terça-feira, 21 de maio de 2013

Ler lábios é ver vozes




Com a demanda de oralizar o estudante surdo a qualquer preço, criou-se o que os cientistas chamam de “medicalização da surdez”. Acompanhando essa tendência e usando como justificativa uma falsa inclusão surgiu, por meio do médico holandês, Johann K. Amman (1669-1724), entre as técnicas que ele já utilizava para oralizar crianças surdas, um procedimento diferente. Visando interesses religiosos, Amman tinha por objetivo inserir na educação para surdos a articulação de palavras por meio da leitura labial.
             
Para tanto, o clínico desenvolveu a técnica do espelho. Funcionava da seguinte forma: os surdos reproduziam, mecanicamente, os movimentos da língua falada na pronúncia das palavras enquanto observavam sua imagem refletida no espelho.  “Embasados nos ideais da ciência mecanicista, que aventava a cura audiológica, inicia-se, com Amman, a cura da fala ou [...] ‘a pedagogia corretiva’”. (SILVA, 2006 p. 31).
          
O que se percebe até então é um vasto histórico de supressão da língua mãe (Libras) e imposição arbitrária da linguagem oral aos surdos. Talvez seja esse o motivo pelo qual a comunicação entre surdos e ouvintes seja ainda uma via de mão única. O conceito de que não é preciso aprender a língua deles pode ser observado no interior das salas de aulas, nas escolas de ensino regular públicas, que acolhem estudantes ouvintes e surdos.
           
O professor ouvinte, geralmente, não sabe Libras e prioriza a aprendizagem dos estudantes ouvintes por desconhecerem as formas de interagir com os surdos. As condições oferecidas a esses alunos são desiguais e inferiores em relação às disponibilizadas aos ouvintes. Renata Freitas, professora substituta na escola pública Deiró Eunápio Borges, em Patos de Minas, 2010, descreve um triste episódio com uma das alunas:


Sou apaixonada pela educação e sempre me preocupei com alunos que tenham dificuldade de aprendizagem. Um dia me deparei com uma aluna surda e consegui me comunicar bem com ela, porque já fiz libras, anteriormente. Mas ela era completamente excluída pelos outros professores. Estava sem intérprete. Era uma coleguinha, que sentava ao seu lado, quem a ajudava nas atividades de sala. Elas estavam na 5ª série, ou melhor, 6º ano agora né? Mudou a nomenclatura. Era sua única amiga. Elas uniam as carteiras e a amiga fazia o papel de intérprete. Quando se comunicou comigo pela primeira vez foi através da menina, que falou: - professora, a Jéssica quer ir ao banheiro. 
Aí eu comecei a falar com ela em Libras e Jéssica ficou muito surpresa, perguntou onde eu tinha aprendido e comentou que nenhum professor falava com ela.

            
O surdo, quando em sala de aula, não têm suas necessidades observadas ou supridas. Dessa forma, fica impossibilitado de desenvolver todo o seu potencial. Enfim, o fato é que “os conhecimentos e informações trabalhados nas escolas são vinculados exclusivamente à língua portuguesa.” (MACHADO, 2006 p. 49). Sobre isso Silva (2008) diz:

As representações do ser surdo, em um universo essencialmente regulado pelo som, ouvir e falar, traduzidas na prática pedagógica pelo ler e escrever tornaram-se tão essencializadas no espaço escolar que qualquer outra forma de ensino não centrado na Língua Portuguesa provoca estranheza e sofre profundas restrições, se não
impedimentos legais no processo de implantação. (SILVA, 2008, p. 82)

            
Lajonquière (apud SOUZA, agosto de 1995) confirma o que vários pesquisadores apontam quando esclarece que já não é mais o aluno que a escola recebe e sim o “deficiente”. Ele afirma que ficava a cargo da “submissão às práticas ‘ortopédicas’ de reabilitação, a busca do resgate de uma função que já deveria ser operante”. Vistos por essa ótica, sucumbindo aos empecilhos impostos no caminho da alfabetização e vida escolar, os surdos acabam desistindo de ir para a escola. Assim vão sendo esquecidos como estudantes e, mais tarde, como profissionais.
           
Há um grave bloqueio comunicacional que dificulta a inserção dos surdos nas universidades e cursos de capacitação: a falta de intérpretes. Até mesmo na formação de futuros comunicadores, por meio da habilitação em comunicação social, a escassez da matéria Libras na grade é visível e preocupante. Quando há aulas dessa disciplina, são oferecidas em caráter opcional e quase nunca reúnem quantidade suficiente de alunos interessados. Enquanto isso, os profissionais da área saem das faculdades com uma lacuna no ensino adquirido. Não estão amplamente aptos para a comunicação não verbal. Não sabem comunicar com os surdos.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Que libras é essa?


Imagem do site:http://www.trabalhoespecial.com.br



E no Brasil, como surgiu a Libras? Em 26 de setembro de 1857 foi fundado no Rio de Janeiro o Instituto Nacional de Surdos-Mudos (INSM, atual Instituto Nacional de Educação de Surdos- INES), por meio da Lei 839, assinada por D. Pedro II. Assim ficou marcado o início oficial da educação dos surdos no Brasil. Porém, de acordo com Reis, citado por Ramos em artigo escrito para o site da editora Arara Azul, em fevereiro de 2004, em 1835 um deputado de nome Cornélio Ferreira apresentou à Assembleia um projeto de lei com base na criação do cargo de "professor de primeiras letras para o ensino de cegos e surdos-mudos". Mas não obteve êxito, o projeto não foi aprovado.

 De acordo com Reis (apud Ramos, 2004, p. 05) o interesse de Dom Pedro II em educação para surdos viria do fato de ser a princesa Isabel mãe de um filho surdo e casada com o Conde D’Eu, parcialmente surdo. Houve realmente grande empenho por parte de D. Pedro II na fundação de uma escola para surdos, ele determinou, inclusive, que viesse para o Brasil em 1855 um professor e intérprete francês, Ernest (ou Eduard) Huet. Vindo do Instituto de Surdos-Mudos de Paris, ele garantiu que o trabalho com os surdos estivesse atualizado com as novas metodologias educacionais.

Por isso acredita-se que haja grande influência da Língua de Sinais Francesa sobre a Língua Brasileira de Sinais. O fato é que naquele tempo, a língua de sinais e o alfabeto datilológico[1] eram aceitos e até estimulados na educação dos surdos. Acreditava-se que podiam facilitar a integração entre professores e alunos.       

Muito tempo depois, em 1973, finalmente, foi escrito um livro brasileiro sobre a língua de sinais pelo estudante Flausino José da Gama. Intitulada Iconographia dos Signaes dos Surdos-Mudos, a obra é inspirada em livro de publicação francesa, o qual pesquisou na biblioteca do Instituto Nacional dos Surdos-Mudos (INSM). E em 1911 o INSM passou a usar a oralidade pura como método de ensino, a exemplo dos demais países. Mas ouve, mesmo que velada, uma luta contra a metodologia por parte de professores, funcionários surdos e os ex-alunos que sempre mantiveram o hábito de frequentar a escola. Não foi o suficiente, pois, ainda hoje, a comunidade surda contabiliza os prejuízos psicológicos, morais, intelectuais e financeiros da supressão de sua língua. Tal ato de mutilação identitária teve origem no Congresso de Milão e adesão no mundo inteiro. Sobre isso, Silva (2008) diz:

Diante da concepção medicalizada da surdez, as escolas pouco a pouco são transformadas em salas de tratamento. As estratégias pedagógicas passam a ser estratégias terapêuticas. Os professores surdos são excluídos e incluem-se os profissionais ouvintes. Os trabalhos pedagógicos coletivos são transformados em terapias individuais e, o que é mais grave, a partir dessa concepção entendeu-se que a surdez afetaria de modo direto a competência linguística dos alunos surdos, estabelecendo assim uma equivocada identidade entre a linguagem e a língua oral. Dessa idéia se infere a noção de que o desenvolvimento cognitivo está condicionado ao maior ou menor conhecimento que tenham os alunos surdos da língua oral. (SILVA, 2008 p. 32).

 Passados 91 anos, em 2002, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) é reconhecida como Língua oficial dos surdos no Brasil por meio da lei nº 10.436. Porém, a regulamentação se torna mais clara pelo decreto 5.626 de dezembro, 2005. Constam em Parágrafo Único que a Libras é uma língua visual-motora de estrutura gramatical própria e um “sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil”. E, mesmo com quase um século de atraso, essa ação representa um grande avanço na luta da comunidade surda por reconhecimento e respeito. As ações planejadas pelo governo impulsionam a sociedade a dar mais um passo rumo à devolução da cidadania surda, tolhida por anos na história.  Ramos (2006) confirma:

A Regulamentação da Lei nº 10.436 (conhecida também como a “Lei de Libras”) passará para a história como um marco positivo na luta pelos direitos de cidadania dos surdos brasileiros. O Decreto 5.626 prevê a inserção da língua de sinais como disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação de professores para o exercício do magistério, em nível médio e superior, e como disciplina curricular optativa nos demais cursos de educação superior e na educação profissional. Prevê também a formação de profissionais surdos e ouvintes para o ensino da língua de sinais, assim como a formação e avaliação dos Intérpretes e Tradutores de Libras, entre outras diversas e importantes ações. (RAMOS, apud MÜLLER DE QUADROS, 2006, p. 04).


Müller de Quadros e Massutti (2007, p. 244) ratificam tal afirmação e complementam: tal lei visa preservar e disseminar a Língua Brasileira de Sinais. Isso assegura o compromisso de formar professores de Libras e intérpretes e propõe curso superior bilíngue voltado a educação infantil. Além do mais, determina a inclusão da língua de sinais em todos os cursos que formam educadores no Brasil.

 Na teoria parece perfeito, mas, na prática a realidade é outra. Ainda não se pode dizer que com essa lei os surdos passam a compartilhar dos mesmos benefícios que o ouvinte. No interior das salas de aula nas universidades, nas agências bancárias, lojas ou quaisquer outros locais públicos, ainda esbarram nos entraves comunicacionais.

Camila Fonseca, 25, fez vestibular para o curso de Sistemas de Informação na Universidade de Cuiabá (Unic) e foi aprovada. Mas, quando passou a frequentar as aulas, percebeu a necessidade de ser auxiliada por um intérprete. A faculdade não dispunha dos serviços desse profissional, por isso Camila se viu obrigada a abrir um processo na justiça como último recurso para fazer valer seus direitos. Ela descreve um episódio em que, diante de uma câmera, precisou provar ao juiz, por meio da Libras, que realmente é surda. Ainda assim, somente após o prazo de um ano e oito meses ficou determinado que ela fosse acompanhada pelo intérprete, garantindo o seu direito a educação no ensino superior.

As barreiras da linguagem ainda são visíveis e difíceis de transpor. A língua de Sinais é pouco compreendida pela larga maioria da sociedade. Nesse contexto, vale ressaltar que, por não haver outra forma de compreender a língua falada, os surdos aprenderam uma técnica bastante funcional para facilitar a interatividade com os ouvintes: a leitura labial. Porém, essa prática é pouco eficiente em alguns ambientes porque é necessário manter a boca do falante no campo visual. Durante uma aula, por exemplo, em que o professor se desloca de um lugar para outro e vira de costas várias vezes, na função de escrever no quadro, é praticamente impossível aplicar a leitura labial.


[1] Alfabeto dos surdos, da Libras. Usam-se as mãos para soletrar.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

ESSA LÍNGUA TEM HISTÓRIA



Há relatos da existência de uma língua de sinais (ou mímica, como era chamada) desde o homem primitivo, assim foi descrito por Ramos (2004):

O primeiro ponto de vista é defendido por cientistas como G. Révész, que, em seu livro Origine et Préhistoire du langage (citado por Kristeva: 1981), aponta para uma perspectiva evolutiva na qual, em seis etapas, traça uma linha desde a comunicação animal até a linguagem humana altamente desenvolvida e complexa. O homem em seu estado primitivo estaria associado à dêixis, aos gritos e aos gestos. Essa visão, compartilhada durante muito tempo pela comunidade científica trouxe, e traz ainda, uma boa dose de rejeição às Línguas de Sinais das comunidades surdas, associando-as à gestualidade primitiva e, portanto à inferioridade. (RAMOS, 2004 p. 03)

O filósofo Heródoto (485 – 420 a.C) achava que os surdos haviam sido amaldiçoados pelos Deuses que lhes tiraram a capacidade de se comunicar de forma humana. Já na China, eram jogados ao mar. Por volta de 485 – 483 a.C, os surdos eram dados em sacrifício ao deus Tautatis durante a festa do Agárico, na Gália. Na Grécia, por volta da mesma época, eram lançados aos leões. Em Atenas, eram retirados de suas famílias e assassinados na frente dos pais. De acordo com o psicólogo e professor Anderson Simão Duarte[1], tais ocorrências se davam pelo fato de o surdo não conseguir se comunicar com “os filhos de Deus”, ou seja, os ouvintes. O filósofo Aristóteles (384 – 322 a.C) desprezou os surdos por achar que, já que não se manifestavam pela fala, não tinham alma, visto que uma era a representação da outra. 

O silêncio tirava-lhes a capacidade de raciocínio, tornando-os animalescos. Tais afirmações explicariam o histórico de exclusão que acompanha os surdos e sua língua. Mas o homem somente considera uma língua como tal se houver uma cultura a ela ligada, por isso Ramos (2004, p. 01) afirma que sob esse ponto de vista, a comunicação por meio de Sinais, ou mímica, existiu desde que existe a língua oral humana. E os interesses científicos sobre essa linguística também são bastante antigos.

O início da comunicação dos surdos se deu na Idade Moderna, por volta do ano de 1453, por meio de um escritor e advogado chamado Della Marca D’Ancora, que dizia ser possível que os surdos se comunicassem através de gestos, “assim como alguns animais, mas de forma mais estruturada.” (Duarte, Libras UFMT 2012).  Em 1500, Girolamo Cardeno, médico e pai de surdo, afirmava que a surdez não era impedimento para o aprendizado e tal processo apresentava melhores resultados através da escrita. Em 1593 foi publicado o primeiro livro sobre línguas de sinais, em Madri e de autoria do monge franciscano Melchor Yebra (1526 – 1586). Tal obra teve publicação póstuma, sob o nome de Refugium Infirmorum, tinha desenhos de vinte e oito letras do alfabeto manual.
            
Pedro Ponce de Léon (1520 – 1584), monge da ordem dos beneditinos de Onã, foi o primeiro professor de surdos registrado nos anais da história. Fundou a primeira escola para surdos em 1584, no mosteiro de Valladolid, porém, não teve nenhuma publicação de autoria própria. Devido aos votos de silêncio, que os monges beneditinos tinham como fundamento imaculável, a comunicação com os alunos somente era feita pelo alfabeto manual. Tal recurso, posteriormente, foi inserido a vários sinais, palavras e vocábulos. E o método fez bastante sucesso em 1620, com Juan Pablo Bonet (1579 – 1623) que, fazendo uso do alfabeto datilológico, alfabetizou um único surdo e, com isso, ganhou o título de Marquês de Frenzo, do rei Henrique IV[2].

Data de 1644 o primeiro livro[3] escrito em inglês The Natural Language of the hand and the Art of Manual Rhetoricem, com autoria de J. Bulwer. Na obra, ele descreve a língua dos sinais, com métodos e recursos de comunicação entre surdos e ouvintes. John Wallis (1616-1700), matemático e teólogo, disseminava que os sinais fossem utilizados como ferramentas para oralizar o surdo. Ele acreditava que a comunicação oral era a única a merecer reconhecimento, por ser a maneira correta.  Um médico suíço chamado Johann Konrad Amman, que condenava a comunicação através das mãos e disseminava a oralidade, fazia uso da língua de sinais para ensinar os surdos a falarem. Dessa forma, associou as técnicas de Bonnet e Wallis.
             
Mais tarde, em 1860, na França, o abade l'Epée, a partir de trabalho desenvolvido com duas surdas acerca da língua utilizada nas ruas de Paris, desenvolve uma metodologia que ele chamou de “Sinais Metódicos”.  Sacks, (apud SOUZA 1995) conta que o abade se empenhava muito no uso dessa língua, mas ao contrário dos oralistas, não tentava a qualquer custo fazer os surdos falarem. Além do mais, L’Epée contava com o apoio de renomados filósofos da época, que consideravam sua chamada “mímica dos surdos” mais do que uma simples linguagem. Era arte de ensinar que até mesmo superava a fala.
           
Com L'Epée, a ideologia reabilitadora ganhou novo conceito. O que deveria ser corrigido era o modo de se comunicar, não mais a deficiência física do surdo (SACKS apud SOUZA, agosto de 1995). Essa teoria foi respeitada e aderida pelo Instituto de Surdos e Mudos (atual Instituto Nacional de Jovens Surdos), de Paris, para a educação dos seus alunos.
           
Enquanto isso, em 1817, foi fundada nos Estados Unidos pelo professor Thomas Hopkins Gallaudet e um dos seus melhores estudantes, a primeira escola permanente para surdos em Hartford, Connecticut. A Língua Americana de Sinais (ASL) foi completamente aceita como língua de instrução nas escolas dos Estados Unidos em 1835. E, de acordo com Ramos, (2004, p. 65) “houve em consequência dessa atitude uma elevação do grau de escolarização das crianças surdas, que passaram a atingir o mercado profissional de nível mais alto, a maioria delas optando por se tornarem professores de surdos.” A pesquisadora comprova que estudos realizados em 17 países da Europa mostram uma tendência à adesão da língua dos sinais na educação dos surdos, nessa mesma época e com os mesmos resultados positivos. 
            
 Já em contrapartida, no ano de 1880 ouve uma mudança radical e a língua de sinais passa a ser banida de forma progressiva das escolas de surdos.  Essa mudança ocorreu depois do Congresso de Milão, que reuniu 182 dos mais renomados professores de surdos. A maioria desses profissionais era de ouvintes, oriundos de países como Bélgica, França, Alemanha, Inglaterra, Itália, Suécia, Rússia, Estados Unidos e Canadá. Não há nenhuma explicação plausível para tal atitude, porém, Silva (2006) esclarece alguns pontos sobre o evento:

O objetivo foi discutir a educação de surdos e analisar as vantagens e os inconvenientes do internato, o período necessário para educação formal, o número de alunos por salas e, principalmente, como os surdos deveriam ser ensinados, por meio da linguagem oral ou gestual. Nesse Congresso, que no momento da deliberação não contava com a participação nem com a opinião da minoria interessada – os surdos -, um grupo de ouvintes impôs a superioridade da língua oral sobre a língua de sinais e decretou que a primeira deveria constituir o único objetivo do ensino. A discussão foi extremamente agitada e, por ampla maioria, o Congresso declarou que o método oral, na educação de surdos, deveria ser preferido em relação ao gestual, pois as palavras eram, para os ouvintes, indubitavelmente superiores aos gestos. (SILVA, 2006, p. 26).


 A partir desta data a maioria dos países optou por restringir a educação dos surdos a uma única língua: a oral, o que os afastou do processo educativo. Vários pesquisadores, entre eles Souza (fevereiro 2007) contam que muitas escolas especiais tiveram suas portas fechadas ou abandonadas por falta de subsídios para mantê-las. O temor era que essas escolas se tornassem pontos disseminadores da língua de sinais. “A orientação era que as crianças surdas fossem, preferencialmente, colocadas em escolas regulares junto com alunos ‘normais’ e que não tivessem nenhum contato com outras crianças surdas.” (Souza, fev. 1995).

Assim, se estabelece uma lacuna na história da LS que vai até a década de 1940, quando surgem indícios do retorno da língua às escolas. Dessa forma, entre trancos e barrancos, a LS resiste ao tempo até a atualidade. Vale ressaltar que os Estados Unidos continuam a ser a maior referência em pesquisa linguística no campo da Língua de Sinais. Empregam, inclusive, alguns pesquisadores surdos em suas equipes, o que é uma grande conquista.
           
A inserção desses estudiosos nos grupos de análise deverá gerar mudanças qualitativas nas pesquisas que vem sendo realizadas. Isso faz pensar na possibilidade de, talvez, as comunidades acadêmicas e políticas brasileiras copiarem este modelo. Seria uma revolução em prol do avanço rumo à inclusão dos surdos nos vários setores a que ainda são privados no país.


segunda-feira, 6 de maio de 2013

O SURDO PELO SURDO




 Até aqui foram expostas as formas verbais e não verbais de comunicar e os conceitos da surdez, quando tratada como patologia clínica. Agora será mostrado outro lado dessa questão: como a surdez é vivida e sentida. Apesar de algumas mudanças legais e conceituais no que se refere ao surdo, seguem em ritmo lento e, na maioria das vezes, pouco perceptíveis para quem vive a surdez e tudo que vem com ela. Um bom exemplo para ilustrar tal experiência é a história de Marcos Rosa Fonseca. Ele é do interior de Minas Gerais, tem 32 anos e sua mãe atende pelo nome de Iolanda, uma das personagens deste livro-reportagem (parte 2).

Marcos nasceu surdo numa família de ouvintes em que já havia um membro na mesma situação. Porém, a surdez não era seu único problema, depois de vários exames foi detectada uma disritmia cerebral[1] e raquitismo[2] que demandavam acompanhamento médico e remédios controlados. Desde criança ele conhece as limitações da surdez e o preconceito acerca dela.

 Quando saía na rua, Marcos era apontado pelas outras crianças como o doido. Elas corriam de medo, pois aprenderam com os pais que ele era “o mudinho doido” e iria pegá-los para fazer-lhes alguma maldade. Isso piorava ainda mais o quadro de Marcos. Ele não entendia a reação das crianças nem a agressividade dos adultos, que lhe viravam o rosto e o ignoravam como se tivesse alguma doença contagiosa.

Essa história parece incomum e cruel, mas está longe de ser um caso isolado. Vários cientistas apontam situações parecidas e tentam esclarecer a origem da discriminação. Rinaldi (1997, p. 15) explica que por muito tempo a surdez era confundida com deficiência mental e até mesmo possessões demoníacas. E, ao longo do tempo, quem não ouve tem sido taxado de “‘doidinho’, mudo ou surdo-mudo”. Como se a surdez estivesse irremediavelmente ligada à mudez.

 O estigma social acompanha o surdo desde os primórdios. Até onde se sabe, nunca ocuparam lugares de destaque na política ou cultura deste país. Müller de Quadros e Perlin (2007) confirmam essa afirmação:

A história nos colocou como deserdados [...] e toda sorte de estereótipos, menos valias nos colocaram todos com os mesmos caracteres, todos não constantes dos espaços de desenvolvimento do país, apesar da visibilidade de nossas diferenças. O triste espaço da deficiência foi o álibi para nos manterem “baixas do progresso”. Usurparam nossa diferença e disso sequer poderíamos sair pelos cadeados colocados aqui e ali. (MÜLLER DE QUADROS & PERLIN, 2007, p. 13)

  Fatos históricos, realmente, significaram um importante fator de atraso na trajetória de conquistas dos surdos. Regina Maria de Souza escreveu para o site popsic.com em agosto de 1995 que por toda a antiguidade “com o aval de filósofos como Aristóteles, até quase o final da Idade Média, os surdos eram considerados imbecis e, portanto, sem direitos legais ou civis.” Foi somente depois do código Justiniano de 529[3], que surgiu distinção entre surdos inatos e os que haviam adquirido a surdez após terem recebido educação. Apenas a estes era concedido o exercício da cidadania.

  Nesse sentido, a situação de Marcos se torna cada vez mais complicada, pois tem dois agentes do preconceito: surdez inata e doença mental. Ou seja, ainda que não portasse a disritmia estaria à mercê do julgamento, humilhação e isolamento da sociedade. A mesma que rotula e exclui indivíduos pelos mais variados motivos. Entre eles, a deficiência auditiva. Porém, muitas vezes, por falta de conhecimento ou desinteresse, o preconceito começa em casa. Quando isso acontece, o que pode ser feito?

 Dificilmente o surdo consegue ir contra a vontade dos pais. Quando se notou que Marcos não ouvia, encaminharam-no para um profissional em fonoaudiologia, como normalmente acontece com outros surdos. Esse fonoaudiólogo orientou Dona Iolanda, a mãe, a não deixá-lo usar mímica para se comunicar. A razão era tentar forçar a oralidade, já que o garoto tinha as cordas vocais em perfeito estado. Aliás, a maior parte da comunidade surda tem. Ela obedeceu e armou uma batalha incessante, acompanhada de mal-estar e estresse com o filho, que insistia em usar as mãos para facilitar a comunicação entre eles. O resultado foi que Marcos não aprendeu a Língua de Sinais (Libras) e hoje não se identifica com nenhuma das duas línguas. Consegue se comunicar com os mais próximos, mas, quando precisa falar com estranhos aparecem as dificuldades.

As técnicas usadas a fim de “arrancar” a fala dos surdos eram e ainda são questionáveis. Será que é mesmo necessário privá-los da comunicação manual para obrigá-los a usar a oralidade? Nesse caso, os prejuízos podem significar muito mais do que retirar dos surdos o direito a uma língua. Santana e Bérgamo (2005, pp. 03,04) afirmam que há uma perda de identidade, pois é preciso que haja contato com outros surdos que usem a língua de Sinais para que surjam novas formas de interagir. Eles descobrem formas de dialogar e aprender que não conseguem por meio da língua falada.  Os pesquisadores defendem que “ao tomar a língua como definidora de uma identidade social, ainda que se leve em conta as relações e os conflitos relativos às distintas posições ocupadas por grupos sociais, enfatiza-se o seu caráter instrumental.” Os autores creditam a natureza e significação dos surdos em sociedade às interações sociais que estão ligados.

SOUZA (agosto de 1995) confirma que os problemas afetivos dos surdos estavam fortemente ligados à privação linguística que imputávamos a eles. Por isso, grande parte dessas pessoas acabou por confirmar os argumentos em favor da necessidade de acompanhamento psicológico e médico. Fortaleceu-se a ideia de que era preciso métodos corretivos ou preventivos dos sintomas que a teoria esperava que emergissem. Assim, criou-se um círculo vicioso:

A privação linguística, provocada pelos preconceitos da sociedade e dos profissionais em relação à L.S., condicionava graves comprometimentos afetivos e cognitivos no surdo, o que, por sua vez, compelia o psicólogo a adotar uma praxis[4] ‘reabilitadora’. Não havia, aparentemente, outra saída. (SOUZA, agosto 1995)


Os surdos já possuem sua própria língua, que é reconhecida por lei. Porém, até então, pouco aderida e respeitada pela sociedade. Mas, por que ocorre a rejeição? Algumas suspeitas já podem ser levantadas: histórico de descaso com o surdo; por haver uma minoria de surdos na sociedade; falta de interesse em aprender a língua e interagir; pouca divulgação e oferta de cursos para habilitar os ouvintes; ou todas as alternativas acima. Müller de Quadros e Perlin (2007) apontam para uma rotulação dos surdos, colocando-os à margem da sociedade e desvalorizando sua cultura:

Nós surdos somos aquele grupo [...] de párias da sociedade. O que nos levou a ser classificados como isto, se estamos bem vestidos, comemos em restaurantes de classe e transitamos em qualquer ambiente como qualquer grupo, simplesmente a chamada normalidade? [...] Hoje os párias, os não normais, não irão para quaisquer países como nos tempos da colonialidade em que o rei determinava a criação de novas cidades e os deficientes eram jogados pelos despenhadeiros, por representarem um peso para a sociedade. A temporalidade daqueles feitos incautos mudou. Ficamos entre os homens e mulheres, pois assim a vida é possível. [...] Não nos importa que nos marquem como refugos, como excluídos, como anormais. Importa-nos quem somos, o que somos e como somos. A diferença será sempre diferença. (MÜLLER DE QUADROS e PERLIN, 2007, pp. 09-10).

 O fato apontado por vários teóricos: a Língua dos Sinais (Libras) é um fator que define e reforça a identidade e a cultura surdas. No entanto, outro elemento de relevância é a resistência social em acolher e integrar a comunidade surda e suas diferenças junto aos ouvintes. Antes de querer curá-los, é preciso respeitá-los como são. Os surdos vivem, trabalham e se divertem como qualquer pessoa. Não são iguais aos ouvintes, já que não ouvem e afirmam sua diferença, porém rejeitam o estigma da patologia. “Continuamos a dizer que somos normais com nossa língua de sinais, com o nosso jeito de ser surdos.” (MÜLLER DE QUADROS e PERLIN, 2007, p.10). E por isso lutam. Organizam-se em Associações e outros espaços onde formam grupos de resistência aos preconceitos e exclusão como esclarece Miorando (2006):

O Movimento Surdo, no mundo, proporcionou uma organização política que avança no sentido de superar a marginalização, trazendo esse sujeito para os espaços que o enxerguem como um cidadão. É uma organização que atua a partir de estratégias que buscam romper estereótipos que ameacem a sua acessibilidade a uma gama de direitos adquiridos, principalmente, a uma educação de qualidade. Nas camisetas que seus integrantes usam, está estampado o seu desejo de reconhecimento: “Pelo direito de ser surdo”, pela não obrigação de ser submetido a estratégias que o queiram ouvinte, como se não fosse normal. (MIORANDO, 2006 p. 78).




FIG. 8: Camiseta de protesto contra o preconceito
Fonte: site Zazzle.com


  Nota-se que a aceitação dos surdos pela sociedade fica intrinsecamente condicionada a algumas regras, uma delas é que o surdo se “oralize” e abandone sua língua. Condição que eles definitivamente não aceitam. Seria abandonar o que os define como seres sociais distintos, carregados de sua própria cultura. Agentes significantes, produtores de significados acerca da história de exclusão e lutas sociais nesse país. Por outro lado, tal condição encorajou os surdos a cunharem estratégias próprias para ter acesso a um direito que é inerente a todo cidadão, o exercício da cidadania: estudar, viajar, conviver em sociedade, trabalhar, ser feliz!




[1] Essa doença acarreta um conjunto de sintomas que se distinguem por fatos recorrentes e breves, capazes de distorcer a consciência. Podem se associar a alterações dos movimentos, convulsões e mesmo transtornos do sentimento, das emoções, da conduta, ou tudo isso junto.
[2] Deficiência de cálcio nos ossos, causada pela falta da vitamina D.
[3] Justiniano foi um imperador romano que subiu ao trono em agosto de 527 d.C., iniciando obra militar e legislativa. Reuniu comissão de dez membros para compilar as constituições imperiais vigentes e instituiu o que ele chamou de “Novus Justinianus Codex”.
[4] Termo que significa "ação" ou "atividade" e que foi introduzido por Aristóteles para, por oposição a theoria (teoria) e poiêsis (arte). Na linguagem comum, a prática é frequentemente entendida em oposição a teoria. (Dicionário de Filosofia, 2003).