quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Tranquilidade que o dinheiro não compra



Gastos com médicos, hospitais e despesas domésticas tornavam-se mais altos a cada dia sendo necessários muitos cruzeiros para manter o padrão de conforto e os novos hábitos da família na cidade. Landica e Tiãozinho se esforçaram ao máximo em busca do melhor para seus filhos, porém ainda restavam resquícios da vida dura e regrada do campo.

Apesar de os anos 1980 terem sido muito prósperos para os negócios, Tiãozinho não dava aos filhos os mesmos luxos que o seu primo e sócio, Felisbino, proporcionava aos dele. Dr. Bininho, como era chamado pelos amigos, familiares e pacientes, era ainda mais abastado do que Tiãozinho, tinha fazendas e imóveis que lhe garantiam uma vida bastante confortável. Porém, poderia sustentar a família somente com os ganhos obtidos como clínico geral no Hospital de Lagoa Formosa que, aliás, contava apenas com dois médicos.

Márcio Sebastião, filho de Tiãozinho, era amigo de Márcio Túlio, filho de Bininho, brincavam juntos quase todos os dias. Mas, era sempre Márcio Sebastião que fugia para a casa de Márcio Túlio, pois o amigo tinha todos os brinquedos com os quais ele sonhava. A loja de seu pai era a única da cidade a vender os produtos da Estrela, a mais famosa fábrica de brinquedos da época, mas Márcio tinha que fugir de casa, arriscando levar uma surra, para ter acesso a eles. Já não tinha coragem de pedir os jogos, carrinhos e outros brinquedos para sua mãe, pois a resposta era sempre a mesma:
            - Você não precisa disso, é muito caro. – E Márcio ficava com uma pergunta na cabeça que nunca tinha coragem de fazer:
            - Como caro, meu pai não é o dono? – Mas era sempre da mesma maneira que a mãe dava fim às lamentações do garoto:
            - Eles precisam ser vendidos para dar lucro. – E fim de conversa.

 NAQUELA ÉPOCA O PAÍS PASSAVA POR UM PERÍODO DE RECESSÃO com o governo do general João Batista Figueiredo, mas, de certa forma a ditadura chegava ao fim, e isso era um ponto positivo. Para Tiãozinho, aquela foi uma ocasião particularmente produtiva. A loja da família, denominada Casa Confiança, era uma das maiores da cidade e a Funerária Confiança não tinha concorrência. A loja mortuária mais próxima ficava em Patos de Minas, ha mais ou menos 30 km dali.

Landica procurava manter-se sempre informada dos acontecimentos. Sabia das mudanças que chegavam com a modernidade e dos momentos difíceis nas capitais com as greves dos operários e o crescimento acelerado da população. As coisas se transformavam muito rápido e às vezes ela se assustava. Nunca poderia imaginar, por exemplo, que um dos chefes de sindicato, considerado um anarquista arruaceiro pela sociedade conservadora, se tornaria, num futuro não muito distante, o presidente do Brasil.

Numa daquelas manhãs ensolaradas de abril, Landica acordou mais cedo no intuito de preparar um bolo de aniversário para a filha Marlúcia, que completava 17 anos, e ligou o rádio para se distrair. Enquanto lidava com o trabalho na cozinha costumava ouvir o aparelho para não se sentir só. Naquele dia, uma notícia sobre a greve dos metalúrgicos em São Bernardo do Campo lhe chamou a atenção: os piquetes dos operários estavam ficando cada vez mais frequentes e violentos, principalmente em capitais como São Paulo. Ficava preocupada com esse tipo de coisa, contudo, tinha consciência de que no interior dificilmente aconteceria uma paralisação.

 As coisas demoravam a chegar até lá. Sabia que isso era um ponto negativo. Quando pensava nas inúmeras viagens que fazia até as capitais em busca de tratamento para a filha, ficava triste, mas, em alguns aspectos aquela lentidão, própria do interior, podia ser muito boa. Pelo menos a violência também havia se esquecido de chegar a Lagoa Formosa. Já em São Bernardo do Campo, no dia 19 de abril de 1980, a diretoria do sindicato, que tinha Luís Inácio Lula da Silva como presidente foi cassada e presa.



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