terça-feira, 25 de junho de 2013

Comunicação Total: as raízes do biliguismo

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 Todos os dispositivos inventados para oralizar o surdo mostraram-se ineficazes no objetivo mais importante que é proporcionar-lhe uma comunicação dinâmica e recíproca. O oralismo desenvolveu técnicas desumanas no intuito de educar o surdo para falar com os ouvintes. Em um passado recente, o surdo era obrigado a se submeter a essas metodologias, sem direito a escolha e, em alguns casos, submetido até mesmo à violência física para que não fizesse uso dos sinais.

Nesse contexto, a Comunicação Total surge no Brasil na década de 1970 para ser uma alternativa a oralidade. Porém, nos Estados Unidos, que ainda hoje é referência nesse tipo de abordagem, tal técnica foi duramente criticada por não apresentar os avanços esperados no que diz respeito ao processo de leitura e escrita das crianças surdas (Poker, Unesp, 2007).

De acordo com Anderson Duarte, psicólogo e professor de Libras na UFMT, embora a Comunicação Total não substitua as práticas oralistas, vários professores, mesmo sem saber de suas limitações utilizam seus componentes. Ele aponta aspectos negativos em tal filosofia. Entre as principais restrições da Comunicação total, Duarte aponta o uso do português sinalizado e a invenção de sinais, além de certo excesso na utilização da datilologia.

Já para Capovila (2000), a Comunicação total não é uma técnica ou método e sim uma filosofia de linguagem que tem como objetivo básico “abrir canais de comunicação adicionais” para facilitar a interação entre surdos e ouvintes, de modo a aumentar a visibilidade da língua falada para além da simples leitura labial. Assim, pretendia-se melhorar o desempenho do surdo na função de ler e escrever.

Com a filosofia da Comunicação Total e a consequente adoção da língua falada e sinalizada nas escolas e nos lares, as crianças começaram a participar das conversas com seus professores e familiares, de um modo que jamais havia visto desde a adoção do oralismo estrito. No fim dos anos 1960 e início dos anos 1980, na Dinamarca, por exemplo, o progresso se tornou tão aparente que a sinalização da fala usada na comunicação total foi logo adotada como “o método” por excelência. (HANSEN, APUD CAPOVILA, 2000. p. 104).

 Outros estudiosos defendem o uso da Comunicação Total para viabilizar a interação entre surdos, e surdo com ouvinte. A Drª Rosimar Poker (2007) enfoca os dispositivos com os quais as crianças podem contar para auxiliar no ato de comunicar. São eles: o alfabeto digital; a língua de sinais; a amplificação sonora; português sinalizado. Ela alerta também para o aspecto humano dessa filosofia que “valoriza a comunicação e interação, não apenas a língua”. E além do mais, tem algo extremamente importante para os defensores da cultura surda que é enxergar o surdo como uma pessoa e não como uma patologia. É fato que a surdez repercute na vida social, afetiva e no desenvolvimento cognitivo do indivíduo, por isso a pesquisadora defende uma melhor viabilidade da comunicação do surdo com o mundo ao seu redor.

Uma diferença marcante entre a Comunicação Total e as outras abordagens educacionais constitui-se no fato de que a Comunicação Total defende a utilização de qualquer recurso linguístico, seja a língua de sinais, a linguagem oral ou códigos manuais, para propiciar a comunicação com as pessoas com surdez. A Comunicação Total valoriza a comunicação e a interação e não apenas a língua. Seu objetivo maior não se restringe ao aprendizado de uma língua. Outro aspecto a ser salientado é que esta filosofia respeita a família da criança com surdez. Acredita que cabe à família o papel de compartilhar valores e significados, formando, junto com a criança, através da possibilidade da comunicação, sua subjetividade. Os defensores da filosofia da Comunicação Total recomendam então o uso simultâneo de diferentes códigos como: a Língua de Sinais, a datilologia, o português sinalizado, etc. [...] Nesse sentido a Comunicação Total acredita que esse bimodalismo pode atenuar o bloqueio de comunicação existente entre a criança com surdez e os ouvintes. Tenta evitar que as crianças sofram as consequências do isolamento. (POKER, 2007)

Muitas vezes as consequências do isolamento resultam na desistência do surdo em estudar e se profissionalizar, isso acarreta danos gravíssimos para o futuro desses indivíduos. O bilinguismo surgiu em meados de 1950-1960, mesma época em que se intensificaram os estudos acerca da sociolinguística. E dentro dessas pesquisas comprovou-se que havia uma gama de variações no mesmo contexto de fala, o que muito contribuiu para refutar o conceito de pureza linguística, tão pregado pelos defensores da oralidade.

A partir de então as mudanças passaram a ser relacionadas com as variáveis sociais e passou-se a acreditar que eram não só esperadas, mas necessárias. Autores como Weinreich, Labov e Herzog (1968, apud SOUZA 1995), ligados a esta abordagem, explicavam que a heterogeneidade refletia uma parte essencial da competência linguística unilíngue. Para eles, a ausência de variação é que deveria ser considerada como disfuncional.
            
Foi também nessa época que se potencializaram as lutas pelas minorias e, nesse contexto, estudos como a Antropologia e psicologia social apontavam para novos caminhos conceituais sobre uma diversidade possível. Assim, surge maior interesse nos sinais utilizados para a comunicação entre surdos. Souza (1995) explica que Stokoe, docente e linguista do Gallaudet College, percebeu as semelhanças existentes na multiplicidade dos gestos empregados pelos surdos e se propôs a estudá-los. Concentrou então sua atenção no aspecto fonológico desses sinais. Notou que eram compostos por um numero limitado de unidades que isoladas não significavam nada, assim como os fonemas das línguas faladas. E dessa forma chegou a alguns resultados:

Propôs que cada palavra em sinal tinha pelo menos três partes independentes: locação, formato de mão e movimento, e que cada uma destas partes possuía um número limitado de combinações. Constataram 19 formas de mãos diferentes, 12 locações, 24 tipos de movimentos e inventou uma notação para representá-los. Em Sign Language Structure, Stokoe (1960) demonstrou que a estrutura da língua de sinais possuía aspectos similares à estrutura de todas as línguas. Portanto, era, de fato, uma língua. Nos anos seguintes, houve um pipocar de trabalhos que demonstravam que crianças surdas, filhas de pais surdos e sinalizadores, tinham um melhor desempenho acadêmico e construíam uma autoimagem mais positiva quando comparadas com crianças surdas filhas de pais ouvintes.  (SOUZA, agosto de 1995).


 Os avanços nos estudos sobre a LS provocaram uma efervescência em torno do bilinguismo, que foi ganhando força e chamando a atenção de um número cada vez maior de cientistas. Dessa forma, comprovados os aspectos positivos do bilinguismo, tais estudiosos se empenharam na defesa da aquisição das duas línguas - Libras e Língua Portuguesa. Vale salientar que o primeiro país a instaurar o ensino bilíngue para surdos e reconhecer a LS como língua oficial, foi a Suécia.
            
No Brasil, mesmo com o reconhecimento da Libras como primeira língua dos surdos e segunda oficial do país, o caminho para o bilinguismo é tortuoso e cheio de pedras. No entanto, essa situação pode ser mais natural no caso dos filhos de surdos, Codas[1], como são chamados.






[1] Children of Deaf Adults (Crianças de adultos surdos). Geralmente são ouvintes, filhos de pais surdos.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

SER BILINGUE É...

Imagem: http://filhos-bilingues.blogspot.com.br/p/escolas-secundarias-na-inglaterra.html

Ter uma língua materna e outra secundária é o conceito geral de bilinguismo. Os surdos bilíngues são aqueles que convivem com duas realidades comunicacionais e culturas diferentes. Quando nascem em família de ouvintes o primeiro contato é com cultura oralizada, aprende a ler lábios e passa a reconhecer as palavras. A essa condição Perlin (apud CUNHA 2007, p. 58) chama “identidade surda de transição”. Seria o indivíduo que, apesar de crescer com todos os conceitos ouvintistas[1], consegue achar o caminho rumo à identidade surda[2].

Algumas crianças surdas são mandadas para escolas de educação especial, como a APAE[3], que não é direcionada apenas a instrução dos surdos e sim, aos portadores de todos os tipos de necessidades especiais. Isso pode ser um grande erro. Um dos riscos, nesse caso, é desestabilizar o aspecto psicológico e a autoestima do surdo, mudando a imagem que ele tem de si próprio.

A criação dessas instituições se deu por motivos questionáveis, assim como sua função de origem. Foucault, citado por Souza em artigo para o site pepsic.com, em agosto de 1995, explica: 

O Estado - ao menos nas constituições - tomava para si o dever de "reabilitar" o "anormal" através de mecanismos institucionais que asseguravam sua reclusão e confinamento. Apareceram as prisões, os manicômios, as escolas especiais, os colégios internos, etc. Vemos surgir as primeiras escolas para surdos, os primeiros institutos para a educação dos cegos, a ortopedia dos defeitos físicos, o tratamento moral da loucura, uma prática pedagógica corretiva e adestradora, dirigida tanto aos seres humanos "normais" como àqueles ditos "anormais" (Foucault, apud SOUZA 1995).  
         
  Atualmente o Estado se empenha na luta para mudar essa imagem negativa. Basta visitar os sites das escolas especiais para notar o esforço em apresentar à sociedade uma imagem de caráter prático e confiável. Mas, por mais que esses conceitos tenham mudado e a pedagogia nessas escolas tomem novos rumos, ainda há uma lacuna no ensino bilinguista.

Em outros casos, os surdos dividem a mesma sala de aula com estudantes e professores ouvintes, como já foi mostrado. Em ambos o ensino não se mostra adequado, pois, não se adquirem, nessas instituições, as duas línguas. O que representa grande prejuízo aos surdos e ouvintes, pois, o conceito do bilinguismo é justamente de colocar o surdo em contato com as duas línguas, principalmente a língua de sinais, o mais cedo possível. Assim, ele poderá aplicar seus conhecimentos de LS na língua Portuguesa e aprendê-la com mais facilidade. A aquisição da LS como primeira língua e a língua oral como segunda, possibilita ao surdo vivenciar uma identidade bicultural.




[2] Surdos que adotam as formas visuais de experienciar o mundo, nas suas diversas manifestações. O trocar dessas experiências é uma característica importante na construção dessa identidade (valoriza-se o momento de encontro entre os surdos). (PERLIN, apud CUNHA 2007, p. 58)

[3]  Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Como se diz?

Imagem: http://www.inglesnapontadalingua.com.br

Amine Leitão, estudante de jornalismo em uma faculdade de Salvador, BA, certa vez se viu às voltas com uma matéria, que precisava escrever, sobre a inclusão de deficientes no mercado de trabalho. Era simples, só teria que pesquisar um pouco e entrevistar as fontes. Ela ficou sabendo que um supermercado, nos arredores da faculdade, tinha um quadro de empregados com esse perfil e foi até lá a fim de entrevistá-los. No entanto, não foi possível concluir sua tarefa. Havia duas empacotadoras que poderiam ter dado as entrevistas, mas eram surdas e Amine não sabia se comunicar com elas.

Essa história serve para ilustrar a falta de interatividade entre surdos e ouvintes no Brasil, assim como a situação constrangedora para ambas as partes. Uma porque não consegue entender e a outra por não ser entendida, apesar de ter sua língua reconhecida por lei. Amine, ao contrário da maioria, se mostrou curiosa sobre o significado dos gestos manuais e faciais utilizados pelas surdas.
            - Será que aprender Libras é assim tão complicado? Todos aqueles sinais parecem muito complexos. – Ela pensou.
 


Fig.9: Os sinais parecem mais complicados do que realmente são.
Fonte: site Retratos da Alma


Na verdade, aprender a se comunicar por meio da Libras pode ser divertido e prazeroso. As semelhanças entre a língua de sinais e a língua falada se dão tanto em relação à sua complexidade quanto à sua expressividade. Devido a sua modalidade viso-gestual são utilizadas as mãos, assim como expressões faciais e corporais. Assim, são produzidos os sinais linguísticos que são captados pelos olhos e traduzidos pela mente. No caso das línguas orais é utilizada a modalidade oral auditiva, nela os sons são percebidos pelos ouvidos. “Além disso, as diferenças não se restringem apenas ao canal de comunicação, mas também às estruturas gramaticais de cada língua.” (Oliveira e Cunha, 2009, pág. 2).

 Como qualquer outra tarefa, para bem apreender a Libras, basta interesse, dedicação e trabalho. Por meio das mãos é possível dizer tudo. A figura abaixo mostra o alfabeto como é na Língua Brasileira de Sinais:



FIG. 10: Os gestos correspondentes a cada letra do alfabeto.
Fonte: site Vejo Vozes (Eebllibras)

 A Libras tem gramática, fonologia e significados próprios. Os sinais representam as palavras e isso é feito através da combinação do movimento das mãos com certa representação corporal. Por exemplo, parte externa da mão sobre os lábios, quer dizer mamãe, ou dedo indicativo acima do lábio superior, no canto da boca, é papai. Mas não é regra que esses sinais sejam os mesmos para todos os surdos. Ao contrário, há muitas variações de acordo com a região do Brasil. A língua de sinais também tem regionalismo, assim como outras línguas. Os sinais variam não só de acordo com o estado, mas também com as culturas regionais, religiões, grupos sociais, etc. No entanto, alguns parâmetros foram encontrados, como descrevem Oliveira e Cunha (2009):

Os parâmetros encontrados em língua de sinais são os seguintes:
Configuração de mãos, que seria a forma das mãos durante a realização do sinal; ponto de articulação ou locação, que é o espaço de enunciação; movimento, envolvendo movimentos internos da mão, do pulso e outros direcionais no espaço; orientação/ direcionalidade, referindo-se à direção da palma da mão ao produzir os sinais; expressão facial e/ou corporal, que são os componentes não manuais importantes na distinção entre alguns sinais. Pesquisas mostram que a língua de sinais, assim como a língua oral, se estrutura em níveis fonológico, morfológico, sintático, semântico e pragmático. (OLIVEIRA;CUNHA, 2009, pp. 02-03)

Apesar de ambas as línguas (LS e a Língua Portuguesa) possuírem morfologia, sintaxe, semântica e fonologia, foi detectado diferenças expressivas entre elas. Oliveira e Cunha (2009) afirmam que por se tratar da língua de sinais a morfologia “apresenta características bem complexas em relação à derivação, flexão e composição, sendo observáveis quanto à motivação icônica, lexicalização e sistematicidade linguística”. Isso pode ser detectado observando as modificações da configuração de mãos durante o diálogo. O nível fonológico é aplicado de forma abstrata, já que na Libras não se trabalha com os sons, efetivamente.

Na sintaxe há controvérsias em relação à organização das frases. Nota-se certa flexibilidade na ordem das palavras. Ainda assim, a forma que prevalece é Sujeito-Verbo-Objeto. Há também discussões sobre os estudos das relações, foi detectado que não existe ligação direta entre os significados da língua de sinais e a língua oral. “Ressaltando que os sinais não são criados aleatoriamente, mas seguindo critérios estruturais pré-definidos.” Oliveira e Cunha (2009, p. 4).

 A despeito de possuir uma estrutura linguística bem organizada, o que se nota é um grande descaso em relação à disseminação da Libras. Essa língua, relegada pela sociedade, ainda não conta com a credibilidade e apoio necessários para conquistar espaço como disciplina nas grades fixas de escolas regulares e faculdades brasileiras. É considerada “pantomima” ou “mímica”, incapaz de transmitir mensagens de forma dinâmica, como apontado por alguns pesquisadores.

Continuar rejeitando a Libras é limitar os surdos e o seu direito de ser e de viver sua própria humanidade. Teixeira e Silva, em sua tese de doutorado apresentada na PUC-Rio em agosto de 2004, esclarecem que uma das principais características dos seres humanos é a capacidade de simbolizar e construir, por meio das linguagens, o mundo ao seu redor. A língua dos surdos (língua de Sinais) é utilizada quase que exclusivamente por eles próprios, poucos são os nativos de outras línguas que sabem utilizar a LS.

Os pesquisadores afirmam que a observação empírica confirma o status inferiorizado da Libras em comparação com a Língua Portuguesa, para quem as conhece. Alguns grupos sequer sabem da existência de uma língua de sinais. A desconsideração da LS traz grandes prejuízos à comunidade surda, pode-se afirmar até que “esta comunidade perde, aos olhos dos outros, sua humanidade, sua possibilidade de significar junto com outros grupos sociais.” (TEIXEIRA E SILVA, 2004, p. 23).

 Por isso, convém ratificar que, a implantação da Língua de Sinais nas instituições, principalmente nas escolas regulares de ensino básico, só iria enriquecer a comunicação entre os membros da sociedade. Assim seria instituído o bilinguismo, que viabiliza a interatividade entre surdos e ouvintes em um nível de compreensão equivalente.