Imagem: http://www.versodeamor.com.br/quem-diz-que-amor-e-falso-ou-enganoso
Iolanda
Xavier da Rosa Fonseca nasceu e cresceu numa pequena fazenda no interior de
Minas Gerais, em 1944. E como toda mocinha de interior da época, foi criada
para casar e constituir família. Então, entre os afazeres próprios da roça –
tirar leite, fazer queijo, tratar das galinhas, porcos e gado, plantar e
colher... – Landica, como é chamada pelos onze irmãos, também aprendia prendas domésticas como bordar, costurar,
cozinhar, lavar e passar, entre outras.
Dedicada e muito bonita, apesar da
vida dura, não demorou a conquistar um pretendente. Sebastião da Fonseca, rapaz
magro de cabelos negros e muito lisos, pele bronzeada, por causa do trabalho
árduo debaixo do sol, e rústico, como quem fora criado junto dos bichos, numa
família com maioria de homens. Ele era um dos doze filhos do fazendeiro
vizinho, que ao contrário dos pais da moça, possuía muitas terras por aquelas
bandas. No princípio, Tiãozinho, como era chamado pelos mais próximos, ia
cortejar a irmã mais velha de Landica, uma morena de nome Norida. Mas, em pouco
tempo se encantou pela menina tímida de cabelos claros - sempre amarrados e
escondidos debaixo de um lenço, para protegê-los do sol e evitar que caíssem
sobre os olhos - e pele muito delicada delineando um corpo cheio de curvas que,
de vez em quando, passeava pela sala onde Tiãozinho cortejava Norida. Ele não teve
como ignorá-la, logo estava preso pelos encantos da moça, seu olhar a seguia
por toda a parte. Então, completamente fascinado, desistiu da irmã e resolveu
firmar namoro com Landica, com planos para casamento o mais rápido possível.
Apesar de ter pena de Norida, ela também
se apaixonou pelo rapaz, que era dono de um detalhe bastante peculiar:
Tiãozinho só enxergava com um dos olhos, o outro era furado. Landica já o tinha
visto na escola rural, onde estudavam, e sempre ficou imaginando que tipo de violência
ou acidente teria causado aquilo. Tinha ouvido um comentário ou outro, mas nada
que Le mesmo tivesse relatado. Era extremamente reprovável que uma moça “de
família” ficasse de conversinha com os rapazes e, além do mais, as experiências
de convívio entre vizinhos com Tiãozinho não foram nada agradáveis.
Quando ela e os irmãos faziam o
caminho de volta, da escola para casa, precisavam caminhar três vezes mais do que
o normal contornando a fazenda do pai dele, mesmo sabendo que se passassem
dentro da propriedade iriam poupar muito tempo e cansaço. Mas não valia a pena,
pois, quando resolviam cortar caminho pelo pasto, o rapaz os ameaçava com uma
espingarda:
- Ahhh cambada, como se atrevem a
fazer trilhas no pasto? Assim acabam com o capim! Da próxima vez vou acertá-los
com uns tiros de chumbinho!
Landica ficava intimidada por
aquelas palavras e o comportamento agressivo dele, por isso nunca teve a
oportunidade, a curiosidade e nem coragem de especular mais sobre aquele colega
tão arredio. Mas agora o moço se tornara seu namorado e a situação era
diferente. Um dia, apesar da timidez, resolveu conversar com Tiãozinho por mais
tempo e ficou sabendo da história toda.
Ele disse que sofrera um acidente
aos três anos de idade, provocado pelo irmão, Tonico, que trabalhava com um
facão no feitio de um canzil[1]·.
O pequeno Tiãozinho, que passeava pelo quintal, curioso como toda criança,
aproximou-se para ver de perto sua lida. Mas Tonico estava distraído e não
notou a presença do garoto. A mãe deles percebeu o que ia acontecer e correu em
direção aos dois, desesperada, a fim de tentar impedir a fatalidade. Mas, ela
estava muito longe. Tonico, ao ajeitar o facão para impulsionar o golpe que
daria na madeira, acertou o olho do irmão mais novo, causando uma enfermidade
que deixaria marcas permanentes. A família levou o menino a vários
médicos e descobriu que nada podia ser feito. No fim das contas ele ficaria sem
um dos olhos, para sempre.
Landica não achava Tiãozinho menos
encantador por causa do acidente, muito pelo contrário. Ele era o rapaz mais
charmoso que conhecera na vida e, apesar da pouca, ou nenhuma, experiência em relação
aos rapazes, ela tinha certeza que jamais encontraria outro que lhe agradasse
tanto. Ele também demonstrava enorme interesse em relação a ela, não tinham
motivos para esperar.
Assim, Tiãozinho formalizou o pedido
ao pai de Landica, que concedeu a mão da jovem de imediato. Talvez por se
tratar de rapaz com boas referências, membro de família abastada e com
intenções sinceras. Mas, também porque as moças daquela época eram mesmo
criadas para o casamento e, quanto antes se cumprisse esse objetivo, melhor.
Casaram-se numa tarde quente. Era um
sábado, no mês de setembro de 1961, ela com 17 anos de idade e ele com 19.
Sebastião queria que se casassem no dia de seu aniversário, mas como caiu num
domingo e não se fazia casamentos nesses dias, decidiram realizar a cerimônia
um dia antes.
Passaram a noite de núpcias na casa
dos pais de Landica. Ela se sentia extremamente constrangida por começar uma
vida conjugal ali e a situação piorou ainda mais quando descobriu que uma das
convidadas, prima de Tiãozinho, havia mandado alguém espionar o quarto onde o
casal iria ficar. O pedido foi feito poucas horas antes da cerimônia. Ao ser
interpelada por Landica, a garota que fuçava entre os lençóis, disse que Maura,
a prima do noivo, havia mandado procurar por uma toalhinha higiênica, debaixo
do travesseiro.
Naquele momento, a noiva não soube
muito bem o que pensar, pois não entendeu o que Maura pretendia com tal
constatação. Mas depois, quando descobriu a serventia da tal toalhinha, se
sentiu profundamente invadida e desrespeitada.

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