A curiosidade das pessoas. Sempre se mostravam muito interessados quando
descobriam que o casal tinha uma filha doente. Algumas visitinhas ela sabia que
eram apenas para ver Marli e constatar as limitações dela. Para a mãe, isso era
falta de respeito e compaixão pelo sofrimento da família. Então, ela se
mostrava mais nervosa a cada dia.
Quando Marli completou três anos
confirmou-se que ela tinha raquitismo do 3º grau, por falta de alimentação e
problemas renais graves. Landica acompanhou todos os exames e testes: o mais complexo
foi o que media a água ingerida pela menina e o xixi, toda manhã e noite
durante 15 dias para averiguar o funcionamento dos rins. O resultado foi
positivo também para problemas renais.
A pesquisa de todas as doenças durou
seis meses. Entre exames e tratamento foi se formulando uma lista de remédios
que fariam da casa de Landica algo semelhante a uma farmácia. Alguns deles
muito difíceis de conseguir na época, outros, complicado de se encontrar ainda
hoje: Cálcio Sandoz forte, Aderogil D 3 ampola,
fortificante, Solução Shoul e,
posteriormente descobriu-se uma mistura de ácido cítrico e citrato de sódio
dissolvidos em um litro d’ água para fortificar os ossos. Havia também uma
indicação para cirurgia de remoção das amígdalas, mas, como Marli estava muito
fraca e abaixo do peso (7.500kg aos três anos), acharam melhor protelar.
Foi nessa época que Marli ficou
internada em Belo Horizonte por seis meses. Apesar de todas as outras
dificuldades, Landica descreve esse momento como o mais triste. Ela se lembra das
palavras desestimulantes, proferidas por vários médicos que não davam
esperanças de vida para sua filha. Além de tudo, não era permitido que a
acompanhasse durante a internação. As visitas eram criteriosamente agendadas,
com hora para começar e para terminar, sem exceções. A capital fica há 380 km de Lagoa Formosa e uma das
dificuldades, para Landica, era hospedagem, além do tempo que ficava longe de
casa e das outras filhas.
No
hospital não aceitavam nenhum pertence de Marli, foi à custa de muita
insistência que Landica conseguiu fazer com que as enfermeiras ficassem com uma
das mamadeiras. Ela temia que, por estranhar as enfermeiras, a menina parasse
de tomar leite definitivamente. Já era muito difícil fazê-la ingerir uma pequena
quantidade por dia. Com a mamadeira, que já era familiar, talvez aceitasse ser
alimentada por outras pessoas. Tudo parecia uma dificuldade a mais, sua filha
naquele ambiente hospitalar, mais uma vez, impedida de aproveitar a infância
como as crianças da mesma idade, sem a proteção e o aconchego maternos. Era
mais do que uma mãe poderia suportar, por mais forte que fosse.
Chucas, chupetas e roupinhas de
criança ficavam espalhados pela casa e não deixavam que Landica esquecesse a
filhinha nem por um minuto. Marli estava desamparada e longe de todos que a
amavam. Às vezes, quando lhe era permitido uma visita, Landica encontrava um
dos médicos brincando de riscar reloginhos no bracinho magro de sua filha e se
sentia grata, esse era um dos breves momentos em que Marli podia ser uma
criança como qualquer outra. Para a mãe, aquele relógio desenhado a caneta
representava muito mais do que uma simples distração. Era um pouco de zelo e
carinho que um estranho oferecia a sua filha naquele ambiente impessoal e, às
vezes, hostil. Eram os sorrisos daquela criança que não iluminavam mais o seu
lar. Aquele reloginho marcava, segundo por segundo, todo o tempo que Landica permanecia
numa espécie de limbo, entre hospital e casa, impedida de estar ao lado da sua
caçula.

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