domingo, 2 de novembro de 2014

A recuperação

Obs: fotos e documentos não serão divulgados no blog, somente na versão impressa e e-book do
livro.



O TEMPO PASSOU E MARLI CONSEGUIU SE RECUPERAR lentamente. Teve alta e voltou para casa. A partir de então, foi iniciada uma nova etapa do tratamento médico. Quando ela completou quatro anos, Landica a levou para a APAE[1] de Patos de Minas e foi lá que a menina teve assistência de psicólogos, fonoaudiólogos e pedagogos que a encaminharam para uma bateria de exames que dariam conta do seu grau de deficiência. Para tanto, tiveram que se deslocar mais uma vez, pois, os tais exames só poderiam ser feitos em São Paulo, visto que na capital de Minas ainda não tinha o equipamento necessário para a audiometria.

Naquela época Lagoa Formosa era uma cidade jovem, tinha se emancipado em 1962 e estava em plena expansão. Desenhava-se um cenário promissor para quem estivesse começando uma vida nova, como era o caso da família Fonseca.  Mas, somente em 1973 tiveram a oportunidade de ingressar nesta fase do progresso lagoense. Tiãozinho fez um ótimo negócio na compra de uma das únicas lojas de variedades da cidade e também uma funerária. Isso possibilitou a mudança da família. Da fazenda para uma casa em anexo à loja, na cidade. O endereço era na praça da igreja, um dos pontos privilegiados, onde residiam as famílias tradicionais de Lagoa Formosa. Landica gostou do novo lar e de ter livre acesso à igreja. Se antes precisava se deslocar 20 quilômetros para assistir a uma missa, agora bastava atravessar a rua.

Assim, também seria mais fácil o acesso de Marli a APAE e de Landica ao pré-natal. Ela deu á luz, naquele mesmo ano, ao primeiro filho do casal: um garoto bonito e saudável cuja escolha do nome deu origem a muita confusão. A mãe queria que ele se chamasse Marcos, mas o pai registrou como Márcio Sebastião e levou uma bronca por isso. Marlúcia, que já tinha dez anos, tornou-se madrinha de Márcio e passou a se sentir responsável pelo irmãozinho, que ficava aos seus cuidados enquanto sua mãe acompanhava Marli aos exames e tratamentos.

Nas cidades do interior as coisas aconteciam em um ritmo mais lento do que nas capitais. Marli já estava com seis anos quando foram tomadas as primeiras providências para que fossem feitos os tais exames, solicitados pela APAE. Primeiro foi levada à Faculdade de Medicina da UFMG, em Belo Horizonte, onde forneceram esclarecimentos sobre seu estado clínico:
Encaminhamento de Marli para o otorrinolaringologista:

Belo Horizonte, 8/5/1975.

Ao Dr. Maurício Gamarca
Não examinamos a menor Marli Rosa no momento, está no interior, porém a conhecemos desde os dois anos de idade, quando fizemos o diagnóstico de acidose tubular renal grave, com poliúria intensa[2], raquitismo renal[3], nanismo[4], nefrocalcinose[5].  Daí pra cá está sempre bem metabolicamente, com o uso da solução de Scholl.
Apresenta a surdez, motivo agora em suas mãos.  Julgamos não ter nenhum inconveniente a anestesia geral, desde que sabido sua tendência para acidose metabólica.

Grato.


Depois, com o documento em mãos, o otorrino a encaminhou para a Escola de Medicina em São Paulo, onde faria exames mais detalhados:

Encaminhamento do Centro de Otologia de Minas Gerais para exames na Escola Paulista de Medicina.






[1] Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais.
[2] Grande volume urinário.
[3] Descalcificação óssea ou desenvolvimento anormal do osso devido à nefropatias crônicas, nas quais a síntese da vitamina D3 pelos rins está comprometida, levando a alterações na percepção, com sensação de queimação no sistema digestivo. (site Medicina Prática).

[4]  o nanismo é consequência de um problema hormonal que faz com que o corpo não cresça e se desenvolva como deveria.
[5] Nefrocalcinose é a presença de depósitos de cálcio difusamente distribuídos no parênquima renal em decorrência de uma variedade de doenças sistêmicas. Em geral as calcificações da nefrocalcinose são do tipo distróficas, tendo como causas mais comuns o hiperparatireoidismo, a acidose tubular renal.  (site dapi.com.br).

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