomas são: desmaio, tontura, irritabilidade, perda de memória, entre outros. Uma das possíveis consequências pode ser a surdez súbita, que pode variar de leve a severa.

Quadro 3: Fatores que causam a surdez



[1] Informações e imagem retiradas do texto “O ouvido humano” de Bertulani, para o site da Universidade do Rio de Janeiro.

[2] Informações retiradas do artigo sobre “Deficiência auditiva na criança” do acervo da Revista Brasileira de Otorrinolaringologia.

[3] De acordo com Schmitt - autor de "Your Child's Health", Bantam Books -, em matéria para o site Uol Saúde (1999) A pressão do fórceps sobre a pele pode deixar contusões ou arranhões, ou mesmo pode danificar o tecido adiposo em qualquer parte da cabeça ou face.



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