Com a demanda de
oralizar o estudante surdo a qualquer preço, criou-se o que os cientistas
chamam de “medicalização da surdez”. Acompanhando essa tendência e usando como
justificativa uma falsa inclusão surgiu, por meio do médico holandês, Johann K.
Amman (1669-1724), entre as técnicas que ele já utilizava para oralizar
crianças surdas, um procedimento diferente. Visando interesses religiosos, Amman
tinha por objetivo inserir na educação para surdos a articulação de palavras
por meio da leitura labial.
Para tanto, o clínico desenvolveu a técnica do
espelho. Funcionava da seguinte forma: os surdos reproduziam, mecanicamente, os
movimentos da língua falada na pronúncia das palavras enquanto observavam sua
imagem refletida no espelho. “Embasados
nos ideais da ciência mecanicista, que aventava a cura audiológica, inicia-se,
com Amman, a cura da fala ou [...] ‘a pedagogia corretiva’”. (SILVA, 2006 p.
31).
O que se percebe até então é um
vasto histórico de supressão da língua mãe (Libras) e imposição arbitrária da
linguagem oral aos surdos. Talvez seja esse o motivo pelo qual a comunicação
entre surdos e ouvintes seja ainda uma via de mão única. O conceito de que não
é preciso aprender a língua deles pode ser observado no interior das salas de
aulas, nas escolas de ensino regular públicas, que acolhem estudantes ouvintes
e surdos.
O professor ouvinte, geralmente, não
sabe Libras e prioriza a aprendizagem dos estudantes ouvintes por desconhecerem
as formas de interagir com os surdos. As condições oferecidas a esses alunos
são desiguais e inferiores em relação às disponibilizadas aos ouvintes. Renata
Freitas, professora substituta na escola pública Deiró Eunápio Borges, em Patos de Minas, 2010, descreve um triste episódio
com uma das alunas:
Sou apaixonada pela educação e sempre me preocupei
com alunos que tenham dificuldade de aprendizagem. Um dia me deparei com uma
aluna surda e consegui me comunicar bem com ela, porque já fiz libras,
anteriormente. Mas ela era completamente excluída pelos outros professores. Estava sem intérprete. Era uma coleguinha, que sentava ao seu lado, quem a
ajudava nas atividades de sala. Elas estavam na 5ª série, ou melhor, 6º ano
agora né? Mudou a nomenclatura. Era sua única amiga. Elas uniam as carteiras e a amiga fazia o papel de
intérprete. Quando se comunicou comigo pela primeira vez foi através da menina,
que falou: - professora, a Jéssica quer ir ao banheiro.
Aí eu comecei a falar com ela em Libras e Jéssica ficou muito surpresa,
perguntou onde eu tinha aprendido e comentou que nenhum professor falava com
ela.
O surdo, quando em sala de aula, não
têm suas necessidades observadas ou supridas. Dessa forma, fica impossibilitado
de desenvolver todo o seu potencial. Enfim, o fato é que “os conhecimentos e
informações trabalhados nas escolas são vinculados exclusivamente à língua portuguesa.”
(MACHADO, 2006 p. 49). Sobre isso Silva (2008) diz:
As
representações do ser surdo, em um universo essencialmente regulado pelo som,
ouvir e falar, traduzidas na prática pedagógica pelo ler e escrever tornaram-se
tão essencializadas no espaço escolar que qualquer outra forma de ensino não
centrado na Língua Portuguesa provoca estranheza e sofre profundas restrições,
se não
impedimentos
legais no processo de implantação. (SILVA, 2008, p. 82)
Lajonquière (apud SOUZA, agosto de
1995) confirma o que vários pesquisadores apontam quando esclarece que já não é
mais o aluno que a escola recebe e sim o “deficiente”. Ele afirma que ficava a
cargo da “submissão às práticas
‘ortopédicas’ de reabilitação, a busca do resgate de uma função que já deveria
ser operante”. Vistos por essa ótica, sucumbindo aos
empecilhos impostos no caminho da alfabetização e vida escolar, os surdos
acabam desistindo de ir para a escola. Assim vão sendo esquecidos como
estudantes e, mais tarde, como profissionais.
Há um grave bloqueio comunicacional
que dificulta a inserção dos surdos nas universidades e cursos de capacitação:
a falta de intérpretes. Até mesmo na formação de futuros comunicadores, por
meio da habilitação em comunicação social, a escassez da matéria Libras na grade
é visível e preocupante. Quando há aulas dessa disciplina, são oferecidas em
caráter opcional e quase nunca reúnem quantidade suficiente de alunos
interessados. Enquanto isso, os profissionais da área saem das faculdades com
uma lacuna no ensino adquirido. Não estão amplamente aptos para a comunicação
não verbal. Não sabem comunicar com os surdos.
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