Ter uma língua
materna e outra secundária é o conceito geral de bilinguismo. Os surdos
bilíngues são aqueles que convivem com duas realidades comunicacionais e
culturas diferentes. Quando nascem em família de ouvintes o primeiro contato é
com cultura oralizada, aprende a ler lábios e passa a reconhecer as palavras. A
essa condição Perlin (apud CUNHA 2007, p. 58) chama “identidade surda de
transição”. Seria o indivíduo que, apesar de crescer com todos os conceitos
ouvintistas[1],
consegue achar o caminho rumo à identidade surda[2].
Algumas crianças surdas são mandadas
para escolas de educação especial, como a APAE[3],
que não é direcionada apenas a instrução dos surdos e sim, aos portadores de
todos os tipos de necessidades especiais. Isso pode ser um grande erro. Um dos
riscos, nesse caso, é desestabilizar o aspecto psicológico e a autoestima do
surdo, mudando a imagem que ele tem de si próprio.
A criação dessas instituições se deu
por motivos questionáveis, assim como sua função de origem. Foucault, citado
por Souza em artigo para o site pepsic.com, em agosto de 1995, explica:
O Estado -
ao menos nas constituições - tomava para si o dever de "reabilitar" o
"anormal" através de mecanismos institucionais que asseguravam sua
reclusão e confinamento. Apareceram as prisões, os manicômios, as escolas
especiais, os colégios internos, etc. Vemos surgir as primeiras escolas para
surdos, os primeiros institutos para a educação dos cegos, a ortopedia dos
defeitos físicos, o tratamento moral da loucura, uma prática pedagógica
corretiva e adestradora, dirigida tanto aos seres humanos "normais"
como àqueles ditos "anormais" (Foucault, apud SOUZA 1995).
Atualmente o Estado se empenha na
luta para mudar essa imagem negativa. Basta visitar os sites das escolas
especiais para notar o esforço em apresentar à sociedade uma imagem de caráter
prático e confiável. Mas, por mais que esses conceitos tenham mudado e a
pedagogia nessas escolas tomem novos rumos, ainda há uma lacuna no ensino
bilinguista.
Em outros casos, os surdos dividem a mesma
sala de aula com estudantes e professores ouvintes, como já foi mostrado. Em
ambos o ensino não se mostra adequado, pois, não se adquirem, nessas
instituições, as duas línguas. O que representa grande prejuízo aos surdos e
ouvintes, pois, o conceito do bilinguismo é justamente de colocar o surdo em
contato com as duas línguas, principalmente a língua de sinais, o mais cedo
possível. Assim, ele poderá aplicar seus conhecimentos de LS na língua
Portuguesa e aprendê-la com mais facilidade. A aquisição da LS como primeira
língua e a língua oral como segunda, possibilita ao surdo vivenciar uma
identidade bicultural.
[2] Surdos que adotam as
formas visuais de experienciar o mundo, nas suas diversas manifestações. O
trocar dessas experiências é uma característica importante na construção dessa
identidade (valoriza-se o momento de encontro entre os surdos). (PERLIN, apud
CUNHA 2007, p. 58)
[3] Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais.

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