sexta-feira, 5 de julho de 2013

A face dura da rejeição


Imagem: http://guiadobebe.uol.com.br/sindrome-da-alienacao-parental/

Quem primeiro notou a mudança foi Marli. Ela ia levar e buscar o filho na escola todos os dias, porém, depois de um tempo, Júlio começou a se esconder da mãe. Só aparecendo depois que os colegas já tinham ido embora. Junto com os desaparecimentos do garoto começaram a sumir também os recados dos professores, marcando reunião de pais e mestres. Estava claro que ele atravessava uma crise de identidade e, por ainda estar em fase de formação de valores, não sabia como lidar com tal situação.
           
Müller de Quadros e Massutti explicam que o ponto de vista bilíngue de um Coda em escola de ouvintes é negligenciado. As características culturais, sociais e linguísticas, que deveriam ser subsídios importantes para sua melhor interação escolar são neutralizadas. A escola recebe essa criança ouvinte, filha de pais surdos, e estabelece um bloqueio entre elas e os pais. No interior dessas escolas, os pais viram “figuras alienígenas”, não são orientados em relação aos seus filhos.
             
A maioria das instituições de ensino fundamental e médio não está preparada nem para compreender a cultura surda e tampouco a língua de sinais. Tal fato não é problema detectado somente nas escolas públicas, também os educandários particulares ignoram essa realidade. “Isso cria uma cisão entre o mundo escolar e o universo íntimo, espaços que concorrem de maneira distinta na forma de colocar relevância aos assuntos e construir um olhar para a realidade.” (MÜLLER de QUADROS; MASSUTTI, 2007, p. 257). E denunciam:


[...] A escola desconhece os surdos e sua língua. Então, quando esta criança precisa ir à escola, ela se sente fora de seu mundo, ela não tem uma relação de pertencimento com aquele espaço. Para a escola, os pais surdos são vistos como alienígenas. A escola não consegue atribuir a esses pais o status de pais, por que eles são surdos. Eles não são vistos como pais, mas vistos como surdos. A eles não é outorgado o direito de serem pais. A escola repassa à própria criança a responsabilidade dos pais, porque ela ouve. (MÜLLER de QUADROS; MASSUTTI, 2007, p. 257).
           
Na maioria das vezes o que acontece é um estranhamento entre a instituição de ensino e os pais surdos. Por ser um espaço composto por ouvintes e para ouvintes, não há nenhum esforço para que haja uma interação entre os professores e os pais de codas. Isso estabelece uma fronteira comunicacional e também desconforto para o aluno coda, que percebe e vivencia essa animosidade entre as culturas.
             
Nem sempre resistem às pressões ouvintistas e acabam se equivocando em priorizar a língua falada, ou mesmo rejeitar a Libras. Júlio, com o tempo, também começou a trocar os passeios com os pais nas associações de surdos pela casa dos avós ou tios. Ele não queria mais participar das festas e manifestações culturais dos surdos. De alguma forma, rejeitava a ideia de pertencer a uma cultura que é estranha para a maioria e excluída pela sociedade. As autoras MÜLLER de Quadros e Massutti (2007) esclarecem:


Paradoxalmente, os codas também são vítimas do próprio preconceito que cada língua porta. Muitas vezes, esse sujeito não compartilha de uma série de estereótipos disseminados nos distintos sistemas culturais, justamente porque tem a percepção da diferença em sua vivência cotidiana. Entretanto, esse sujeito não consegue apagar a leitura cultural que faz de si e dos outros, e é intensamente afetado por ela. Por haver internalizado os sistemas de representações linguísticos e culturais, esse sujeito reconhece os preconceitos que se incrustaram em ambas as línguas, em cada uma
a sua forma. (MÜLLER de QUADROS; MASSUTTI, 2007, p. 251).

            
Nesses momentos de dúvida e questionamento de valores o apoio dos membros ouvintes mais próximos é de extrema importância para conscientizar o coda do seu papel como filho de surdos, bilíngue. É preciso um trabalho conjunto entre família e escola a fim derrubar os muros impostos pela oralidade e valorizar a cultura e a língua dos surdos. Assim, seus filhos aprendem a ter orgulho da condição de ponte entre essas duas realidades.

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