quinta-feira, 23 de junho de 2016

Susto - continuação...



A GAROTA PASSOU UM SUSTO DAQUELES NAS SENHORIAS DA PENSÃO, pois se recusava a comer e, em determinado momento começou a vomitar muito. Mas o pânico só se deu quando ela passou a perder sangue pelas fezes. Foi quando perceberam a necessidade de levá-la a um médico, o que resultou numa internação de emergência. No hospital, foi receitado suco de gelatina[1]·, que Marli deveria ingerir sempre que tivesse sede. Era uma das poucas coisas que lhe eram permitidas.
            Depois de vários exames descobriram o grande problema: falta de potássio no organismo. A partir de então, foi acrescentado uma medida de citrato de potássio àquela mistura de ácido cítrico e citrato de sódio, dissolvidos em um litro d’ água. Foi então que Marli começou a se recuperar e voltou para a pensão em poucos dias. Mas Landica não se recuperou, já tinha levado muito susto da vida e não podia acreditar que voltaria para casa sem a filha novamente. Seria mais uma despedida difícil.

            DESDE A PRIMEIRA VEZ EM QUE PROCUROU MARIA GODINO, a fim de pedir hospedagem para Marli, Landica jamais havia adentrado naquele pensionato – Talvez Tiãozinho o tivesse feito, mas ela não se recorda muito bem desse detalhe. Só consegue lembrar que iam sempre apressados, pois o marido tinha outros afazeres na capital, além do fato de, muitas vezes, terem que voltar para Lagoa Formosa no mesmo dia.  As visitas eram feitas numa salinha, do lado de fora, onde os pais esperavam enquanto a filha era trazida.
             A mãe sempre teve curiosidade em conhecer melhor as instalações, para saber se a menina estaria bem acomodada. Mas, como não tinha coragem de exigir a vistoria, sempre voltava para casa com a dúvida a queimar-lhe os miolos. Tiãozinho não parecia se preocupar muito, o jeito era aceitar. Ele apenas dizia que aquela era a melhor opção, se não a única, para que Marli pudesse frequentar a escola naquele momento. Só que daquela vez era diferente. Dona Maria teria que permitir o acesso de Landica a pensão, ou pelo menos a cozinha.
            Alguém tinha que ensinar a senhoria a preparar o remédio, as medidas deveriam ser exatas e, esse alguém, com certeza, era a mãe da menina. Como seria a primeira vez que ela colocava os pés para o lado de dentro daquele pequeno balcão, que separava hóspedes e visitantes, não deixaria escapar nenhum detalhe. Iria ficar atenta a tudo que pudesse comprometer o local, ou lhe dar alívio para voltar em paz.
            Entrou pelo corredor e passou por algumas portas até chegar à cozinha onde avistou uma grande mesa de madeira com várias cadeiras ao redor. Ali, colocou sua balança e os componentes da mistura. Fez uma medida completa para que dona Maria visse e, logo em seguida, preparou outra, para se certificar de que realmente ela havia aprendido. E foi só isso, nada demais. No final das contas, Landica notou que não dá para formar um conceito positivo ou negativo apenas pela visualização de um refeitório. Mas pelo menos era tudo limpinho, o que não foi o suficiente para dar-lhe a tranquilidade de que precisava.


[1] É uma mistura feita seguindo as instruções de uma gelatina normal, porém acrescentando-se mais água para que permaneça líquida.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Depois da calmaria...









Numa madrugada chuvosa de 1980, em meio ao barulho da chuva caindo no telhado e as trovoadas, Landica ouvia ao longe o som abafado de uma campainha. Meio entorpecida pelo sono, ignorou o tilintar achando que era sonho. Mas, à medida que ia despertando, aquele barulho parecia cada vez mais próximo e urgente. Era o telefone que tocava ininterruptamente e, pela hora, só podia ser notícia ruim. Pulou da cama e correu para o aparelho com o coração na boca e o ar preso nos pulmões:
            - Alô?
            - Alô, por favor, gostaria de falar com a senhora Iolanda, ou o marido. – A voz do outro lado parecia apavorada.
            - Está falando com ela.
             Os minutos seguintes foram de silêncio e, ao desligar o aparelho, Landica sentiu as pernas bambas. O chão se mexia sob seus pés, percebeu então que um frio tomava conta de seu corpo, tão intenso que doía os ossos.
            Não podia ser. Ela não conseguia acreditar que mais uma vez teria que voltar a um hospital, para onde sua filha tinha sido levada às pressas. Saiu correndo e foi direto para seu quarto, onde Tiãozinho ainda dormia. Então, começou a preparar uma mala sem nem mesmo saber o que colocar dentro. Na cabeça, o mesmo pensamento insistia em atormentá-la: “Como chegaria a Belo Horizonte ainda naquela noite?” - Acordou o marido que, meio atordoado, perguntou o que estava acontecendo. Ao tomar conhecimento do ocorrido levantou-se rapidamente, se vestiu de qualquer jeito, pegou as chaves do carro e partiram.
            Logo que chegaram ao hospital, Landica correu até a portaria a fim de se informar sobre a situação da filha. Descobriu o nome do médico que a estava tratando e saiu à sua procura pelos corredores. Quando finalmente o encontrou, foi para ouvir mais uma vez o mesmo discurso: sua Marli em perigo de morte. E Landica viu de novo a filha estirada sobre um leito hospitalar, pálida e extenuada.
            Era julho e fazia muito frio, mas, foi justamente naquele ano, 1980, que o Brasil recebeu a primeira visita de um papa. Isso complicava as coisas, pois toda a rotina da cidade foi alterada em virtude da passagem do Santo Padre pela capital de Minas Gerais. Bancos e repartições públicas fecharam, teatros atrasaram os espetáculos e planos rodoviários foram alterados. Isso se refletiu no trânsito também e dificultou as idas ao hospital onde Marli estava internada. Porém, Landica era muito religiosa e acreditava que a presença do Papa João Paulo II em Belo Horizonte traria sorte e força para as suas orações. Isso a deixou mais confiante na recuperação de Marli.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Muito além da proteção





Marli já estava com mais ou menos uns dez anos e seguia sua rotina na APAE, porém, precisava ser alfabetizada. Então os pais resolveram seguir algumas recomendações médicas e procurar por escolas especializadas. Landica e Tiãozinho já estavam pesquisando uma instituição em Uberaba quando descobriram o Instituto Santa Inês em Belo Horizonte.
            O lugar era administrado por irmãs da Congregação Filhas de Nossa Senhora do Monte Calvário e o colégio representava o que existia de melhor para quem tinha necessidade de atenção especial no processo de aprendizagem: pessoas surdas, assim como Marli. Por ser uma escola de renome e particular, somente era acessível a quem pudesse pagar. Felizmente isso não seria problema. Quando estava tudo certo para a inserção de Marli no colégio, ainda restava o entrave da hospedagem, ou moradia. Landica não poderia se mudar para a capital.
            Na procura de alternativas para que a filha pudesse frequentar as aulas naquela instituição, conheceu uma das freiras que trabalhava no instituto. Foi ela quem indicou uma pensão, próxima ao colégio, onde algumas alunas, que moravam em outras cidades, se hospedavam.

            O CASAL, LEVANDO MARLI PELA MÃO, PROCUROU A DONA DA PENSÃO: senhora Maria. Depois de muita conversa ficou combinado que a proprietária do pensionato, com a ajuda da filha, que também se chamava Maria, levaria e buscaria Marli na escola. Também se comprometeram em preparar e ministrar os remédios que ela fazia uso ininterrupto desde os três aninhos. A responsabilidade era grande, pois os medicamentos deveriam ser dados sem falta e nem atraso, todos os dias.      Naquela época, a escola em Belo Horizonte parecia a mais apropriada, então, a contragosto e desolada, Landica deixou sua menina, de apenas onze anos, aos cuidados de dona Maria e das irmãs do Instituto Santa Inês. Voltou para casa com a conhecida sensação de estar deixando algo importante para trás e nesse momento, pensou no que disseram os médicos:
            - É o melhor para ela. Lá Marli será alfabetizada e terá mais chances de levar uma vida normal. – Por isso Landica se afastava da filhinha mais uma vez. Não poderia ser egoísta querendo segurá-la junto a si, no interior, onde os recursos eram limitados. Só para o bem de Marli é que a mãe abria mão de sua presença. Ela sabia que não seria nada fácil cortar mais uma vez o cordão umbilical que unia as duas e estava certa.
            Marli não se conformava e sempre relutava em se despedir dos pais. Aquilo era um veneno que Landica engolia aos poucos, para curar a filha. Por várias vezes teve o impulso de pegar a menina pela mão e sair correndo dali, sem olhar para trás e nem parar, até chegar em casa, onde estariam a salvo.