A
vida seguia seu curso quando uma velha novidade resurgiu. Marlúcia mal
completara três aninhos e ganhou uma irmãzinha, Marlene. Como da última vez, e
em todas as outras gestações, aqueles nove meses pareceram intermináveis. Foi
preciso passar pelas internações e tomar os vários remédios que lhe eram
receitados. De novo.
Landica acabaria descobrindo que nem
tudo seria como antes. Após o nascimento da garota, ela desfrutou de apenas sete
meses ao lado da filha, em casa. Quando seguia com sua vida, cuidando das duas
meninas, percebeu algo errado com Marlene. Ela começou a dar sinais de que não
era saudável como Marlúcia, apresentou complicações renais que a levaram ao
leito hospitalar. Dessa vez tiveram que procurar socorro médico ainda mais
longe, foi no Hospital São Vicente, em Belo Horizonte, que a garota permaneceu
por treze dias, até ser encaminhada para o hospital Nossa Senhora de Fátima, em
Patos de Minas. Lá, Marlene foi atendida pelo doutor Paulo Amorim, pediatra que
aplicou – lhe os remédios e viajou em seguida, deixando a pequena aos cuidados
de outro médico (Landica não se lembra do nome) que sequer a examinou.
Aquela foi uma noite de pânico e
desespero, Marlene piorava a cada minuto e Landica não tinha a quem recorrer.
Quando Dr. Paulo chegou, um dia depois, ela já estava muito fraca, tinha
contraído pneumonia e não aguentaria por muito tempo. Cumpriu-se o previsto.
Marlene faleceu algumas horas mais tarde, naquele dia cinzento, numa cama de
hospital em Patos de Minas. Deixou a família profundamente abalada e a mãe aos
pedaços. Landica ainda sente ressentimento pelo descaso do médico.
Mulher que nasce na roça é criada
para ser forte. Landica mal teve tempo de chorar a morte da filha, levantou os
olhos, suprimiu a dor e se reergueu. Os afazeres da fazenda se acumulavam por
causa do tempo que ela esteve ausente. Então, sem pensar duas vezes, juntou
todas as suas forças e voltou ao trabalho. A vida não podia parar e, além do mais,
tinha outra filhinha e um marido que precisavam de seus cuidados em casa. Mas,
antes de passar o susto, se descobriu grávida pela terceira vez. Uma tristeza
inexplicável tomava conta de seu coração. Aquela gravidez suscitava suas
lembranças mais dolorosas e era impossível lidar com aquilo sem dor. O medo e a
insegurança invadiram seus pensamentos bloqueando qualquer sentimento de
satisfação pela maternidade.
O destino não dá tréguas e o tempo
não perdoa. Landica tentava visualizar coisas positivas e se alegrar com a
gravidez, mas, ainda podia sentir os enjoos da última gestação, as dores que
sempre tinha nos partos e a fraqueza... Aquele não seria o melhor momento, com
certeza. Precisava dar atenção à Marlúcia, que ainda era muito nova, além do
que, o marido não ajudaria muito com os cuidados que um bebê precisa, pois quase
nunca estava em casa. Sem falar de todo aquele interminável serviço da fazenda,
o armazém e a casa.
Não adiantava perder tempo com
lamúrias já que a barriga crescia a cada mês. Ela já não tinha mais tempo para
o comércio e os afazeres domésticos, mas por outro lado adquirira, a pulso,
outros conhecimentos: reconhecia os efeitos colaterais de vários remédios, já
sabia os alimentos que davam menos enjoo e a quem recorrer nos momentos de
aperto. Havia feito amizade com muitos médicos e enfermeiras, personagens
principais da sua rotina que desde muito tempo incluía os hospitais.
Em alguns momentos Landica se
questionava sobre o porquê de ela não evitar a gravidez e sentia realmente um
desejo enorme de planejar o crescimento de sua família de acordo com o seu
melhor momento. Sabia das pílulas, mas elas ainda lhe causavam certa
estranheza. Não era comum o uso de anticoncepcionais entre as donas de casa da
época, principalmente as do interior, geralmente muito religiosas, ou “tementes
a Deus”, como diziam. A Igreja Católica sempre censurou o uso de métodos não
naturais de contraceptivos. Sendo criada nos preceitos religiosos mais
fervorosos, não seria justamente ela a desobedecer às ordens da igreja. E isso
lhe trouxe um sofrimento imensurável.
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