Os filhos de surdos
têm acesso às duas línguas sem maiores dificuldades, já que aprendem língua de
Sinais e oral, geralmente, com membros da família que, nesse caso, é composta
por surdos e ouvintes. Esclarecendo que o Coda nasce de pai e mãe surdos. Por
isso assume instantaneamente o papel de intérprete dos pais e para os pais.
Porém, alguns Codas sentem-se extremamente desconfortáveis ao serem
interpelados - tanto por surdos como por ouvintes - para o cumprimento dessa
missão imposta tanto pelos pais quanto pelos ouvintes mais próximos. Nesse
sentido, o Coda acaba sendo utilizado como um objeto de tradução simultânea
para ambas as partes.
Porém, nada é tão simples. As
línguas têm sua subjetividade e as diferenças de interpretação não podem ser
traduzidas. Assim, os Codas se veem numa situação delicada e difícil de
resolver. Esse desconforto é apontado por MÜLLER de Quadros e Massutti (2007)
quando descrevem os conflitos gerados pela convivência do Coda com dois grupos
distintos e representações linguísticas díspares – ouvintes, representados pela
Língua Portuguesa e surdos pela Libras. Um marcado pela falta de conhecimento e
interesse pelo outro, que por sua vez tem a própria língua demarcada pelo
embate e rejeição social.
A convivência familiar de uma pessoa com os
costumes, princípios e crenças acolhidos e ensinados no interior de cada lar,
de geração em geração, acaba por interferir na percepção que o sujeito tem do
mundo ao redor. Contudo, ainda há os conflitos suscitados pelo campo das
significações de toda língua e isso não é diferente com a língua de sinais e a
língua portuguesa. O Coda fica na fronteira entre ambas. Ele pertence tanto ao
grupo cultural dos surdos quanto dos ouvintes e isso se traduz em uma imensa
agonia na interpretação e tradução de ambos.
Não há como passar para a língua
portuguesa uma palavra, que em Libras é repleta de subjetividade, sem perder
muito do significado. O mesmo acontece quando se tenta traduzir para Libras
frases que carregam carga semântica própria da língua portuguesa e que no
imaginário do surdo tem outro tipo de representação. “Não é apenas a forma de
dizer na língua de sinais e na língua falada que difere, mas o próprio campo
afetivo se constitui culturalmente de substâncias diferentes.” (MÜLLER de
QUADROS; MASSUTTI, 2007, p. 248-249).
O
impasse se mostra mais acentuado na fase em que a criança Coda começa a
interagir com as duas culturas. É impossível não perceber a diferença de
valoração entre uma e outra. Para a criança, o senso comum, muitas vezes é o
que dita o certo e o errado, o melhor e o pior. Isso pode ser ilustrado por
meio de uma experiência vivida por outra personagem do capítulo 2 : Marli,
filha de Iolanda, surda, casada com Carlos, também surdo. O casal tem um filho
de 13 anos chamado Júlio, ouvinte. Ele aprendeu a língua de sinais com os pais
e a oralidade com os tios e avós. Tornou-se bilíngue, como esperado.
O problema surgiu quando o garoto
começou a frequentar a escola normal do ensino fundamental. Em contato com as outras
crianças ouvintes ele começou a confrontar as duas culturas e,
consequentemente, se comparar aos colegas. Isso é comum entre crianças e
adolescentes, levando-se em conta que estão na fase de desenvolvimento corporal
e formação da personalidade. Até aqui não há problema. Mas há de se considerar
que Júlio, assim como todos os CODAs, está em contato direto com duas culturas
e línguas completamente indissolúveis e heterogêneas. Em algum momento ele se
viu numa encruzilhada onde teria que escolher entre uma e outra. Nesse impasse
prevaleceu a mais forte: a oralidade. Ela o tornava igual aos colegas com quem
convivia diariamente na escola.
Nenhum comentário:
Postar um comentário