sexta-feira, 3 de outubro de 2014

As surpresas da vida I



Landica não podia imaginar que o pesadelo estava longe de terminar. Nos poucos intervalos em que podia levar a filha para casa, notou algo estranho com Marli, ela parecia não corresponder às reações de um bebê da mesma idade. A menina era distante, indiferente aos estímulos da mãe. Foi então que Landica, desconfiada, resolveu fazer um teste de comparação: colocou a pequena para brincar com uma priminha e, quando as duas engatinhavam de costas para ela, chamou pelo nome da filha:
            - Marli, ô Marli... Vem com a mamãe bebê – Nada.
Com lágrimas nos olhos, ainda tentou várias vezes. Marli tinha que olhar para trás, em algum momento ela o faria porque a mãe não iria desistir. Chamaria quantas vezes fosse preciso até a pequena entender que Marli era ela e corresponder ao chamado.

Mas, após muitas tentativas, apenas a sobrinha se virava atendendo ao chamado.  O que antes era uma desconfiança se configurou como certeza. Mas, apenas Landica aceitava a realidade. Tiãozinho dizia ser nada, estava tudo bem e a esposa tinha mania de complicar as coisas e ver doença em tudo. Talvez ele fizesse isso por achar que admitindo essa verdade, tornaria ainda mais dura a vida de sua filha. Afinal, ele sabia que uma surdez era sempre um grande desafio numa sociedade excludente como a nossa.

 Para Tiãozinho, o certo era que naquele momento fazia-se mais importante dar atenção a outros problemas mais urgentes, como manter a criança longe dos médicos, com o máximo de conforto e o mínimo de dor. Garantir qualidade de vida dentro de todas as limitações, que eram evidentes. E assegurar isso, naquela ocasião, já parecia quase impossível. Pra quê complicar?

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