livro.
O TEMPO PASSOU E MARLI
CONSEGUIU SE RECUPERAR lentamente. Teve alta e voltou para
casa. A partir de então, foi iniciada uma nova etapa do tratamento médico.
Quando ela completou quatro anos, Landica a levou para a APAE[1]
de Patos de Minas e foi lá que a menina teve assistência de psicólogos,
fonoaudiólogos e pedagogos que a encaminharam para uma bateria de exames que
dariam conta do seu grau de deficiência. Para tanto, tiveram que se deslocar
mais uma vez, pois, os tais exames só poderiam ser feitos em São Paulo, visto
que na capital de Minas ainda não tinha o equipamento necessário para a
audiometria.
Naquela época Lagoa Formosa era uma
cidade jovem, tinha se emancipado em 1962 e estava em plena expansão.
Desenhava-se um cenário promissor para quem estivesse começando uma vida nova,
como era o caso da família Fonseca. Mas,
somente em 1973 tiveram a oportunidade de ingressar nesta fase do progresso
lagoense. Tiãozinho fez um ótimo negócio na compra de uma das únicas lojas de
variedades da cidade e também uma funerária. Isso possibilitou a mudança da
família. Da fazenda para uma casa em anexo à loja, na cidade. O endereço era na praça da igreja, um
dos pontos privilegiados, onde residiam as famílias tradicionais de Lagoa
Formosa. Landica gostou do novo lar e de ter livre acesso à igreja. Se antes
precisava se deslocar 20 quilômetros para assistir a uma missa, agora bastava
atravessar a rua.
Assim, também seria mais fácil o acesso de
Marli a APAE e de Landica ao pré-natal. Ela deu á luz, naquele mesmo ano, ao
primeiro filho do casal: um garoto bonito e saudável cuja escolha do nome deu
origem a muita confusão. A mãe queria que ele se chamasse Marcos, mas o pai
registrou como Márcio Sebastião e levou uma bronca por isso. Marlúcia, que já tinha dez anos,
tornou-se madrinha de Márcio e passou a se sentir responsável pelo irmãozinho, que
ficava aos seus cuidados enquanto sua mãe acompanhava Marli aos exames e
tratamentos.
Nas cidades do interior as coisas
aconteciam em um ritmo mais lento do que nas capitais. Marli já estava com seis
anos quando foram tomadas as primeiras providências para que fossem feitos os
tais exames, solicitados pela APAE. Primeiro foi levada à Faculdade de Medicina
da UFMG, em Belo Horizonte, onde forneceram esclarecimentos sobre seu estado
clínico:
Encaminhamento de Marli para o
otorrinolaringologista:
Belo Horizonte, 8/5/1975.
Ao Dr. Maurício Gamarca
Não examinamos a menor Marli Rosa no
momento, está no interior, porém a conhecemos desde os dois anos de idade,
quando fizemos o diagnóstico de acidose tubular renal grave, com poliúria
intensa[2],
raquitismo renal[3],
nanismo[4],
nefrocalcinose[5]. Daí pra cá está sempre bem metabolicamente,
com o uso da solução de Scholl.
Apresenta a surdez, motivo agora em
suas mãos. Julgamos não ter nenhum
inconveniente a anestesia geral, desde que sabido sua tendência para acidose
metabólica.
Grato.
Depois, com o documento em mãos, o
otorrino a encaminhou para a Escola de Medicina em São Paulo, onde faria exames
mais detalhados:
Encaminhamento do Centro de Otologia de Minas Gerais para
exames na Escola Paulista de Medicina.
[1] Associação
de Pais e Amigos dos Excepcionais.
[2]
Grande volume urinário.
[3] Descalcificação óssea ou desenvolvimento anormal do osso
devido à nefropatias crônicas, nas quais a síntese da vitamina D3
pelos rins está comprometida, levando a alterações na percepção, com sensação de queimação no sistema digestivo. (site
Medicina Prática).
[4] o nanismo é consequência de um problema hormonal que faz com que o corpo não cresça e se desenvolva como deveria.
[5] Nefrocalcinose é a
presença de depósitos de cálcio difusamente distribuídos no parênquima renal em
decorrência de uma variedade de doenças sistêmicas. Em geral as calcificações
da nefrocalcinose são do tipo distróficas, tendo como causas mais comuns o hiperparatireoidismo,
a acidose tubular renal. (site dapi.com.br).

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