Imagem:http://poemasemfoco.wordpress.com/2012/02/22/conchas/
Ao contrário de Júlio, há casos em
que o coda nasce e cresce em contato apenas com a cultura surda e a Língua de
Sinais. Quando precisa se inserir na sociedade e começa a frequentar as
escolas, rejeita a cultura ouvinte. Muitas vezes, devido ao impacto provocado
pelo choque de culturas, abandona ou evita o convívio em escolas mistas.
Algumas crianças que nascem e
crescem no seio de uma família de surdos não entendem o preconceito, os rótulos
e nem mesmo a falsa patologia imposta pelo senso-comum. Quando percebem a
maneira pejorativa ou desdenhosa que a sociedade trata seus pais e amigos surdos,
torna-se impossível evitar as consequências disso: revolta e rejeição aos
ouvintes.
Para esses codas a convivência em
sociedade se dá somente – e por meio de muito esforço - pela necessidade de
estudar e ter uma profissão. Também por imposição dos pais. O depoimento de uma
estudante bilíngue, filha de surdos, e ouvinte, recortado do artigo assinado
por Quadros e Massutti (2007), ilustra com clareza a situação vivida por filhos
de pais surdos na escola de ouvintes.
Ela conta que seu maior problema foi à falta
de conhecimento da escola em relação a sua condição de coda. Ninguém sabia nada
sobre a língua ou a cultura dela. Não sabiam lidar com uma filha de surdos e
não estavam preparados para ampará-la e acolhê-la como tal. Ao contrário, os
colegas debochavam de seus pais, transformando a convivência em verdadeira
tortura. Nesse sentido não é errado afirmar que os codas, assim como os surdos,
na maioria das vezes, também são vítimas de bullying[1]
FIG. 12
Representação do mundo surdo
Fonte:
blog Paula Calisto
Para conviver com a sociedade
ouvinte, tanto os surdos quanto os codas são sujeitados a várias situações
desagradáveis. Porém, muitos deles persistem em levar os estudos até o fim,
apesar das dificuldades. O trecho abaixo revela um pouco dessa persistência:
Meus colegas
tiravam sarro dos meus pais todo o tempo. Eu tive que conviver com uma
perspectiva ouvinte da surdez que eu não compartilhava. Para mim, era normal
ser surdo, mas para eles era algo ruim. Eu não gostei da minha primeira escola.
Apesar disso, meus pais estavam tão confiantes sobre a escola que nem se
importavam com o que a escola pensava sobre eles. Eles sempre me diziam que as
pessoas zombavam deles porque não conheciam as pessoas surdas e sua língua de
sinais. Nesse sentido, meus pais nos colocam em vantagem em relação aos
ouvintes da escola, pois nós sabíamos sobre os surdos, sobre a língua de sinais
e que, ainda, eu iria aprender a ler e escrever a língua portuguesa. Essa foi a
mensagem dada pelos meus pais a mim, especialmente da minha própria mãe. Para
mim, como uma CODA, esse contexto não era fácil e eu tive que aprender como
lidar com essas diferentes perspectivas. (MÜLLER DE QUADROS e MASSUTTI, 2007,
p. 259).
Nota-se que a postura
da família é de extrema importância para a formação do coda. O apoio dos amigos
também. Mas, a persistência dos pais em
não sucumbir aos entraves e apoiar os filhos nas situações mais embaraçosas é
fundamental. Reafirmar sua condição de surdo, cidadão e indivíduo dotado de
todos os direitos e deveres sociais é essencial para cimentar essa relação de
confiança e inspirar respeito no próprio filho. Quando os pais surdos têm uma
atitude firme em relação a sua cultura e passa isso para os filhos ouvintes, os
laços são fortalecidos e as convicções partilhadas.
[1] O
termo bullying tem origem na palavra inglesa bully, que significa
valentão, brigão. Mesmo sem uma denominação em português, é entendido como
ameaça, tirania, opressão, intimidação, humilhação e maltrato. (Fonte: site
nova escola).


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