Grupo de surdos do DF mostram as dificuldades que enfrentam no dia a dia, através de desenhos. Os cartoons ilustram as barreiras comunicacionais imposta aos surdos numa sociedade não inclusiva.
Veja matéria completa no link abaixo:
http://tvbrasil.ebc.com.br/reporterbrasil/bloco/grupo-de-alunos-surdos-do-df-criam-desenhos-animados-mostrando-as-dificuldades
Este é o blog do livro "O Som dos Sinais". Aqui você encontra artigos, dicas e novidades sobre surdez, cultura surda e afins.
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
terça-feira, 30 de julho de 2013
Quem casa quer casa
Meses depois da cerimônia, os
recém-casados foram morar em uma das fazendas do Senhor Cristiano Fonseca, pai
de Tiãozinho. Para Landica, a vida por ali também não foi fácil, pois, em anexo
com a casa tinha uma pequena mercearia que atendia aos fazendeiros da região,
suprindo suas despensas. Como não tinham nenhum funcionário, Landica precisava
acordar antes do sol nascer para dar conta de todo o serviço doméstico e ainda
atender no comércio.
Tiãozinho ficava encarregado de
buscar os mantimentos em Lagoa Formosa, arraial a mais ou menos 20 quilômetros
da fazenda. Às vezes, ele fazia uns carretos para algumas cidades mais
distantes, a fim de complementar a renda familiar. O marido sonhava alto,
queria que o negócio crescesse e desse muitos lucros. Ela não via nenhum mal
nisso, até admirava sua garra para o trabalho e preocupação com o futuro.
O tempo passou e quando a vida já
estava se tornando muito monótona: a novidade. Um dia, Landica começou a sentir
umas coisas estranhas e já imaginou o que pudesse ser, afinal, estava em tempo.
Os seios se dilatavam, as náuseas se tornavam frequentes e, pouco tempo depois,
Iolanda tinha a certeza. Passados dez meses, em setembro de 1962 ela descobriu
que eles iriam se tornar uma família de verdade. Dentro de poucos meses
chegaria um bebê para revigorar a felicidade naquela casa.
E foi logo na primeira gravidez que
Landica descobriu vários problemas: sua baixa resistência, fraqueza e
intolerância a todos os tipos de alimentos em períodos de gestação. Não
conseguia segurar nada no estômago. Os enjoos eram tão fortes que, muitas vezes,
Tiãozinho tinha que coloca-la no carro e se deslocar 40 quilômetros até Patos
de Minas, uma das cidades mais bem estruturadas da região, para atendimento
médico. Devido à gravidade dos sintomas ela precisava de um hospital bem
preparado, com clínicos especializados, e isso ainda não existia no pequeno
arraial, Lagoa Formosa.
A cada 60 dias, Landica retornava ao
hospital para se reidratar e nutrir. Era nesses pequenos intervalos de mais ou
menos três dias que a futura mamãe conseguia ingerir uma sopinha, ou qualquer
outra comida leve, sem vomitar logo em seguida, como acontecia em casa. Isso
somente era possível graças aos remédios misturados ao soro.
Mas, quando voltava para a fazenda, os vômitos
voltavam com ela. Esse era um problema que os médicos tentavam resolver na base
do “erro e acerto” com incontáveis medicamentos, entre eles alguns
antibióticos. Landica não sabia muito sobre aqueles remédios, apenas tomava e
seguia as recomendações dos clínicos, que justificavam dizendo que a
desnutrição baixava a imunidade e tornava bem mais fácil o contágio das doenças
oportunistas. No entanto, nenhum deles tinha o efeito esperado.
Após sete meses entre hospital e fazenda,
finalmente, no dia 1º de abril de 1963, Marlúcia nasceu, trazendo no sorriso toda
a alegria de que seus pais precisavam. Voltaram para a fazenda com a filha nos
braços e novas expectativas para o futuro. Landica sentia-se muito feliz por
ter sua menininha para criar. Era uma garotinha linda, de bochechas rosadas e
olhos espertos que a fazia lembrar-se dos seus tempos de criança, quando
sonhava com bonecas. Mas nem em sonho havia imaginado uma bonequinha tão perfeita.
A jovem mãe adorava alimentar, banhar e brincar com o bebê, que era sua melhor
companhia na maior parte do tempo.
Porém, as tarefas domésticas também
precisavam ser cumpridas. Como as duas ficavam sozinhas quase o tempo todo,
Landica carregava a menininha enganchada nas cadeiras para todos os lugares. Às
vezes Marlúcia não ficava quieta, por isso, quando a mãe ia cozinhar no fogão à
lenha, com ela no colo, quase sempre o calor da fornalha lhe queimava o pezinho.
Mas, ainda assim, a garotinha preferia ficar nos braços. Quando podia, Landica colocava-a
para brincar em algum lugar próximo a si com bonecas improvisadas de espigas de
milho, bolas de meia, colheres, que ela batia uma na outra para fazer barulho,
e caixinhas de fósforos, que também lhes servia de chocalho.
A mercearia dava muito trabalho,
sempre que se via atarefada alimentando os porcos e as galinhas, ou até mesmo
trocando as fraldas do bebê, aparecia um cliente, que às vezes demorava horas,
só puxando conversa sem importância para matar o tempo. A vida na roça era
solitária, o vizinho mais próximo ficava a uns quinze minutos de caminhada. Por
isso, quando as pessoas se encontravam não perdiam a oportunidade de saber das
notícias, perguntar sobre a família, os que moravam mais distante, a saúde... Enquanto
o serviço se acumulava, ela ficava ali ouvindo as lamúrias, ou os causos de
algum fazendeiro entediado. Nesse momento, Landica quietava-se e cumpria seu
papel de ouvinte, pacientemente. Seria incapaz de fazer alguma desfeita com os
fregueses da mercearia, não era educado e nem inteligente espantar os
compradores.
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Um vislumbre da felicidade
Imagem: http://www.versodeamor.com.br/quem-diz-que-amor-e-falso-ou-enganoso
Iolanda
Xavier da Rosa Fonseca nasceu e cresceu numa pequena fazenda no interior de
Minas Gerais, em 1944. E como toda mocinha de interior da época, foi criada
para casar e constituir família. Então, entre os afazeres próprios da roça –
tirar leite, fazer queijo, tratar das galinhas, porcos e gado, plantar e
colher... – Landica, como é chamada pelos onze irmãos, também aprendia prendas domésticas como bordar, costurar,
cozinhar, lavar e passar, entre outras.
Dedicada e muito bonita, apesar da
vida dura, não demorou a conquistar um pretendente. Sebastião da Fonseca, rapaz
magro de cabelos negros e muito lisos, pele bronzeada, por causa do trabalho
árduo debaixo do sol, e rústico, como quem fora criado junto dos bichos, numa
família com maioria de homens. Ele era um dos doze filhos do fazendeiro
vizinho, que ao contrário dos pais da moça, possuía muitas terras por aquelas
bandas. No princípio, Tiãozinho, como era chamado pelos mais próximos, ia
cortejar a irmã mais velha de Landica, uma morena de nome Norida. Mas, em pouco
tempo se encantou pela menina tímida de cabelos claros - sempre amarrados e
escondidos debaixo de um lenço, para protegê-los do sol e evitar que caíssem
sobre os olhos - e pele muito delicada delineando um corpo cheio de curvas que,
de vez em quando, passeava pela sala onde Tiãozinho cortejava Norida. Ele não teve
como ignorá-la, logo estava preso pelos encantos da moça, seu olhar a seguia
por toda a parte. Então, completamente fascinado, desistiu da irmã e resolveu
firmar namoro com Landica, com planos para casamento o mais rápido possível.
Apesar de ter pena de Norida, ela também
se apaixonou pelo rapaz, que era dono de um detalhe bastante peculiar:
Tiãozinho só enxergava com um dos olhos, o outro era furado. Landica já o tinha
visto na escola rural, onde estudavam, e sempre ficou imaginando que tipo de violência
ou acidente teria causado aquilo. Tinha ouvido um comentário ou outro, mas nada
que Le mesmo tivesse relatado. Era extremamente reprovável que uma moça “de
família” ficasse de conversinha com os rapazes e, além do mais, as experiências
de convívio entre vizinhos com Tiãozinho não foram nada agradáveis.
Quando ela e os irmãos faziam o
caminho de volta, da escola para casa, precisavam caminhar três vezes mais do que
o normal contornando a fazenda do pai dele, mesmo sabendo que se passassem
dentro da propriedade iriam poupar muito tempo e cansaço. Mas não valia a pena,
pois, quando resolviam cortar caminho pelo pasto, o rapaz os ameaçava com uma
espingarda:
- Ahhh cambada, como se atrevem a
fazer trilhas no pasto? Assim acabam com o capim! Da próxima vez vou acertá-los
com uns tiros de chumbinho!
Landica ficava intimidada por
aquelas palavras e o comportamento agressivo dele, por isso nunca teve a
oportunidade, a curiosidade e nem coragem de especular mais sobre aquele colega
tão arredio. Mas agora o moço se tornara seu namorado e a situação era
diferente. Um dia, apesar da timidez, resolveu conversar com Tiãozinho por mais
tempo e ficou sabendo da história toda.
Ele disse que sofrera um acidente
aos três anos de idade, provocado pelo irmão, Tonico, que trabalhava com um
facão no feitio de um canzil[1]·.
O pequeno Tiãozinho, que passeava pelo quintal, curioso como toda criança,
aproximou-se para ver de perto sua lida. Mas Tonico estava distraído e não
notou a presença do garoto. A mãe deles percebeu o que ia acontecer e correu em
direção aos dois, desesperada, a fim de tentar impedir a fatalidade. Mas, ela
estava muito longe. Tonico, ao ajeitar o facão para impulsionar o golpe que
daria na madeira, acertou o olho do irmão mais novo, causando uma enfermidade
que deixaria marcas permanentes. A família levou o menino a vários
médicos e descobriu que nada podia ser feito. No fim das contas ele ficaria sem
um dos olhos, para sempre.
Landica não achava Tiãozinho menos
encantador por causa do acidente, muito pelo contrário. Ele era o rapaz mais
charmoso que conhecera na vida e, apesar da pouca, ou nenhuma, experiência em relação
aos rapazes, ela tinha certeza que jamais encontraria outro que lhe agradasse
tanto. Ele também demonstrava enorme interesse em relação a ela, não tinham
motivos para esperar.
Assim, Tiãozinho formalizou o pedido
ao pai de Landica, que concedeu a mão da jovem de imediato. Talvez por se
tratar de rapaz com boas referências, membro de família abastada e com
intenções sinceras. Mas, também porque as moças daquela época eram mesmo
criadas para o casamento e, quanto antes se cumprisse esse objetivo, melhor.
Casaram-se numa tarde quente. Era um
sábado, no mês de setembro de 1961, ela com 17 anos de idade e ele com 19.
Sebastião queria que se casassem no dia de seu aniversário, mas como caiu num
domingo e não se fazia casamentos nesses dias, decidiram realizar a cerimônia
um dia antes.
Passaram a noite de núpcias na casa
dos pais de Landica. Ela se sentia extremamente constrangida por começar uma
vida conjugal ali e a situação piorou ainda mais quando descobriu que uma das
convidadas, prima de Tiãozinho, havia mandado alguém espionar o quarto onde o
casal iria ficar. O pedido foi feito poucas horas antes da cerimônia. Ao ser
interpelada por Landica, a garota que fuçava entre os lençóis, disse que Maura,
a prima do noivo, havia mandado procurar por uma toalhinha higiênica, debaixo
do travesseiro.
Naquele momento, a noiva não soube
muito bem o que pensar, pois não entendeu o que Maura pretendia com tal
constatação. Mas depois, quando descobriu a serventia da tal toalhinha, se
sentiu profundamente invadida e desrespeitada.
terça-feira, 16 de julho de 2013
Livro 2
Imagem: http://monsenhorhorta.blogspot.com.br/2013/05/o-valor-da-prece.html
...Por tudo que vivo
agradeço,
embora pareça
infortúnio, é assim
que amadureço.
E por agradecer,
vivo o tudo!
Às vezes choro,
mas sempre passa!
A noite se faz dia
e novamente me abraça.
E por agradecer,
vivo o tudo!
Às vezes choro,
mas sempre passa!
A noite se faz dia
e novamente me abraça.
(Rita Reikki, 2007)
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Quando o coda sai da concha
Imagem:http://poemasemfoco.wordpress.com/2012/02/22/conchas/
Ao contrário de Júlio, há casos em
que o coda nasce e cresce em contato apenas com a cultura surda e a Língua de
Sinais. Quando precisa se inserir na sociedade e começa a frequentar as
escolas, rejeita a cultura ouvinte. Muitas vezes, devido ao impacto provocado
pelo choque de culturas, abandona ou evita o convívio em escolas mistas.
Algumas crianças que nascem e
crescem no seio de uma família de surdos não entendem o preconceito, os rótulos
e nem mesmo a falsa patologia imposta pelo senso-comum. Quando percebem a
maneira pejorativa ou desdenhosa que a sociedade trata seus pais e amigos surdos,
torna-se impossível evitar as consequências disso: revolta e rejeição aos
ouvintes.
Para esses codas a convivência em
sociedade se dá somente – e por meio de muito esforço - pela necessidade de
estudar e ter uma profissão. Também por imposição dos pais. O depoimento de uma
estudante bilíngue, filha de surdos, e ouvinte, recortado do artigo assinado
por Quadros e Massutti (2007), ilustra com clareza a situação vivida por filhos
de pais surdos na escola de ouvintes.
Ela conta que seu maior problema foi à falta
de conhecimento da escola em relação a sua condição de coda. Ninguém sabia nada
sobre a língua ou a cultura dela. Não sabiam lidar com uma filha de surdos e
não estavam preparados para ampará-la e acolhê-la como tal. Ao contrário, os
colegas debochavam de seus pais, transformando a convivência em verdadeira
tortura. Nesse sentido não é errado afirmar que os codas, assim como os surdos,
na maioria das vezes, também são vítimas de bullying[1]
FIG. 12
Representação do mundo surdo
Fonte:
blog Paula Calisto
Para conviver com a sociedade
ouvinte, tanto os surdos quanto os codas são sujeitados a várias situações
desagradáveis. Porém, muitos deles persistem em levar os estudos até o fim,
apesar das dificuldades. O trecho abaixo revela um pouco dessa persistência:
Meus colegas
tiravam sarro dos meus pais todo o tempo. Eu tive que conviver com uma
perspectiva ouvinte da surdez que eu não compartilhava. Para mim, era normal
ser surdo, mas para eles era algo ruim. Eu não gostei da minha primeira escola.
Apesar disso, meus pais estavam tão confiantes sobre a escola que nem se
importavam com o que a escola pensava sobre eles. Eles sempre me diziam que as
pessoas zombavam deles porque não conheciam as pessoas surdas e sua língua de
sinais. Nesse sentido, meus pais nos colocam em vantagem em relação aos
ouvintes da escola, pois nós sabíamos sobre os surdos, sobre a língua de sinais
e que, ainda, eu iria aprender a ler e escrever a língua portuguesa. Essa foi a
mensagem dada pelos meus pais a mim, especialmente da minha própria mãe. Para
mim, como uma CODA, esse contexto não era fácil e eu tive que aprender como
lidar com essas diferentes perspectivas. (MÜLLER DE QUADROS e MASSUTTI, 2007,
p. 259).
Nota-se que a postura
da família é de extrema importância para a formação do coda. O apoio dos amigos
também. Mas, a persistência dos pais em
não sucumbir aos entraves e apoiar os filhos nas situações mais embaraçosas é
fundamental. Reafirmar sua condição de surdo, cidadão e indivíduo dotado de
todos os direitos e deveres sociais é essencial para cimentar essa relação de
confiança e inspirar respeito no próprio filho. Quando os pais surdos têm uma
atitude firme em relação a sua cultura e passa isso para os filhos ouvintes, os
laços são fortalecidos e as convicções partilhadas.
[1] O
termo bullying tem origem na palavra inglesa bully, que significa
valentão, brigão. Mesmo sem uma denominação em português, é entendido como
ameaça, tirania, opressão, intimidação, humilhação e maltrato. (Fonte: site
nova escola).
sexta-feira, 5 de julho de 2013
A face dura da rejeição
Imagem: http://guiadobebe.uol.com.br/sindrome-da-alienacao-parental/
Quem primeiro notou a mudança foi Marli. Ela ia
levar e buscar o filho na escola todos os dias, porém, depois de um tempo,
Júlio começou a se esconder da mãe. Só aparecendo depois que os colegas já
tinham ido embora. Junto com os desaparecimentos do garoto começaram a sumir
também os recados dos professores, marcando reunião de pais e mestres. Estava
claro que ele atravessava uma crise de identidade e, por ainda estar em fase de
formação de valores, não sabia como lidar com tal situação.
Müller de Quadros e Massutti
explicam que o ponto de vista bilíngue de um Coda em escola de ouvintes é
negligenciado. As características culturais, sociais e linguísticas, que
deveriam ser subsídios importantes para sua melhor interação escolar são
neutralizadas. A escola recebe essa criança ouvinte, filha de pais surdos, e
estabelece um bloqueio entre elas e os pais. No interior dessas escolas, os
pais viram “figuras alienígenas”, não são orientados em relação aos seus
filhos.
A maioria das instituições de ensino fundamental
e médio não está preparada nem para compreender a cultura surda e tampouco a
língua de sinais. Tal fato não é problema detectado somente nas escolas
públicas, também os educandários particulares ignoram essa realidade. “Isso
cria uma cisão entre o mundo escolar e o universo íntimo, espaços que concorrem
de maneira distinta na forma de colocar relevância aos assuntos e construir um
olhar para a realidade.” (MÜLLER de QUADROS; MASSUTTI, 2007, p. 257). E denunciam:
[...]
A escola desconhece os surdos e sua língua. Então, quando esta criança precisa
ir à escola, ela se sente fora de seu mundo, ela não tem uma relação de
pertencimento com aquele espaço. Para a escola, os pais surdos são vistos como
alienígenas. A escola não consegue atribuir a esses pais o status de
pais, por que eles são surdos. Eles não são vistos como pais, mas vistos como
surdos. A eles não é outorgado o direito de serem pais. A escola repassa à
própria criança a responsabilidade dos pais, porque ela ouve. (MÜLLER de
QUADROS; MASSUTTI, 2007, p. 257).
Na maioria das vezes
o que acontece é um estranhamento entre a instituição de ensino e os pais surdos.
Por ser um espaço composto por ouvintes e para ouvintes, não há nenhum esforço
para que haja uma interação entre os professores e os pais de codas. Isso
estabelece uma fronteira comunicacional e também desconforto para o aluno coda,
que percebe e vivencia essa animosidade entre as culturas.
Nem sempre resistem às pressões ouvintistas e
acabam se equivocando em priorizar a língua falada, ou mesmo rejeitar a Libras.
Júlio, com o tempo, também começou a trocar os passeios com os pais nas
associações de surdos pela casa dos avós ou tios. Ele não queria mais
participar das festas e manifestações culturais dos surdos. De alguma forma,
rejeitava a ideia de pertencer a uma cultura que é estranha para a maioria e
excluída pela sociedade. As autoras MÜLLER
de Quadros
e Massutti (2007) esclarecem:
Paradoxalmente,
os codas também são vítimas do próprio preconceito que cada língua porta.
Muitas vezes, esse sujeito não compartilha de uma série de estereótipos
disseminados nos distintos sistemas culturais, justamente porque tem a
percepção da diferença em sua vivência cotidiana. Entretanto, esse sujeito não consegue
apagar a leitura cultural que faz de si e dos outros, e é intensamente afetado
por ela. Por haver internalizado os sistemas de representações linguísticos e
culturais, esse sujeito reconhece os preconceitos que se incrustaram em ambas
as línguas, em cada uma
a sua
forma. (MÜLLER de QUADROS; MASSUTTI, 2007, p. 251).
Nesses momentos de
dúvida e questionamento de valores o apoio dos membros ouvintes mais próximos é
de extrema importância para conscientizar o coda do seu papel como filho de
surdos, bilíngue. É preciso um trabalho conjunto entre família e escola a fim derrubar
os muros impostos pela oralidade e valorizar a cultura e a língua dos surdos.
Assim, seus filhos aprendem a ter orgulho da condição de ponte entre essas duas
realidades.
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Codas: uma ponte entre dois mundos
Os filhos de surdos
têm acesso às duas línguas sem maiores dificuldades, já que aprendem língua de
Sinais e oral, geralmente, com membros da família que, nesse caso, é composta
por surdos e ouvintes. Esclarecendo que o Coda nasce de pai e mãe surdos. Por
isso assume instantaneamente o papel de intérprete dos pais e para os pais.
Porém, alguns Codas sentem-se extremamente desconfortáveis ao serem
interpelados - tanto por surdos como por ouvintes - para o cumprimento dessa
missão imposta tanto pelos pais quanto pelos ouvintes mais próximos. Nesse
sentido, o Coda acaba sendo utilizado como um objeto de tradução simultânea
para ambas as partes.
Porém, nada é tão simples. As
línguas têm sua subjetividade e as diferenças de interpretação não podem ser
traduzidas. Assim, os Codas se veem numa situação delicada e difícil de
resolver. Esse desconforto é apontado por MÜLLER de Quadros e Massutti (2007)
quando descrevem os conflitos gerados pela convivência do Coda com dois grupos
distintos e representações linguísticas díspares – ouvintes, representados pela
Língua Portuguesa e surdos pela Libras. Um marcado pela falta de conhecimento e
interesse pelo outro, que por sua vez tem a própria língua demarcada pelo
embate e rejeição social.
A convivência familiar de uma pessoa com os
costumes, princípios e crenças acolhidos e ensinados no interior de cada lar,
de geração em geração, acaba por interferir na percepção que o sujeito tem do
mundo ao redor. Contudo, ainda há os conflitos suscitados pelo campo das
significações de toda língua e isso não é diferente com a língua de sinais e a
língua portuguesa. O Coda fica na fronteira entre ambas. Ele pertence tanto ao
grupo cultural dos surdos quanto dos ouvintes e isso se traduz em uma imensa
agonia na interpretação e tradução de ambos.
Não há como passar para a língua
portuguesa uma palavra, que em Libras é repleta de subjetividade, sem perder
muito do significado. O mesmo acontece quando se tenta traduzir para Libras
frases que carregam carga semântica própria da língua portuguesa e que no
imaginário do surdo tem outro tipo de representação. “Não é apenas a forma de
dizer na língua de sinais e na língua falada que difere, mas o próprio campo
afetivo se constitui culturalmente de substâncias diferentes.” (MÜLLER de
QUADROS; MASSUTTI, 2007, p. 248-249).
O
impasse se mostra mais acentuado na fase em que a criança Coda começa a
interagir com as duas culturas. É impossível não perceber a diferença de
valoração entre uma e outra. Para a criança, o senso comum, muitas vezes é o
que dita o certo e o errado, o melhor e o pior. Isso pode ser ilustrado por
meio de uma experiência vivida por outra personagem do capítulo 2 : Marli,
filha de Iolanda, surda, casada com Carlos, também surdo. O casal tem um filho
de 13 anos chamado Júlio, ouvinte. Ele aprendeu a língua de sinais com os pais
e a oralidade com os tios e avós. Tornou-se bilíngue, como esperado.
O problema surgiu quando o garoto
começou a frequentar a escola normal do ensino fundamental. Em contato com as outras
crianças ouvintes ele começou a confrontar as duas culturas e,
consequentemente, se comparar aos colegas. Isso é comum entre crianças e
adolescentes, levando-se em conta que estão na fase de desenvolvimento corporal
e formação da personalidade. Até aqui não há problema. Mas há de se considerar
que Júlio, assim como todos os CODAs, está em contato direto com duas culturas
e línguas completamente indissolúveis e heterogêneas. Em algum momento ele se
viu numa encruzilhada onde teria que escolher entre uma e outra. Nesse impasse
prevaleceu a mais forte: a oralidade. Ela o tornava igual aos colegas com quem
convivia diariamente na escola.
terça-feira, 25 de junho de 2013
Comunicação Total: as raízes do biliguismo
Imagem: http://www.coloribus.com/adsarchive/prints/unknownadvertiser-bold-7557655/
Todos os dispositivos inventados
para oralizar o surdo mostraram-se ineficazes no objetivo mais importante que é
proporcionar-lhe uma comunicação dinâmica e recíproca. O oralismo desenvolveu
técnicas desumanas no intuito de educar o surdo para falar com os ouvintes. Em
um passado recente, o surdo era obrigado a se submeter a essas metodologias,
sem direito a escolha e, em alguns casos, submetido até mesmo à violência
física para que não fizesse uso dos sinais.
Nesse
contexto, a Comunicação Total surge no Brasil na década de 1970 para ser uma alternativa
a oralidade. Porém, nos Estados Unidos, que ainda hoje é referência nesse tipo
de abordagem, tal técnica foi duramente criticada por não apresentar os avanços
esperados no que diz respeito ao processo de leitura e escrita das crianças
surdas (Poker, Unesp, 2007).
De acordo com Anderson Duarte, psicólogo e
professor de Libras na UFMT, embora a Comunicação Total não substitua as
práticas oralistas, vários professores, mesmo sem saber de suas limitações
utilizam seus componentes. Ele aponta aspectos negativos em tal filosofia.
Entre as principais restrições da Comunicação total, Duarte aponta o uso do
português sinalizado e a invenção de sinais, além de certo excesso na
utilização da datilologia.
Já para Capovila (2000), a
Comunicação total não é uma técnica ou método e sim uma filosofia de linguagem
que tem como objetivo básico “abrir canais de comunicação adicionais” para
facilitar a interação entre surdos e ouvintes, de modo a aumentar a
visibilidade da língua falada para além da simples leitura labial. Assim,
pretendia-se melhorar o desempenho do surdo na função de ler e escrever.
Com a filosofia da Comunicação Total e
a consequente adoção da língua falada e sinalizada nas escolas e nos lares, as
crianças começaram a participar das conversas com seus professores e
familiares, de um modo que jamais havia visto desde a adoção do oralismo
estrito. No fim dos anos 1960 e início dos anos 1980, na Dinamarca, por
exemplo, o progresso se tornou tão aparente que a sinalização da fala usada na
comunicação total foi logo adotada como “o método” por excelência. (HANSEN,
APUD CAPOVILA, 2000. p. 104).
Outros estudiosos defendem o uso da Comunicação Total
para viabilizar a interação entre surdos, e surdo com ouvinte. A Drª Rosimar
Poker (2007) enfoca os dispositivos com os quais as crianças podem contar para
auxiliar no ato de comunicar. São eles: o alfabeto digital; a língua de sinais;
a amplificação sonora; português sinalizado. Ela alerta também para o aspecto
humano dessa filosofia que “valoriza a comunicação e interação, não apenas a
língua”. E além do mais, tem algo extremamente importante para os defensores da
cultura surda que é enxergar o surdo como uma pessoa e não como uma patologia.
É fato que a surdez repercute na vida social, afetiva e no desenvolvimento
cognitivo do indivíduo, por isso a pesquisadora defende uma melhor viabilidade
da comunicação do surdo com o mundo ao seu redor.
Uma diferença marcante entre a
Comunicação Total e as outras abordagens educacionais constitui-se no fato de
que a Comunicação Total defende a utilização de qualquer recurso linguístico,
seja a língua de sinais, a linguagem oral ou códigos manuais, para propiciar a
comunicação com as pessoas com surdez. A Comunicação Total valoriza a
comunicação e a interação e não apenas a língua. Seu objetivo maior não se
restringe ao aprendizado de uma língua. Outro aspecto a ser salientado é que
esta filosofia respeita a família da criança com surdez. Acredita que cabe à
família o papel de compartilhar valores e significados, formando, junto com a
criança, através da possibilidade da comunicação, sua subjetividade. Os
defensores da filosofia da Comunicação Total recomendam então o uso simultâneo
de diferentes códigos como: a Língua de Sinais, a datilologia, o português
sinalizado, etc. [...] Nesse sentido a Comunicação Total acredita que esse
bimodalismo pode atenuar o bloqueio de comunicação existente entre a criança
com surdez e os ouvintes. Tenta evitar que as crianças sofram as consequências
do isolamento. (POKER, 2007)
Muitas vezes as consequências do isolamento
resultam na desistência do surdo em estudar e se profissionalizar, isso
acarreta danos gravíssimos para o futuro desses indivíduos. O bilinguismo surgiu em meados de
1950-1960, mesma época em que se intensificaram os estudos acerca da
sociolinguística. E dentro dessas pesquisas comprovou-se que havia uma gama de variações
no mesmo contexto de fala, o que muito contribuiu para refutar o conceito de
pureza linguística, tão pregado pelos defensores da oralidade.
A partir de então as mudanças
passaram a ser relacionadas com as variáveis sociais e passou-se a acreditar
que eram não só esperadas, mas necessárias. Autores como Weinreich, Labov e
Herzog (1968, apud SOUZA 1995), ligados a esta abordagem, explicavam que a
heterogeneidade refletia uma parte essencial da competência linguística
unilíngue. Para eles, a ausência de variação é que deveria ser considerada como
disfuncional.
Foi também nessa época que se
potencializaram as lutas pelas minorias e, nesse contexto, estudos como a
Antropologia e psicologia social apontavam para novos caminhos conceituais
sobre uma diversidade possível. Assim, surge maior interesse nos sinais
utilizados para a comunicação entre surdos. Souza (1995) explica que Stokoe, docente e linguista do Gallaudet College,
percebeu as semelhanças existentes na multiplicidade dos gestos empregados
pelos surdos e se propôs a estudá-los. Concentrou então sua atenção no aspecto
fonológico desses sinais. Notou que eram compostos por um numero limitado de
unidades que isoladas não significavam nada, assim como os fonemas das línguas
faladas. E dessa forma chegou a alguns resultados:
Propôs que
cada palavra em sinal tinha pelo menos três partes independentes: locação,
formato de mão e movimento, e que cada uma destas partes possuía um número
limitado de combinações. Constataram 19 formas de mãos diferentes, 12 locações,
24 tipos de movimentos e inventou uma notação para representá-los. Em Sign
Language Structure, Stokoe (1960) demonstrou que a estrutura da língua de
sinais possuía aspectos similares à estrutura de todas as línguas. Portanto,
era, de fato, uma língua. Nos
anos seguintes, houve um pipocar de trabalhos que demonstravam que crianças
surdas, filhas de pais surdos e sinalizadores, tinham um melhor desempenho
acadêmico e construíam uma autoimagem mais positiva quando comparadas com
crianças surdas filhas de pais ouvintes. (SOUZA,
agosto de 1995).
Os avanços nos estudos sobre a LS
provocaram uma efervescência em torno do bilinguismo, que foi ganhando força e
chamando a atenção de um número cada vez maior de cientistas. Dessa forma,
comprovados os aspectos positivos do bilinguismo, tais estudiosos se empenharam
na defesa da aquisição das duas línguas - Libras e Língua Portuguesa. Vale
salientar que o primeiro país a instaurar o ensino bilíngue para surdos e
reconhecer a LS como língua oficial, foi a Suécia.
No Brasil, mesmo com o
reconhecimento da Libras como primeira língua dos surdos e segunda oficial do
país, o caminho para o bilinguismo é tortuoso e cheio de pedras. No entanto,
essa situação pode ser mais natural no caso dos filhos de surdos, Codas[1],
como são chamados.
[1]
Children of Deaf Adults (Crianças de adultos surdos). Geralmente são ouvintes, filhos de pais
surdos.
sexta-feira, 14 de junho de 2013
SER BILINGUE É...
Imagem: http://filhos-bilingues.blogspot.com.br/p/escolas-secundarias-na-inglaterra.html
Ter uma língua
materna e outra secundária é o conceito geral de bilinguismo. Os surdos
bilíngues são aqueles que convivem com duas realidades comunicacionais e
culturas diferentes. Quando nascem em família de ouvintes o primeiro contato é
com cultura oralizada, aprende a ler lábios e passa a reconhecer as palavras. A
essa condição Perlin (apud CUNHA 2007, p. 58) chama “identidade surda de
transição”. Seria o indivíduo que, apesar de crescer com todos os conceitos
ouvintistas[1],
consegue achar o caminho rumo à identidade surda[2].
Algumas crianças surdas são mandadas
para escolas de educação especial, como a APAE[3],
que não é direcionada apenas a instrução dos surdos e sim, aos portadores de
todos os tipos de necessidades especiais. Isso pode ser um grande erro. Um dos
riscos, nesse caso, é desestabilizar o aspecto psicológico e a autoestima do
surdo, mudando a imagem que ele tem de si próprio.
A criação dessas instituições se deu
por motivos questionáveis, assim como sua função de origem. Foucault, citado
por Souza em artigo para o site pepsic.com, em agosto de 1995, explica:
O Estado -
ao menos nas constituições - tomava para si o dever de "reabilitar" o
"anormal" através de mecanismos institucionais que asseguravam sua
reclusão e confinamento. Apareceram as prisões, os manicômios, as escolas
especiais, os colégios internos, etc. Vemos surgir as primeiras escolas para
surdos, os primeiros institutos para a educação dos cegos, a ortopedia dos
defeitos físicos, o tratamento moral da loucura, uma prática pedagógica
corretiva e adestradora, dirigida tanto aos seres humanos "normais"
como àqueles ditos "anormais" (Foucault, apud SOUZA 1995).
Atualmente o Estado se empenha na
luta para mudar essa imagem negativa. Basta visitar os sites das escolas
especiais para notar o esforço em apresentar à sociedade uma imagem de caráter
prático e confiável. Mas, por mais que esses conceitos tenham mudado e a
pedagogia nessas escolas tomem novos rumos, ainda há uma lacuna no ensino
bilinguista.
Em outros casos, os surdos dividem a mesma
sala de aula com estudantes e professores ouvintes, como já foi mostrado. Em
ambos o ensino não se mostra adequado, pois, não se adquirem, nessas
instituições, as duas línguas. O que representa grande prejuízo aos surdos e
ouvintes, pois, o conceito do bilinguismo é justamente de colocar o surdo em
contato com as duas línguas, principalmente a língua de sinais, o mais cedo
possível. Assim, ele poderá aplicar seus conhecimentos de LS na língua
Portuguesa e aprendê-la com mais facilidade. A aquisição da LS como primeira
língua e a língua oral como segunda, possibilita ao surdo vivenciar uma
identidade bicultural.
[2] Surdos que adotam as
formas visuais de experienciar o mundo, nas suas diversas manifestações. O
trocar dessas experiências é uma característica importante na construção dessa
identidade (valoriza-se o momento de encontro entre os surdos). (PERLIN, apud
CUNHA 2007, p. 58)
[3] Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais.
sexta-feira, 7 de junho de 2013
Como se diz?
Imagem: http://www.inglesnapontadalingua.com.br
Amine Leitão,
estudante de jornalismo em uma faculdade de Salvador, BA, certa vez se viu às
voltas com uma matéria, que precisava escrever, sobre a inclusão de deficientes
no mercado de trabalho. Era simples, só teria que pesquisar um pouco e
entrevistar as fontes. Ela ficou sabendo que um supermercado, nos arredores da
faculdade, tinha um quadro de empregados com esse perfil e foi até lá a fim de
entrevistá-los. No entanto, não foi possível concluir sua tarefa. Havia duas
empacotadoras que poderiam ter dado as entrevistas, mas eram surdas e Amine não
sabia se comunicar com elas.
Essa história serve para ilustrar a
falta de interatividade entre surdos e ouvintes no Brasil, assim como a
situação constrangedora para ambas as partes. Uma porque não consegue entender
e a outra por não ser entendida, apesar de ter sua língua reconhecida por lei.
Amine, ao contrário da maioria, se mostrou curiosa sobre o significado dos
gestos manuais e faciais utilizados pelas surdas.
- Será que aprender Libras é assim
tão complicado? Todos aqueles sinais parecem muito complexos. – Ela pensou.
Fig.9: Os
sinais parecem mais complicados do que realmente são.
Fonte: site Retratos da
Alma
Na verdade, aprender a se comunicar
por meio da Libras pode ser divertido e prazeroso. As semelhanças entre a
língua de sinais e a língua falada se dão tanto em relação à sua complexidade
quanto à sua expressividade. Devido a sua modalidade viso-gestual são
utilizadas as mãos, assim como expressões faciais e corporais. Assim, são
produzidos os sinais linguísticos que são captados pelos olhos e traduzidos
pela mente. No caso das línguas orais é utilizada a modalidade oral auditiva,
nela os sons são percebidos pelos ouvidos. “Além disso, as diferenças não se
restringem apenas ao canal de comunicação, mas também às estruturas gramaticais
de cada língua.” (Oliveira e Cunha, 2009, pág. 2).
Como qualquer outra tarefa, para bem
apreender a Libras, basta interesse, dedicação e trabalho. Por meio das mãos é
possível dizer tudo. A figura abaixo mostra o alfabeto como é na Língua
Brasileira de Sinais:
FIG. 10:
Os gestos correspondentes a cada letra do alfabeto.
Fonte:
site Vejo Vozes (Eebllibras)
A Libras tem gramática, fonologia e
significados próprios. Os sinais representam as palavras e isso é feito através
da combinação do movimento das mãos com certa representação corporal. Por
exemplo, parte externa da mão sobre os lábios, quer dizer mamãe, ou dedo
indicativo acima do lábio superior, no canto da boca, é papai. Mas não é regra
que esses sinais sejam os mesmos para todos os surdos. Ao contrário, há muitas
variações de acordo com a região do Brasil. A língua de sinais também tem
regionalismo, assim como outras línguas. Os sinais variam não só de acordo com
o estado, mas também com as culturas
regionais, religiões, grupos sociais, etc. No entanto, alguns
parâmetros foram encontrados, como descrevem Oliveira e Cunha (2009):
Os
parâmetros encontrados em língua de sinais são os seguintes:
Configuração
de mãos, que seria a forma das mãos durante a realização do sinal; ponto de
articulação ou locação, que é o espaço de enunciação; movimento, envolvendo
movimentos internos da mão, do pulso e outros direcionais no espaço;
orientação/ direcionalidade, referindo-se à direção da palma da mão ao produzir
os sinais; expressão facial e/ou corporal, que são os componentes não manuais
importantes na distinção entre alguns sinais. Pesquisas mostram que a língua de
sinais, assim como a língua oral, se estrutura em níveis fonológico,
morfológico, sintático, semântico e pragmático. (OLIVEIRA;CUNHA, 2009, pp.
02-03)
Apesar de ambas as línguas (LS e a
Língua Portuguesa) possuírem morfologia, sintaxe, semântica e fonologia, foi
detectado diferenças expressivas entre elas. Oliveira e Cunha (2009) afirmam
que por se tratar da língua de sinais a morfologia “apresenta características
bem complexas em relação à derivação, flexão e composição, sendo observáveis
quanto à motivação icônica, lexicalização e sistematicidade linguística”. Isso
pode ser detectado observando as modificações da configuração de mãos durante o
diálogo. O nível fonológico é aplicado de forma abstrata, já que na Libras não
se trabalha com os sons, efetivamente.
Na sintaxe há controvérsias em relação à
organização das frases. Nota-se certa flexibilidade na ordem das palavras. Ainda
assim, a forma que prevalece é Sujeito-Verbo-Objeto. Há também discussões sobre
os estudos das relações, foi detectado que não existe ligação direta entre os
significados da língua de sinais e a língua oral. “Ressaltando que os sinais
não são criados aleatoriamente, mas seguindo critérios estruturais
pré-definidos.” Oliveira e Cunha (2009, p. 4).
A
despeito de possuir uma estrutura linguística bem organizada, o que se nota é
um grande descaso em relação à disseminação da Libras. Essa língua, relegada
pela sociedade, ainda não conta com a credibilidade e apoio necessários para
conquistar espaço como disciplina nas grades fixas de escolas regulares e
faculdades brasileiras. É considerada “pantomima” ou “mímica”, incapaz de
transmitir mensagens de forma dinâmica, como apontado por alguns pesquisadores.
Continuar rejeitando a Libras é limitar
os surdos e o seu direito de ser e de viver sua própria humanidade. Teixeira e
Silva, em sua tese de doutorado apresentada na PUC-Rio em agosto de 2004,
esclarecem que uma das principais características dos seres humanos é a
capacidade de simbolizar e construir, por meio das linguagens, o mundo ao seu
redor. A língua dos surdos (língua de Sinais) é utilizada quase que
exclusivamente por eles próprios, poucos são os nativos de outras línguas que sabem
utilizar a LS.
Os pesquisadores afirmam que a
observação empírica confirma o status inferiorizado da Libras em comparação com
a Língua Portuguesa, para quem as conhece. Alguns grupos sequer sabem da existência
de uma língua de sinais. A desconsideração da LS traz grandes prejuízos à
comunidade surda, pode-se afirmar até que “esta comunidade perde, aos olhos dos
outros, sua humanidade, sua possibilidade de significar junto com outros grupos
sociais.” (TEIXEIRA E SILVA, 2004, p. 23).
Por isso, convém ratificar que, a
implantação da Língua de Sinais nas instituições, principalmente nas escolas
regulares de ensino básico, só iria enriquecer a comunicação entre os membros
da sociedade. Assim seria instituído o bilinguismo, que viabiliza a
interatividade entre surdos e ouvintes em um nível de compreensão equivalente.
Assinar:
Postagens (Atom)










