quarta-feira, 5 de novembro de 2014

O que é preciso saber



Os exames foram feitos em 1975 e, quando retornaram de São Paulo, estava confirmada a surdez de Marli. Mas a mãe não se lembra de terem especificado a causa.


Esclarecimentos dos exames feitos em São Paulo pelo Dr. Pedro Luiz.


Caro Nicodemos
A menor Marli Rosa Fonseca foi submetida a electrococleografia e não conseguimos obter qualquer resposta, quer com os cliques de ruído branco, quer com os cliques filtrados de 1,5 e 4 KHZ. Desta forma, ou ela não tem nenhuma audição de ambos os lados ou tem apenas um resíduo de sons muito graves que geralmente não são registrados.
Um abraço,
Pedro Luiz
7.8.75


As despesas com consultas e exames não eram baixas, sem contar os dispêndios com viagem, hospedagem e alimentação. Mas os pais estavam dispostos a tudo para ajudar Marli no que pudessem. Por isso nunca deixaram de seguir as recomendações médicas ou de fazer qualquer tipo de exame que fosse solicitado.   

Às vezes o cansaço era insuportável, pois, além de todas as horas na estrada, salas de espera de hospitais, exames intermináveis, questionamentos repetitivos, comidas nem sempre bem feitas ou quentes, ainda tinha o fato de que Marli não era filha única. Landica se preocupava com os filhos que ficavam em casa, sem os cuidados maternos. Certamente Marlúcia teve que amadurecer bem cedo para dar conta dos afazeres domésticos, estudos e cuidar dos irmãos mais novos na ausência da mãe. Mas ela ainda era uma criança e, às vezes agia como tal. Não era prudente jogar tantas responsabilidades sobre seus ombros. Tiãozinho contratava empregadas domésticas para ajudar, mas, como não tinha uma patroa presente, nem sempre elas faziam o serviço como deviam. Ou melhor, nem sempre faziam o serviço.

COM O PASSAR DO TEMPO LANDICA DESCOBRIU QUE sua filha tinha deficiência auditiva do tipo neurossensorial e que certos remédios podiam provocar ou agravar esse problema. Por isso desconfia dos antibióticos que tomou durante a gravidez e também os que a própria filha teve que ingerir devido às infecções intestinais e de ouvido. Outro motivo de desconfiança foi as condições em que se deu o parto, pois, o retardamento e o sofrimento, tanto da mãe, quanto do bebê, no período entre o trabalho de parto e o nascimento também pode ser um forte motivo para a causa desse tipo de surdez. De acordo com os fonoaudiólogos a deficiência neurossensorial de Marli é do tipo severo e se configura por uma lesão de células sensoriais e nervosas provocada por falha no mecanismo de percepção do som e isso compromete o funcionamento do ouvido interno até o cérebro.

Além da neurossensorial, existem outros dois tipos de surdez que também podem variar entre leve, moderada, severa e profunda. Tem a de condução (ou condutiva), que é o bloqueio no mecanismo de transmissão do som do canal auditivo externo até o limite com o interno, e a mista, que é quando o paciente apresenta problemas nos dois mecanismos.

A surdez também pode resultar de um fator genético, ou seja, as crianças que possuem histórico de perda neurossensorial na família podem manifestar esta característica. Nesse caso é importante que se faça um tratamento de aconselhamento genético dos pais. E como alguns remédios podem ser prejudiciais para a audição do bebê, quando ingeridos pela mãe durante a gravidez, é imprescindível o acompanhamento de um obstetra nesse período.

Dessa forma, fica evidente a importância do pré-natal como prevenção e também para solucionar problemas que comprometam a boa formação do feto. Porém, entre as gestantes de baixa renda no país, são raríssimos os casos em que a mãe procura acompanhamento médico – algumas só aparecem no hospital quando entram em trabalho de parto. Landica fez acompanhamento com obstetra durante a gravidez, mas não fez o aconselhamento genético, apesar de desconfiar que sua primeira filha, Marlene, também fosse surda. Como ainda não sabia sobre os efeitos dos antibióticos, fez uso de vários desses medicamentos. Sempre com receita médica

O histórico de descaso e demora do atendimento médico nos hospitais públicos do Brasil poderia explicar a resistência das mulheres grávidas em fazer pré-natal. Algumas gestantes até procuram acompanhamento, mas não conseguem. Aquela que dá à luz nessas Casas de Saúde públicas, geralmente é porque não tem outra opção e, muitas vezes, é submetida a alguns procedimentos pouco aceitáveis. O retardamento no parto não é o mais grave, visto que há casos de gestantes rejeitadas por hospitais, já em trabalho de parto, e o bebê acaba nascendo nas calçadas públicas como já aconteceu em capitais como Salvador.

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