segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Quando orar não é o bastante



Marilene nasceu no dia 10 de janeiro de 1967, muito saudável. A isso, Landica deu “Graças a Deus”. Ao contrário do que havia imaginado, cuidar das duas filhas não foi um trabalho tão difícil, pois elas se entendiam muito bem. Marlúcia adorava brincar com a irmãzinha. Mas era preciso que a mãe ficasse sempre atenta, já que a garota aproveitava as ocasiões em que Marilene era colocada na rede para balançá-la e, como fazia isso com muita força, por várias vezes a rede se virava e a pequena Marilene levava grandes tombos.

 Era 1969, Marlúcia tinha seis aninhos e Marilene ainda não tinha completado dois, mas foi nesse ano que nasceu Marli, uma garotinha miúda, frágil que dispensou cuidados médicos por apenas 21 dias. A partir do 22º dia passou a ter crises de choro intermináveis que, às vezes, duravam dia e noite deixando os pais aflitos, sem saber o que fazer. Eles desconfiavam que ela fosse acometida por fortes dores de ouvido. Então, os vizinhos mais prestativos - geralmente senhoras mais velhas -, com base nas receitas caseiras que herdaram de suas mães e avós, sempre indicavam algum chá de ervas ou outras misturas que prometiam amenizar o sofrimento da criança.

 Landica seguia todas as recomendações, chegou até mesmo a preparar uma combinação de alho frito com azeite de mamona para despejar, ainda morno, no ouvido da garotinha. Quem deu a receita garantiu que era “tiro e queda”, funcionava de verdade. Mas, infelizmente, foi só mais uma tentativa frustrada. As dores pioravam a cada dia e não eram apenas no ouvido, logo apareceram cólicas, vômitos e prisão de ventre. Eram torturantes as inúmeras visitas aos médicos, que pareciam tão perdidos quanto os pais. Um receitava antibiótico e algum tempo depois outro proibia, assim, a mãe ficava sempre sem saber se podia ou não fazer uso dos remédios.

 Ela continuava a ministrar os chás, pois, pelo menos nas ervas e na ajuda divina podia confiar. Tinha certeza de que se elas não fizessem bem, mal não fariam. Marli amargava uma experiência terrível, servindo de cobaia nos hospitais. Os pais sofriam muito com a falta de informações precisas e tratamento eficaz. Tudo parecia estar em fase de testes o tempo todo e, quase sempre, as reações eram muito desagradáveis e doloridas. Em casa, a pequena ficava até dez dias sem defecar. Isso se tornou um transtorno para a mãe que, desesperada, recorria novamente aos médicos, e esses, como de costume, nunca tinham a resposta nem a cura.

 O doutor “fulano” achava que era doença no sangue enquanto o doutor “sicrano” tinha uma opinião divergente. E assim, só restavam as evidências, que não ajudavam muito no diagnóstico.


 A barriga grande do neném, que se tornava cada vez maior e cheia de caroços; as fissuras anais, provocadas pela elevada quantidade de supositórios que se fazia necessária para esvaziar o intestino; e as manchas roxas deixadas pelas inúmeras agulhadas, as quais Marli era submetida para as aplicações de soro ou injeções e coleta de sangue. Todo esse tormento tornava-se parte da vida de Landica e também a razão de suas orações e promessas. O resultado era a falta de paciência e o coração cansado, partido por essa situação. Se tudo aquilo era um pesadelo, seu único desejo era acordar logo.

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