sexta-feira, 14 de junho de 2013

SER BILINGUE É...

Imagem: http://filhos-bilingues.blogspot.com.br/p/escolas-secundarias-na-inglaterra.html

Ter uma língua materna e outra secundária é o conceito geral de bilinguismo. Os surdos bilíngues são aqueles que convivem com duas realidades comunicacionais e culturas diferentes. Quando nascem em família de ouvintes o primeiro contato é com cultura oralizada, aprende a ler lábios e passa a reconhecer as palavras. A essa condição Perlin (apud CUNHA 2007, p. 58) chama “identidade surda de transição”. Seria o indivíduo que, apesar de crescer com todos os conceitos ouvintistas[1], consegue achar o caminho rumo à identidade surda[2].

Algumas crianças surdas são mandadas para escolas de educação especial, como a APAE[3], que não é direcionada apenas a instrução dos surdos e sim, aos portadores de todos os tipos de necessidades especiais. Isso pode ser um grande erro. Um dos riscos, nesse caso, é desestabilizar o aspecto psicológico e a autoestima do surdo, mudando a imagem que ele tem de si próprio.

A criação dessas instituições se deu por motivos questionáveis, assim como sua função de origem. Foucault, citado por Souza em artigo para o site pepsic.com, em agosto de 1995, explica: 

O Estado - ao menos nas constituições - tomava para si o dever de "reabilitar" o "anormal" através de mecanismos institucionais que asseguravam sua reclusão e confinamento. Apareceram as prisões, os manicômios, as escolas especiais, os colégios internos, etc. Vemos surgir as primeiras escolas para surdos, os primeiros institutos para a educação dos cegos, a ortopedia dos defeitos físicos, o tratamento moral da loucura, uma prática pedagógica corretiva e adestradora, dirigida tanto aos seres humanos "normais" como àqueles ditos "anormais" (Foucault, apud SOUZA 1995).  
         
  Atualmente o Estado se empenha na luta para mudar essa imagem negativa. Basta visitar os sites das escolas especiais para notar o esforço em apresentar à sociedade uma imagem de caráter prático e confiável. Mas, por mais que esses conceitos tenham mudado e a pedagogia nessas escolas tomem novos rumos, ainda há uma lacuna no ensino bilinguista.

Em outros casos, os surdos dividem a mesma sala de aula com estudantes e professores ouvintes, como já foi mostrado. Em ambos o ensino não se mostra adequado, pois, não se adquirem, nessas instituições, as duas línguas. O que representa grande prejuízo aos surdos e ouvintes, pois, o conceito do bilinguismo é justamente de colocar o surdo em contato com as duas línguas, principalmente a língua de sinais, o mais cedo possível. Assim, ele poderá aplicar seus conhecimentos de LS na língua Portuguesa e aprendê-la com mais facilidade. A aquisição da LS como primeira língua e a língua oral como segunda, possibilita ao surdo vivenciar uma identidade bicultural.




[2] Surdos que adotam as formas visuais de experienciar o mundo, nas suas diversas manifestações. O trocar dessas experiências é uma característica importante na construção dessa identidade (valoriza-se o momento de encontro entre os surdos). (PERLIN, apud CUNHA 2007, p. 58)

[3]  Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais.

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