quinta-feira, 11 de julho de 2013

Quando o coda sai da concha


Imagem:http://poemasemfoco.wordpress.com/2012/02/22/conchas/

           
 Ao contrário de Júlio, há casos em que o coda nasce e cresce em contato apenas com a cultura surda e a Língua de Sinais. Quando precisa se inserir na sociedade e começa a frequentar as escolas, rejeita a cultura ouvinte. Muitas vezes, devido ao impacto provocado pelo choque de culturas, abandona ou evita o convívio em escolas mistas.
           
Algumas crianças que nascem e crescem no seio de uma família de surdos não entendem o preconceito, os rótulos e nem mesmo a falsa patologia imposta pelo senso-comum. Quando percebem a maneira pejorativa ou desdenhosa que a sociedade trata seus pais e amigos surdos, torna-se impossível evitar as consequências disso: revolta e rejeição aos ouvintes.
            
Para esses codas a convivência em sociedade se dá somente – e por meio de muito esforço - pela necessidade de estudar e ter uma profissão. Também por imposição dos pais. O depoimento de uma estudante bilíngue, filha de surdos, e ouvinte, recortado do artigo assinado por Quadros e Massutti (2007), ilustra com clareza a situação vivida por filhos de pais surdos na escola de ouvintes.
             
Ela conta que seu maior problema foi à falta de conhecimento da escola em relação a sua condição de coda. Ninguém sabia nada sobre a língua ou a cultura dela. Não sabiam lidar com uma filha de surdos e não estavam preparados para ampará-la e acolhê-la como tal. Ao contrário, os colegas debochavam de seus pais, transformando a convivência em verdadeira tortura. Nesse sentido não é errado afirmar que os codas, assim como os surdos, na maioria das vezes, também são vítimas de bullying[1]

 

FIG. 12 Representação do mundo surdo
Fonte: blog Paula Calisto


            
Para conviver com a sociedade ouvinte, tanto os surdos quanto os codas são sujeitados a várias situações desagradáveis. Porém, muitos deles persistem em levar os estudos até o fim, apesar das dificuldades. O trecho abaixo revela um pouco dessa persistência:


Meus colegas tiravam sarro dos meus pais todo o tempo. Eu tive que conviver com uma perspectiva ouvinte da surdez que eu não compartilhava. Para mim, era normal ser surdo, mas para eles era algo ruim. Eu não gostei da minha primeira escola. Apesar disso, meus pais estavam tão confiantes sobre a escola que nem se importavam com o que a escola pensava sobre eles. Eles sempre me diziam que as pessoas zombavam deles porque não conheciam as pessoas surdas e sua língua de sinais. Nesse sentido, meus pais nos colocam em vantagem em relação aos ouvintes da escola, pois nós sabíamos sobre os surdos, sobre a língua de sinais e que, ainda, eu iria aprender a ler e escrever a língua portuguesa. Essa foi a mensagem dada pelos meus pais a mim, especialmente da minha própria mãe. Para mim, como uma CODA, esse contexto não era fácil e eu tive que aprender como lidar com essas diferentes perspectivas. (MÜLLER DE QUADROS e MASSUTTI, 2007, p. 259).
  
    
Nota-se que a postura da família é de extrema importância para a formação do coda. O apoio dos amigos também.  Mas, a persistência dos pais em não sucumbir aos entraves e apoiar os filhos nas situações mais embaraçosas é fundamental. Reafirmar sua condição de surdo, cidadão e indivíduo dotado de todos os direitos e deveres sociais é essencial para cimentar essa relação de confiança e inspirar respeito no próprio filho. Quando os pais surdos têm uma atitude firme em relação a sua cultura e passa isso para os filhos ouvintes, os laços são fortalecidos e as convicções partilhadas.





[1] O termo bullying tem origem na palavra inglesa bully, que significa valentão, brigão. Mesmo sem uma denominação em português, é entendido como ameaça, tirania, opressão, intimidação, humilhação e maltrato. (Fonte: site nova escola).

Nenhum comentário:

Postar um comentário