Numa
madrugada chuvosa de 1980, em meio ao barulho da chuva caindo no telhado e as
trovoadas, Landica ouvia ao longe o som abafado de uma campainha. Meio
entorpecida pelo sono, ignorou o tilintar achando que era sonho. Mas, à medida que
ia despertando, aquele barulho parecia cada vez mais próximo e urgente. Era o
telefone que tocava ininterruptamente e, pela hora, só podia ser notícia ruim.
Pulou da cama e correu para o aparelho com o coração na boca e o ar preso nos
pulmões:
- Alô?
- Alô, por favor, gostaria de falar
com a senhora Iolanda, ou o marido. – A voz do outro lado parecia apavorada.
- Está falando com ela.
Os minutos seguintes foram de silêncio e, ao
desligar o aparelho, Landica sentiu as pernas bambas. O chão se mexia sob seus
pés, percebeu então que um frio tomava conta de seu corpo, tão intenso que doía
os ossos.
Não podia ser. Ela não conseguia acreditar
que mais uma vez teria que voltar a um hospital, para onde sua filha tinha sido
levada às pressas. Saiu correndo e foi direto para seu quarto, onde Tiãozinho
ainda dormia. Então, começou a preparar uma mala sem nem mesmo saber o que
colocar dentro. Na cabeça, o mesmo pensamento insistia em atormentá-la: “Como
chegaria a Belo Horizonte ainda naquela noite?” - Acordou o marido que, meio
atordoado, perguntou o que estava acontecendo. Ao tomar conhecimento do
ocorrido levantou-se rapidamente, se vestiu de qualquer jeito, pegou as chaves
do carro e partiram.
Logo que chegaram ao hospital,
Landica correu até a portaria a fim de se informar sobre a situação da filha.
Descobriu o nome do médico que a estava tratando e saiu à sua procura pelos
corredores. Quando finalmente o encontrou, foi para ouvir mais uma vez o mesmo
discurso: sua Marli em perigo de morte. E Landica viu de novo a filha estirada
sobre um leito hospitalar, pálida e extenuada.
Era julho e fazia muito frio, mas,
foi justamente naquele ano, 1980, que o Brasil recebeu a primeira visita de um
papa. Isso complicava as coisas, pois toda a rotina da cidade foi alterada em
virtude da passagem do Santo Padre pela capital de Minas Gerais. Bancos e repartições públicas fecharam, teatros atrasaram os espetáculos e planos
rodoviários foram alterados. Isso se refletiu no trânsito também
e dificultou as idas ao hospital onde Marli estava internada. Porém, Landica
era muito religiosa e acreditava que a presença do Papa João Paulo II em Belo
Horizonte traria sorte e força para as suas orações. Isso a deixou mais
confiante na recuperação de Marli.

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