quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Perda auditiva condutiva

Imagem retirada do site: http://jornalipanema.com.br

NA PERDA AUDITIVA CONDUTIVA a orelha interna tem capacidade de funcionamento normal, mas não é estimulada pela vibração sonora. Entre as principais causas estão: as infecções provocadas por acúmulo de cera no canal auditivo externo; corpos estranhos, ou perfurações na membrana timpânica – que podem ocorrer devido à variação da pressão atmosférica e nesses casos até mesmo viajar de avião representa risco, assim como as otites, que são infecções do ouvido. Durante a fase adulta e puberdade a perda auditiva pode incidir por muitos motivos, entre eles, doenças como caxumba, sarampo e meningite.  Às vezes, a surdez ocorre por causas banais como ouvir som alto, por exemplo. Nesses casos a perda auditiva é gradual.

Alguns profissionais como mergulhadores, músicos, trabalhadores na construção civil e outros podem ser acometidos pela perda auditiva. Isso ocorre porque muitos deles trabalham sem equipamento de proteção. Estas pessoas, assim como os adolescentes, estão mais propensas a adquirir inflamações, que provocam a perda auditiva induzida por ruído (PAIR) e causada por exposição excessiva ao barulho.
            

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

O que é preciso saber



Os exames foram feitos em 1975 e, quando retornaram de São Paulo, estava confirmada a surdez de Marli. Mas a mãe não se lembra de terem especificado a causa.


Esclarecimentos dos exames feitos em São Paulo pelo Dr. Pedro Luiz.


Caro Nicodemos
A menor Marli Rosa Fonseca foi submetida a electrococleografia e não conseguimos obter qualquer resposta, quer com os cliques de ruído branco, quer com os cliques filtrados de 1,5 e 4 KHZ. Desta forma, ou ela não tem nenhuma audição de ambos os lados ou tem apenas um resíduo de sons muito graves que geralmente não são registrados.
Um abraço,
Pedro Luiz
7.8.75


As despesas com consultas e exames não eram baixas, sem contar os dispêndios com viagem, hospedagem e alimentação. Mas os pais estavam dispostos a tudo para ajudar Marli no que pudessem. Por isso nunca deixaram de seguir as recomendações médicas ou de fazer qualquer tipo de exame que fosse solicitado.   

Às vezes o cansaço era insuportável, pois, além de todas as horas na estrada, salas de espera de hospitais, exames intermináveis, questionamentos repetitivos, comidas nem sempre bem feitas ou quentes, ainda tinha o fato de que Marli não era filha única. Landica se preocupava com os filhos que ficavam em casa, sem os cuidados maternos. Certamente Marlúcia teve que amadurecer bem cedo para dar conta dos afazeres domésticos, estudos e cuidar dos irmãos mais novos na ausência da mãe. Mas ela ainda era uma criança e, às vezes agia como tal. Não era prudente jogar tantas responsabilidades sobre seus ombros. Tiãozinho contratava empregadas domésticas para ajudar, mas, como não tinha uma patroa presente, nem sempre elas faziam o serviço como deviam. Ou melhor, nem sempre faziam o serviço.

COM O PASSAR DO TEMPO LANDICA DESCOBRIU QUE sua filha tinha deficiência auditiva do tipo neurossensorial e que certos remédios podiam provocar ou agravar esse problema. Por isso desconfia dos antibióticos que tomou durante a gravidez e também os que a própria filha teve que ingerir devido às infecções intestinais e de ouvido. Outro motivo de desconfiança foi as condições em que se deu o parto, pois, o retardamento e o sofrimento, tanto da mãe, quanto do bebê, no período entre o trabalho de parto e o nascimento também pode ser um forte motivo para a causa desse tipo de surdez. De acordo com os fonoaudiólogos a deficiência neurossensorial de Marli é do tipo severo e se configura por uma lesão de células sensoriais e nervosas provocada por falha no mecanismo de percepção do som e isso compromete o funcionamento do ouvido interno até o cérebro.

Além da neurossensorial, existem outros dois tipos de surdez que também podem variar entre leve, moderada, severa e profunda. Tem a de condução (ou condutiva), que é o bloqueio no mecanismo de transmissão do som do canal auditivo externo até o limite com o interno, e a mista, que é quando o paciente apresenta problemas nos dois mecanismos.

A surdez também pode resultar de um fator genético, ou seja, as crianças que possuem histórico de perda neurossensorial na família podem manifestar esta característica. Nesse caso é importante que se faça um tratamento de aconselhamento genético dos pais. E como alguns remédios podem ser prejudiciais para a audição do bebê, quando ingeridos pela mãe durante a gravidez, é imprescindível o acompanhamento de um obstetra nesse período.

Dessa forma, fica evidente a importância do pré-natal como prevenção e também para solucionar problemas que comprometam a boa formação do feto. Porém, entre as gestantes de baixa renda no país, são raríssimos os casos em que a mãe procura acompanhamento médico – algumas só aparecem no hospital quando entram em trabalho de parto. Landica fez acompanhamento com obstetra durante a gravidez, mas não fez o aconselhamento genético, apesar de desconfiar que sua primeira filha, Marlene, também fosse surda. Como ainda não sabia sobre os efeitos dos antibióticos, fez uso de vários desses medicamentos. Sempre com receita médica

O histórico de descaso e demora do atendimento médico nos hospitais públicos do Brasil poderia explicar a resistência das mulheres grávidas em fazer pré-natal. Algumas gestantes até procuram acompanhamento, mas não conseguem. Aquela que dá à luz nessas Casas de Saúde públicas, geralmente é porque não tem outra opção e, muitas vezes, é submetida a alguns procedimentos pouco aceitáveis. O retardamento no parto não é o mais grave, visto que há casos de gestantes rejeitadas por hospitais, já em trabalho de parto, e o bebê acaba nascendo nas calçadas públicas como já aconteceu em capitais como Salvador.

domingo, 2 de novembro de 2014

A recuperação

Obs: fotos e documentos não serão divulgados no blog, somente na versão impressa e e-book do
livro.



O TEMPO PASSOU E MARLI CONSEGUIU SE RECUPERAR lentamente. Teve alta e voltou para casa. A partir de então, foi iniciada uma nova etapa do tratamento médico. Quando ela completou quatro anos, Landica a levou para a APAE[1] de Patos de Minas e foi lá que a menina teve assistência de psicólogos, fonoaudiólogos e pedagogos que a encaminharam para uma bateria de exames que dariam conta do seu grau de deficiência. Para tanto, tiveram que se deslocar mais uma vez, pois, os tais exames só poderiam ser feitos em São Paulo, visto que na capital de Minas ainda não tinha o equipamento necessário para a audiometria.

Naquela época Lagoa Formosa era uma cidade jovem, tinha se emancipado em 1962 e estava em plena expansão. Desenhava-se um cenário promissor para quem estivesse começando uma vida nova, como era o caso da família Fonseca.  Mas, somente em 1973 tiveram a oportunidade de ingressar nesta fase do progresso lagoense. Tiãozinho fez um ótimo negócio na compra de uma das únicas lojas de variedades da cidade e também uma funerária. Isso possibilitou a mudança da família. Da fazenda para uma casa em anexo à loja, na cidade. O endereço era na praça da igreja, um dos pontos privilegiados, onde residiam as famílias tradicionais de Lagoa Formosa. Landica gostou do novo lar e de ter livre acesso à igreja. Se antes precisava se deslocar 20 quilômetros para assistir a uma missa, agora bastava atravessar a rua.

Assim, também seria mais fácil o acesso de Marli a APAE e de Landica ao pré-natal. Ela deu á luz, naquele mesmo ano, ao primeiro filho do casal: um garoto bonito e saudável cuja escolha do nome deu origem a muita confusão. A mãe queria que ele se chamasse Marcos, mas o pai registrou como Márcio Sebastião e levou uma bronca por isso. Marlúcia, que já tinha dez anos, tornou-se madrinha de Márcio e passou a se sentir responsável pelo irmãozinho, que ficava aos seus cuidados enquanto sua mãe acompanhava Marli aos exames e tratamentos.

Nas cidades do interior as coisas aconteciam em um ritmo mais lento do que nas capitais. Marli já estava com seis anos quando foram tomadas as primeiras providências para que fossem feitos os tais exames, solicitados pela APAE. Primeiro foi levada à Faculdade de Medicina da UFMG, em Belo Horizonte, onde forneceram esclarecimentos sobre seu estado clínico:
Encaminhamento de Marli para o otorrinolaringologista:

Belo Horizonte, 8/5/1975.

Ao Dr. Maurício Gamarca
Não examinamos a menor Marli Rosa no momento, está no interior, porém a conhecemos desde os dois anos de idade, quando fizemos o diagnóstico de acidose tubular renal grave, com poliúria intensa[2], raquitismo renal[3], nanismo[4], nefrocalcinose[5].  Daí pra cá está sempre bem metabolicamente, com o uso da solução de Scholl.
Apresenta a surdez, motivo agora em suas mãos.  Julgamos não ter nenhum inconveniente a anestesia geral, desde que sabido sua tendência para acidose metabólica.

Grato.


Depois, com o documento em mãos, o otorrino a encaminhou para a Escola de Medicina em São Paulo, onde faria exames mais detalhados:

Encaminhamento do Centro de Otologia de Minas Gerais para exames na Escola Paulista de Medicina.






[1] Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais.
[2] Grande volume urinário.
[3] Descalcificação óssea ou desenvolvimento anormal do osso devido à nefropatias crônicas, nas quais a síntese da vitamina D3 pelos rins está comprometida, levando a alterações na percepção, com sensação de queimação no sistema digestivo. (site Medicina Prática).

[4]  o nanismo é consequência de um problema hormonal que faz com que o corpo não cresça e se desenvolva como deveria.
[5] Nefrocalcinose é a presença de depósitos de cálcio difusamente distribuídos no parênquima renal em decorrência de uma variedade de doenças sistêmicas. Em geral as calcificações da nefrocalcinose são do tipo distróficas, tendo como causas mais comuns o hiperparatireoidismo, a acidose tubular renal.  (site dapi.com.br).