sexta-feira, 26 de julho de 2013

Um vislumbre da felicidade


Imagem: http://www.versodeamor.com.br/quem-diz-que-amor-e-falso-ou-enganoso


Iolanda Xavier da Rosa Fonseca nasceu e cresceu numa pequena fazenda no interior de Minas Gerais, em 1944. E como toda mocinha de interior da época, foi criada para casar e constituir família. Então, entre os afazeres próprios da roça – tirar leite, fazer queijo, tratar das galinhas, porcos e gado, plantar e colher... – Landica, como é chamada pelos onze irmãos, também aprendia  prendas domésticas como bordar, costurar, cozinhar, lavar e passar, entre outras. 

Dedicada e muito bonita, apesar da vida dura, não demorou a conquistar um pretendente. Sebastião da Fonseca, rapaz magro de cabelos negros e muito lisos, pele bronzeada, por causa do trabalho árduo debaixo do sol, e rústico, como quem fora criado junto dos bichos, numa família com maioria de homens. Ele era um dos doze filhos do fazendeiro vizinho, que ao contrário dos pais da moça, possuía muitas terras por aquelas bandas. No princípio, Tiãozinho, como era chamado pelos mais próximos, ia cortejar a irmã mais velha de Landica, uma morena de nome Norida. Mas, em pouco tempo se encantou pela menina tímida de cabelos claros - sempre amarrados e escondidos debaixo de um lenço, para protegê-los do sol e evitar que caíssem sobre os olhos - e pele muito delicada delineando um corpo cheio de curvas que, de vez em quando, passeava pela sala onde Tiãozinho cortejava Norida. Ele não teve como ignorá-la, logo estava preso pelos encantos da moça, seu olhar a seguia por toda a parte. Então, completamente fascinado, desistiu da irmã e resolveu firmar namoro com Landica, com planos para casamento o mais rápido possível.
            
Apesar de ter pena de Norida, ela também se apaixonou pelo rapaz, que era dono de um detalhe bastante peculiar: Tiãozinho só enxergava com um dos olhos, o outro era furado. Landica já o tinha visto na escola rural, onde estudavam, e sempre ficou imaginando que tipo de violência ou acidente teria causado aquilo. Tinha ouvido um comentário ou outro, mas nada que Le mesmo tivesse relatado. Era extremamente reprovável que uma moça “de família” ficasse de conversinha com os rapazes e, além do mais, as experiências de convívio entre vizinhos com Tiãozinho não foram nada agradáveis.             

Quando ela e os irmãos faziam o caminho de volta, da escola para casa, precisavam caminhar três vezes mais do que o normal contornando a fazenda do pai dele, mesmo sabendo que se passassem dentro da propriedade iriam poupar muito tempo e cansaço. Mas não valia a pena, pois, quando resolviam cortar caminho pelo pasto, o rapaz os ameaçava com uma espingarda:
            - Ahhh cambada, como se atrevem a fazer trilhas no pasto? Assim acabam com o capim! Da próxima vez vou acertá-los com uns tiros de chumbinho!
            
Landica ficava intimidada por aquelas palavras e o comportamento agressivo dele, por isso nunca teve a oportunidade, a curiosidade e nem coragem de especular mais sobre aquele colega tão arredio. Mas agora o moço se tornara seu namorado e a situação era diferente. Um dia, apesar da timidez, resolveu conversar com Tiãozinho por mais tempo e ficou sabendo da história toda.
            
Ele disse que sofrera um acidente aos três anos de idade, provocado pelo irmão, Tonico, que trabalhava com um facão no feitio de um canzil[1]·. O pequeno Tiãozinho, que passeava pelo quintal, curioso como toda criança, aproximou-se para ver de perto sua lida. Mas Tonico estava distraído e não notou a presença do garoto. A mãe deles percebeu o que ia acontecer e correu em direção aos dois, desesperada, a fim de tentar impedir a fatalidade. Mas, ela estava muito longe. Tonico, ao ajeitar o facão para impulsionar o golpe que daria na madeira, acertou o olho do irmão mais novo, causando uma enfermidade que deixaria marcas permanentes.  A família levou o menino a vários médicos e descobriu que nada podia ser feito. No fim das contas ele ficaria sem um dos olhos, para sempre.
           
Landica não achava Tiãozinho menos encantador por causa do acidente, muito pelo contrário. Ele era o rapaz mais charmoso que conhecera na vida e, apesar da pouca, ou nenhuma, experiência em relação aos rapazes, ela tinha certeza que jamais encontraria outro que lhe agradasse tanto. Ele também demonstrava enorme interesse em relação a ela, não tinham motivos para esperar.
           
Assim, Tiãozinho formalizou o pedido ao pai de Landica, que concedeu a mão da jovem de imediato. Talvez por se tratar de rapaz com boas referências, membro de família abastada e com intenções sinceras. Mas, também porque as moças daquela época eram mesmo criadas para o casamento e, quanto antes se cumprisse esse objetivo, melhor.
           
Casaram-se numa tarde quente. Era um sábado, no mês de setembro de 1961, ela com 17 anos de idade e ele com 19. Sebastião queria que se casassem no dia de seu aniversário, mas como caiu num domingo e não se fazia casamentos nesses dias, decidiram realizar a cerimônia um dia antes.
            
Passaram a noite de núpcias na casa dos pais de Landica. Ela se sentia extremamente constrangida por começar uma vida conjugal ali e a situação piorou ainda mais quando descobriu que uma das convidadas, prima de Tiãozinho, havia mandado alguém espionar o quarto onde o casal iria ficar. O pedido foi feito poucas horas antes da cerimônia. Ao ser interpelada por Landica, a garota que fuçava entre os lençóis, disse que Maura, a prima do noivo, havia mandado procurar por uma toalhinha higiênica, debaixo do travesseiro.
           
Naquele momento, a noiva não soube muito bem o que pensar, pois não entendeu o que Maura pretendia com tal constatação. Mas depois, quando descobriu a serventia da tal toalhinha, se sentiu profundamente invadida e desrespeitada.



[1] Peça que se usa para cangar, ou prender o boi.

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