quinta-feira, 7 de março de 2013

A Comunicação Além da Oralidade


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 Acredita-se que as crianças são capazes de se comunicar antes mesmo de vir ao mundo. Alguns especialistas creem que o bebê estabelece ligação com a mãe ainda no útero, na qual ela é capaz de perceber as variações de humor ou desconforto do filho. Ao nascerem, essas crianças são capazes de reconhecer os pais, principalmente a mãe, pela voz e o cheiro. Nas primeiras semanas eles se comunicam através dos gestos, expressões faciais, gemidos e choro. A psicóloga Viviane Milbradt confirma essa afirmação, apoiada na pesquisa sobre o vínculo entre mães e filhos, em que realiza entrevistas com as mães. O artigo está publicado na Revista Pensamento Biocêntrico.

[...] Segundo a análise das falas das mães, percebeu-se que o estabelecimento da ligação afetiva entre a criança e os pais, ou seja, o vínculo originário pode ter sido estabelecido já no ventre a partir do processo de comunicação materno-fetal e também paterno-fetal, e, consequentemente, fortalecido após o nascimento. (Milbradt, p. 115, jan/jun 2008).

Piccinini (2004):
A percepção materna dos movimentos fetais é considerada um grande marco na gravidez, pois faz com que a mãe sinta o feto como mais real e personificado, e incrementa, por isso, as expectativas referentes a ele. É a partir da maneira como são percebidos estes movimentos que as gestantes vão atribuindo características de temperamento ao bebê, além de expressarem que a interação passou a ser recíproca, e elas podem até compreender certas mensagens dos filhos (Maldonado, 1997; Raphael-Leff, 1997; Szejer & Stewart, 1997). O bebê anuncia, então, sua existência no interior dos pais muito antes do nascimento e os projetos e expectativas que envolvem a sua chegada preparam o lugar para acolhê-lo. Os aspectos concernentes a estas expectativas são diversos e importantes de ser compreendidos, pois são palavras que preparam o espaço do bebê, e, portanto, participam da relação após o nascimento. (PICCININI, 2004, p.224)


 Davis (1979) denomina esse aspecto interativo, assim como a comunicação por meio dos gestos, de “comunicação não verbal” e afirma que esta forma de comunicar é muito antiga. Data de antes do surgimento da oralidade, quando a comunicação não verbal era o único meio de que o homem dispunha. Ela garante ser possível enviar mensagens ao outro sem pronunciar nenhuma palavra, usando apenas expressões faciais. Esclarece ainda que algumas delas são universais e inconfundíveis. 

Mais de mil expressões faciais são possíveis do ponto de vista anatômico e os músculos do rosto são tão versáteis que, teoricamente, todas elas podem ser demonstradas em apenas duas horas. [...] A prova mais citada por aqueles que acreditam nessas expressões universais é o estudo realizado acerca de crianças cegas de nascença. Descobriu-se, por exemplo, que todos os bebês externam um sorriso social por volta das cinco semanas, até mesmo os cegos, isto é, aqueles que não podem imitar quem os rodeia. As crianças cegas riem, choram, fazem beicinho e adotam as expressões típicas de raiva, medo e tristeza. (DAVIS, 1979, pp. 59-61)

 No entanto, essa é apenas uma entre as diversas áreas da linguística que busca ilustrar a capacidade comunicativa dos seres humanos. Várias teorias[1] tentam explicar o fenômeno da aquisição da linguagem pelas crianças. Mas, os testes mostram que são poucas as que apresentam consistência e relevância. O quadro abaixo apresenta algumas delas, explicando suas características e validade cientifica:


TEORIA


ASPECTO

VALIDADE
Tentativa e erro
A criança aprende a língua através de tentativa e erro.
Facilmente derrubado pelo processo de repetição no qual os cientistas observaram que as crianças passavam sempre pelos mesmos estágios e cometiam os mesmos erros.
Imitação dos adultos
Acredita-se que o aprendizado acontece porque a criança imita a forma que os adultos falam.
Não tem muita validade, pois as crianças se expressam de maneira distinta e são capazes de produzir estruturas próprias, que nunca ouviram antes. Além do fato que ouvem um número limitado de palavras e frases, mas produzem uma infinidade delas.
Simplificação de linguagem pelo adulto, ou “maternês”.
Acredita-se que os adultos simplificam as frases e usam entonação de voz diferente quando falam com crianças.
Pesquisas provaram que crianças que não têm contato com o “maternês” apresentam desenvolvimento semelhante às que crescem em ambiente onde os adultos usam a linguagem. Isso demonstra que essa não é a forma pela qual aprendem a falar.
Correção dos adultos
Essa teoria propõe que as crianças aprendem a linguagem porque são corrigidas pelos adultos quando falam errado.
Desconsiderado quando se constatou que a forma que os pais corrigem as crianças prioriza o conteúdo do que dizem e não a gramática. Foi também comprovado que as crianças resistem às correções.
Inatista
Baseada nas ideias de Noam Chomsky[2] que defendem um conhecimento linguístico inato.
Essa teoria seria capaz de explicar a forma como as crianças são capazes de criar uma linguagem própria a partir da língua materna com a qual convivem.
Princípios e Parâmetros
Propõe a existência de um estado inicial, comum a todas as crianças. É a Gramática Universal (GU), constituída por dois tipos de princípios abstratos: os rígidos, que são invariáveis e os abertos, chamados de parâmetros. Os primeiros simulam as propriedades e as operações que estão presentes nas gramáticas de todas as línguas naturais, e os últimos, opções de escolha, cujo valor deve ser fixado para cada língua durante o processo de aquisição a partir da língua que serviu de input[3] para a criança.

A TPP fortalece a Teoria Inativa, pois constitui que uma boa parte da noção gramatical é inata e os princípios não são aprendidos e sim amadurecidos. Os parâmetros também já estão conjeturados, precisando apenas ser fixados a partir da experiência dos pequenos com os elementos linguísticos primários. Nessa teoria (TPP) é comprovado que, juntamente com a GU, há um programa maturacional que determina o que a criança fará em determinados períodos.

Quadro 2: Aquisição da linguagem pelas crianças
 Fonte: Grolla (2009)


De acordo com Grolla (2009, p. 16), a criança só precisa ser exposta a qualquer tipo de língua para aprendê-la. A autora dedica maior atenção a “teoria Inatista” e afirma ser possível que o indivíduo já nasça com vários aspectos das línguas humanas, geneticamente determinados. Por isso, não precisa que sejam ensinados. Ela explica:

O conhecimento linguístico inato com o qual as crianças nascem é chamado de “Dispositivo de Aquisição de Linguagem - DAL”, (em inglês, “Language Acquisition Device”, ou LAD). O DAL inclui princípios que são comuns a todas as línguas humanas. Tais princípios são chamados de Gramática Universal (GU). Em outras palavras, a GU é caracterizada como a soma dos princípios linguísticos geneticamente determinados, específicos à espécie humana e uniformes através da espécie. Uma vez que tais princípios são inatos, eles não têm que ser aprendidos. A GU se desenvolve na criança como um órgão biológico. (GROLLA, 2009, p. 22).

Independentemente das explicações, controvérsias e novos dados, intrínsecos as teorias científicas, é possível perceber no dia a dia várias maneiras de comunicação não verbal: uma piscadela; o sorriso e seus inúmeros significados; levantar a sobrancelha ou os ombros para demonstrar dúvida ou espanto; jogar beijo; levar o dedo indicador à boca para pedir silêncio, entre outros.

 Todos os gestos falam, e às vezes gritam, sem verbalizar. Basta ficar atento e manter a sensibilidade sensorial ativa para notar a diversidade do universo comunicacional ao redor. Nessa infinidade de línguas e linguagens o que se diz por meio das mãos é um capítulo à parte. Elas são tão eficazes no ato de comunicar que possuem uma língua e gramática própria: a Língua de Sinais (Libras), língua oficial dos surdos no Brasil.





[1] As teorias e conceitos são expostos por Elaine Grolla (2009) no artigo “Aquisição da Linguagem”.
[2] Professor no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos. As ideias sobre a teoria inatista são expostas no livro Aspects of the Theory of Syntax, de 1965.
[3] Língua que serviu de base, a língua materna.

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