A GAROTA PASSOU UM SUSTO
DAQUELES NAS SENHORIAS DA PENSÃO, pois se recusava a comer e,
em determinado momento começou a vomitar muito. Mas o pânico só se deu quando
ela passou a perder sangue pelas fezes. Foi quando perceberam a necessidade de
levá-la a um médico, o que resultou numa internação de emergência. No hospital,
foi receitado suco de gelatina[1]·,
que Marli deveria ingerir sempre que tivesse sede. Era uma das poucas coisas
que lhe eram permitidas.
Depois de vários exames descobriram o
grande problema: falta de potássio no organismo. A partir de então, foi
acrescentado uma medida de citrato de potássio àquela mistura de ácido cítrico
e citrato de sódio, dissolvidos em um litro d’ água. Foi então que Marli começou
a se recuperar e voltou para a pensão em poucos dias. Mas Landica não se
recuperou, já tinha levado muito susto da vida e não podia acreditar que
voltaria para casa sem a filha novamente. Seria mais uma despedida difícil.
DESDE
A PRIMEIRA VEZ EM QUE PROCUROU MARIA GODINO, a fim de pedir hospedagem para
Marli, Landica jamais havia adentrado naquele pensionato – Talvez Tiãozinho o
tivesse feito, mas ela não se recorda muito bem desse detalhe. Só consegue
lembrar que iam sempre apressados, pois o marido tinha outros afazeres na
capital, além do fato de, muitas vezes, terem que voltar para Lagoa Formosa no
mesmo dia. As visitas eram feitas numa
salinha, do lado de fora, onde os pais esperavam enquanto a filha era trazida.
A mãe sempre teve curiosidade em conhecer
melhor as instalações, para saber se a menina estaria bem acomodada. Mas, como
não tinha coragem de exigir a vistoria, sempre voltava para casa com a dúvida a
queimar-lhe os miolos. Tiãozinho não parecia se preocupar muito, o jeito era
aceitar. Ele apenas dizia que aquela era a melhor opção, se não a única, para
que Marli pudesse frequentar a escola naquele momento. Só que daquela vez era
diferente. Dona Maria teria que permitir o acesso de Landica a pensão, ou pelo
menos a cozinha.
Alguém tinha que ensinar a senhoria
a preparar o remédio, as medidas deveriam ser exatas e, esse alguém, com
certeza, era a mãe da menina. Como seria a primeira vez que ela colocava os pés
para o lado de dentro daquele pequeno balcão, que separava hóspedes e visitantes,
não deixaria escapar nenhum detalhe. Iria ficar atenta a tudo que pudesse
comprometer o local, ou lhe dar alívio para voltar em paz.
Entrou pelo corredor e passou por
algumas portas até chegar à cozinha onde avistou uma grande mesa de madeira com
várias cadeiras ao redor. Ali, colocou sua balança e os componentes da mistura.
Fez uma medida completa para que dona Maria visse e, logo em seguida, preparou
outra, para se certificar de que realmente ela havia aprendido. E foi só isso,
nada demais. No final das contas, Landica notou que não dá para formar um
conceito positivo ou negativo apenas pela visualização de um refeitório. Mas
pelo menos era tudo limpinho, o que não foi o suficiente para dar-lhe a
tranquilidade de que precisava.
[1]
É
uma mistura feita seguindo as instruções de uma gelatina normal, porém
acrescentando-se mais água para que permaneça líquida.
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