Landica
não podia imaginar que o pesadelo estava longe de terminar. Nos poucos
intervalos em que podia levar a filha para casa, notou algo estranho com Marli,
ela parecia não corresponder às reações de um bebê da mesma idade. A menina era
distante, indiferente aos estímulos da mãe. Foi então que Landica, desconfiada,
resolveu fazer um teste de comparação: colocou a pequena para brincar com uma
priminha e, quando as duas engatinhavam de costas para ela, chamou pelo nome da
filha:
- Marli, ô Marli... Vem com a mamãe
bebê – Nada.
Com
lágrimas nos olhos, ainda tentou várias vezes. Marli tinha que olhar para trás,
em algum momento ela o faria porque a mãe não iria desistir. Chamaria quantas
vezes fosse preciso até a pequena entender que Marli era ela e corresponder ao
chamado.
Mas, após muitas tentativas, apenas
a sobrinha se virava atendendo ao chamado.
O que antes era uma desconfiança se configurou como certeza. Mas, apenas
Landica aceitava a realidade. Tiãozinho dizia ser nada, estava tudo bem e a
esposa tinha mania de complicar as coisas e ver doença em tudo. Talvez ele
fizesse isso por achar que admitindo essa verdade, tornaria ainda mais dura a vida
de sua filha. Afinal, ele sabia que uma surdez era sempre um grande desafio
numa sociedade excludente como a nossa.
Para Tiãozinho, o certo era que
naquele momento fazia-se mais importante dar atenção a outros problemas mais
urgentes, como manter a criança longe dos médicos, com o máximo de conforto e o
mínimo de dor. Garantir qualidade de vida dentro de todas as limitações, que
eram evidentes. E assegurar isso, naquela ocasião, já parecia quase impossível.
Pra quê complicar?

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