segunda-feira, 1 de julho de 2013

Codas: uma ponte entre dois mundos



Os filhos de surdos têm acesso às duas línguas sem maiores dificuldades, já que aprendem língua de Sinais e oral, geralmente, com membros da família que, nesse caso, é composta por surdos e ouvintes. Esclarecendo que o Coda nasce de pai e mãe surdos. Por isso assume instantaneamente o papel de intérprete dos pais e para os pais. Porém, alguns Codas sentem-se extremamente desconfortáveis ao serem interpelados - tanto por surdos como por ouvintes - para o cumprimento dessa missão imposta tanto pelos pais quanto pelos ouvintes mais próximos. Nesse sentido, o Coda acaba sendo utilizado como um objeto de tradução simultânea para ambas as partes.
           
Porém, nada é tão simples. As línguas têm sua subjetividade e as diferenças de interpretação não podem ser traduzidas. Assim, os Codas se veem numa situação delicada e difícil de resolver. Esse desconforto é apontado por MÜLLER de Quadros e Massutti (2007) quando descrevem os conflitos gerados pela convivência do Coda com dois grupos distintos e representações linguísticas díspares – ouvintes, representados pela Língua Portuguesa e surdos pela Libras. Um marcado pela falta de conhecimento e interesse pelo outro, que por sua vez tem a própria língua demarcada pelo embate e rejeição social.
            
 A convivência familiar de uma pessoa com os costumes, princípios e crenças acolhidos e ensinados no interior de cada lar, de geração em geração, acaba por interferir na percepção que o sujeito tem do mundo ao redor. Contudo, ainda há os conflitos suscitados pelo campo das significações de toda língua e isso não é diferente com a língua de sinais e a língua portuguesa. O Coda fica na fronteira entre ambas. Ele pertence tanto ao grupo cultural dos surdos quanto dos ouvintes e isso se traduz em uma imensa agonia na interpretação e tradução de ambos.
            
Não há como passar para a língua portuguesa uma palavra, que em Libras é repleta de subjetividade, sem perder muito do significado. O mesmo acontece quando se tenta traduzir para Libras frases que carregam carga semântica própria da língua portuguesa e que no imaginário do surdo tem outro tipo de representação. “Não é apenas a forma de dizer na língua de sinais e na língua falada que difere, mas o próprio campo afetivo se constitui culturalmente de substâncias diferentes.” (MÜLLER de QUADROS; MASSUTTI, 2007, p. 248-249).
            
O impasse se mostra mais acentuado na fase em que a criança Coda começa a interagir com as duas culturas. É impossível não perceber a diferença de valoração entre uma e outra. Para a criança, o senso comum, muitas vezes é o que dita o certo e o errado, o melhor e o pior. Isso pode ser ilustrado por meio de uma experiência vivida por outra personagem do capítulo 2 : Marli, filha de Iolanda, surda, casada com Carlos, também surdo. O casal tem um filho de 13 anos chamado Júlio, ouvinte. Ele aprendeu a língua de sinais com os pais e a oralidade com os tios e avós. Tornou-se bilíngue, como esperado.
            
O problema surgiu quando o garoto começou a frequentar a escola normal do ensino fundamental. Em contato com as outras crianças ouvintes ele começou a confrontar as duas culturas e, consequentemente, se comparar aos colegas. Isso é comum entre crianças e adolescentes, levando-se em conta que estão na fase de desenvolvimento corporal e formação da personalidade. Até aqui não há problema. Mas há de se considerar que Júlio, assim como todos os CODAs, está em contato direto com duas culturas e línguas completamente indissolúveis e heterogêneas. Em algum momento ele se viu numa encruzilhada onde teria que escolher entre uma e outra. Nesse impasse prevaleceu a mais forte: a oralidade. Ela o tornava igual aos colegas com quem convivia diariamente na escola.







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