terça-feira, 7 de junho de 2016

Depois da calmaria...









Numa madrugada chuvosa de 1980, em meio ao barulho da chuva caindo no telhado e as trovoadas, Landica ouvia ao longe o som abafado de uma campainha. Meio entorpecida pelo sono, ignorou o tilintar achando que era sonho. Mas, à medida que ia despertando, aquele barulho parecia cada vez mais próximo e urgente. Era o telefone que tocava ininterruptamente e, pela hora, só podia ser notícia ruim. Pulou da cama e correu para o aparelho com o coração na boca e o ar preso nos pulmões:
            - Alô?
            - Alô, por favor, gostaria de falar com a senhora Iolanda, ou o marido. – A voz do outro lado parecia apavorada.
            - Está falando com ela.
             Os minutos seguintes foram de silêncio e, ao desligar o aparelho, Landica sentiu as pernas bambas. O chão se mexia sob seus pés, percebeu então que um frio tomava conta de seu corpo, tão intenso que doía os ossos.
            Não podia ser. Ela não conseguia acreditar que mais uma vez teria que voltar a um hospital, para onde sua filha tinha sido levada às pressas. Saiu correndo e foi direto para seu quarto, onde Tiãozinho ainda dormia. Então, começou a preparar uma mala sem nem mesmo saber o que colocar dentro. Na cabeça, o mesmo pensamento insistia em atormentá-la: “Como chegaria a Belo Horizonte ainda naquela noite?” - Acordou o marido que, meio atordoado, perguntou o que estava acontecendo. Ao tomar conhecimento do ocorrido levantou-se rapidamente, se vestiu de qualquer jeito, pegou as chaves do carro e partiram.
            Logo que chegaram ao hospital, Landica correu até a portaria a fim de se informar sobre a situação da filha. Descobriu o nome do médico que a estava tratando e saiu à sua procura pelos corredores. Quando finalmente o encontrou, foi para ouvir mais uma vez o mesmo discurso: sua Marli em perigo de morte. E Landica viu de novo a filha estirada sobre um leito hospitalar, pálida e extenuada.
            Era julho e fazia muito frio, mas, foi justamente naquele ano, 1980, que o Brasil recebeu a primeira visita de um papa. Isso complicava as coisas, pois toda a rotina da cidade foi alterada em virtude da passagem do Santo Padre pela capital de Minas Gerais. Bancos e repartições públicas fecharam, teatros atrasaram os espetáculos e planos rodoviários foram alterados. Isso se refletiu no trânsito também e dificultou as idas ao hospital onde Marli estava internada. Porém, Landica era muito religiosa e acreditava que a presença do Papa João Paulo II em Belo Horizonte traria sorte e força para as suas orações. Isso a deixou mais confiante na recuperação de Marli.

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