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Quem primeiro notou a mudança foi Marli. Ela ia
levar e buscar o filho na escola todos os dias, porém, depois de um tempo,
Júlio começou a se esconder da mãe. Só aparecendo depois que os colegas já
tinham ido embora. Junto com os desaparecimentos do garoto começaram a sumir
também os recados dos professores, marcando reunião de pais e mestres. Estava
claro que ele atravessava uma crise de identidade e, por ainda estar em fase de
formação de valores, não sabia como lidar com tal situação.
Müller de Quadros e Massutti
explicam que o ponto de vista bilíngue de um Coda em escola de ouvintes é
negligenciado. As características culturais, sociais e linguísticas, que
deveriam ser subsídios importantes para sua melhor interação escolar são
neutralizadas. A escola recebe essa criança ouvinte, filha de pais surdos, e
estabelece um bloqueio entre elas e os pais. No interior dessas escolas, os
pais viram “figuras alienígenas”, não são orientados em relação aos seus
filhos.
A maioria das instituições de ensino fundamental
e médio não está preparada nem para compreender a cultura surda e tampouco a
língua de sinais. Tal fato não é problema detectado somente nas escolas
públicas, também os educandários particulares ignoram essa realidade. “Isso
cria uma cisão entre o mundo escolar e o universo íntimo, espaços que concorrem
de maneira distinta na forma de colocar relevância aos assuntos e construir um
olhar para a realidade.” (MÜLLER de QUADROS; MASSUTTI, 2007, p. 257). E denunciam:
[...]
A escola desconhece os surdos e sua língua. Então, quando esta criança precisa
ir à escola, ela se sente fora de seu mundo, ela não tem uma relação de
pertencimento com aquele espaço. Para a escola, os pais surdos são vistos como
alienígenas. A escola não consegue atribuir a esses pais o status de
pais, por que eles são surdos. Eles não são vistos como pais, mas vistos como
surdos. A eles não é outorgado o direito de serem pais. A escola repassa à
própria criança a responsabilidade dos pais, porque ela ouve. (MÜLLER de
QUADROS; MASSUTTI, 2007, p. 257).
Na maioria das vezes
o que acontece é um estranhamento entre a instituição de ensino e os pais surdos.
Por ser um espaço composto por ouvintes e para ouvintes, não há nenhum esforço
para que haja uma interação entre os professores e os pais de codas. Isso
estabelece uma fronteira comunicacional e também desconforto para o aluno coda,
que percebe e vivencia essa animosidade entre as culturas.
Nem sempre resistem às pressões ouvintistas e
acabam se equivocando em priorizar a língua falada, ou mesmo rejeitar a Libras.
Júlio, com o tempo, também começou a trocar os passeios com os pais nas
associações de surdos pela casa dos avós ou tios. Ele não queria mais
participar das festas e manifestações culturais dos surdos. De alguma forma,
rejeitava a ideia de pertencer a uma cultura que é estranha para a maioria e
excluída pela sociedade. As autoras MÜLLER
de Quadros
e Massutti (2007) esclarecem:
Paradoxalmente,
os codas também são vítimas do próprio preconceito que cada língua porta.
Muitas vezes, esse sujeito não compartilha de uma série de estereótipos
disseminados nos distintos sistemas culturais, justamente porque tem a
percepção da diferença em sua vivência cotidiana. Entretanto, esse sujeito não consegue
apagar a leitura cultural que faz de si e dos outros, e é intensamente afetado
por ela. Por haver internalizado os sistemas de representações linguísticos e
culturais, esse sujeito reconhece os preconceitos que se incrustaram em ambas
as línguas, em cada uma
a sua
forma. (MÜLLER de QUADROS; MASSUTTI, 2007, p. 251).
Nesses momentos de
dúvida e questionamento de valores o apoio dos membros ouvintes mais próximos é
de extrema importância para conscientizar o coda do seu papel como filho de
surdos, bilíngue. É preciso um trabalho conjunto entre família e escola a fim derrubar
os muros impostos pela oralidade e valorizar a cultura e a língua dos surdos.
Assim, seus filhos aprendem a ter orgulho da condição de ponte entre essas duas
realidades.

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