Todos os dispositivos inventados
para oralizar o surdo mostraram-se ineficazes no objetivo mais importante que é
proporcionar-lhe uma comunicação dinâmica e recíproca. O oralismo desenvolveu
técnicas desumanas no intuito de educar o surdo para falar com os ouvintes. Em
um passado recente, o surdo era obrigado a se submeter a essas metodologias,
sem direito a escolha e, em alguns casos, submetido até mesmo à violência
física para que não fizesse uso dos sinais.
Nesse
contexto, a Comunicação Total surge no Brasil na década de 1970 para ser uma alternativa
a oralidade. Porém, nos Estados Unidos, que ainda hoje é referência nesse tipo
de abordagem, tal técnica foi duramente criticada por não apresentar os avanços
esperados no que diz respeito ao processo de leitura e escrita das crianças
surdas (Poker, Unesp, 2007).
De acordo com Anderson Duarte, psicólogo e
professor de Libras na UFMT, embora a Comunicação Total não substitua as
práticas oralistas, vários professores, mesmo sem saber de suas limitações
utilizam seus componentes. Ele aponta aspectos negativos em tal filosofia.
Entre as principais restrições da Comunicação total, Duarte aponta o uso do
português sinalizado e a invenção de sinais, além de certo excesso na
utilização da datilologia.
Já para Capovila (2000), a
Comunicação total não é uma técnica ou método e sim uma filosofia de linguagem
que tem como objetivo básico “abrir canais de comunicação adicionais” para
facilitar a interação entre surdos e ouvintes, de modo a aumentar a
visibilidade da língua falada para além da simples leitura labial. Assim,
pretendia-se melhorar o desempenho do surdo na função de ler e escrever.
Com a filosofia da Comunicação Total e
a consequente adoção da língua falada e sinalizada nas escolas e nos lares, as
crianças começaram a participar das conversas com seus professores e
familiares, de um modo que jamais havia visto desde a adoção do oralismo
estrito. No fim dos anos 1960 e início dos anos 1980, na Dinamarca, por
exemplo, o progresso se tornou tão aparente que a sinalização da fala usada na
comunicação total foi logo adotada como “o método” por excelência. (HANSEN,
APUD CAPOVILA, 2000. p. 104).
Outros estudiosos defendem o uso da Comunicação Total
para viabilizar a interação entre surdos, e surdo com ouvinte. A Drª Rosimar
Poker (2007) enfoca os dispositivos com os quais as crianças podem contar para
auxiliar no ato de comunicar. São eles: o alfabeto digital; a língua de sinais;
a amplificação sonora; português sinalizado. Ela alerta também para o aspecto
humano dessa filosofia que “valoriza a comunicação e interação, não apenas a
língua”. E além do mais, tem algo extremamente importante para os defensores da
cultura surda que é enxergar o surdo como uma pessoa e não como uma patologia.
É fato que a surdez repercute na vida social, afetiva e no desenvolvimento
cognitivo do indivíduo, por isso a pesquisadora defende uma melhor viabilidade
da comunicação do surdo com o mundo ao seu redor.
Uma diferença marcante entre a
Comunicação Total e as outras abordagens educacionais constitui-se no fato de
que a Comunicação Total defende a utilização de qualquer recurso linguístico,
seja a língua de sinais, a linguagem oral ou códigos manuais, para propiciar a
comunicação com as pessoas com surdez. A Comunicação Total valoriza a
comunicação e a interação e não apenas a língua. Seu objetivo maior não se
restringe ao aprendizado de uma língua. Outro aspecto a ser salientado é que
esta filosofia respeita a família da criança com surdez. Acredita que cabe à
família o papel de compartilhar valores e significados, formando, junto com a
criança, através da possibilidade da comunicação, sua subjetividade. Os
defensores da filosofia da Comunicação Total recomendam então o uso simultâneo
de diferentes códigos como: a Língua de Sinais, a datilologia, o português
sinalizado, etc. [...] Nesse sentido a Comunicação Total acredita que esse
bimodalismo pode atenuar o bloqueio de comunicação existente entre a criança
com surdez e os ouvintes. Tenta evitar que as crianças sofram as consequências
do isolamento. (POKER, 2007)
Muitas vezes as consequências do isolamento
resultam na desistência do surdo em estudar e se profissionalizar, isso
acarreta danos gravíssimos para o futuro desses indivíduos. O bilinguismo surgiu em meados de
1950-1960, mesma época em que se intensificaram os estudos acerca da
sociolinguística. E dentro dessas pesquisas comprovou-se que havia uma gama de variações
no mesmo contexto de fala, o que muito contribuiu para refutar o conceito de
pureza linguística, tão pregado pelos defensores da oralidade.
A partir de então as mudanças
passaram a ser relacionadas com as variáveis sociais e passou-se a acreditar
que eram não só esperadas, mas necessárias. Autores como Weinreich, Labov e
Herzog (1968, apud SOUZA 1995), ligados a esta abordagem, explicavam que a
heterogeneidade refletia uma parte essencial da competência linguística
unilíngue. Para eles, a ausência de variação é que deveria ser considerada como
disfuncional.
Foi também nessa época que se
potencializaram as lutas pelas minorias e, nesse contexto, estudos como a
Antropologia e psicologia social apontavam para novos caminhos conceituais
sobre uma diversidade possível. Assim, surge maior interesse nos sinais
utilizados para a comunicação entre surdos. Souza (1995) explica que Stokoe, docente e linguista do Gallaudet College,
percebeu as semelhanças existentes na multiplicidade dos gestos empregados
pelos surdos e se propôs a estudá-los. Concentrou então sua atenção no aspecto
fonológico desses sinais. Notou que eram compostos por um numero limitado de
unidades que isoladas não significavam nada, assim como os fonemas das línguas
faladas. E dessa forma chegou a alguns resultados:
Propôs que
cada palavra em sinal tinha pelo menos três partes independentes: locação,
formato de mão e movimento, e que cada uma destas partes possuía um número
limitado de combinações. Constataram 19 formas de mãos diferentes, 12 locações,
24 tipos de movimentos e inventou uma notação para representá-los. Em Sign
Language Structure, Stokoe (1960) demonstrou que a estrutura da língua de
sinais possuía aspectos similares à estrutura de todas as línguas. Portanto,
era, de fato, uma língua. Nos
anos seguintes, houve um pipocar de trabalhos que demonstravam que crianças
surdas, filhas de pais surdos e sinalizadores, tinham um melhor desempenho
acadêmico e construíam uma autoimagem mais positiva quando comparadas com
crianças surdas filhas de pais ouvintes. (SOUZA,
agosto de 1995).
Os avanços nos estudos sobre a LS
provocaram uma efervescência em torno do bilinguismo, que foi ganhando força e
chamando a atenção de um número cada vez maior de cientistas. Dessa forma,
comprovados os aspectos positivos do bilinguismo, tais estudiosos se empenharam
na defesa da aquisição das duas línguas - Libras e Língua Portuguesa. Vale
salientar que o primeiro país a instaurar o ensino bilíngue para surdos e
reconhecer a LS como língua oficial, foi a Suécia.
No Brasil, mesmo com o
reconhecimento da Libras como primeira língua dos surdos e segunda oficial do
país, o caminho para o bilinguismo é tortuoso e cheio de pedras. No entanto,
essa situação pode ser mais natural no caso dos filhos de surdos, Codas[1],
como são chamados.
[1]
Children of Deaf Adults (Crianças de adultos surdos). Geralmente são ouvintes, filhos de pais
surdos.

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