sexta-feira, 10 de maio de 2013

ESSA LÍNGUA TEM HISTÓRIA



Há relatos da existência de uma língua de sinais (ou mímica, como era chamada) desde o homem primitivo, assim foi descrito por Ramos (2004):

O primeiro ponto de vista é defendido por cientistas como G. Révész, que, em seu livro Origine et Préhistoire du langage (citado por Kristeva: 1981), aponta para uma perspectiva evolutiva na qual, em seis etapas, traça uma linha desde a comunicação animal até a linguagem humana altamente desenvolvida e complexa. O homem em seu estado primitivo estaria associado à dêixis, aos gritos e aos gestos. Essa visão, compartilhada durante muito tempo pela comunidade científica trouxe, e traz ainda, uma boa dose de rejeição às Línguas de Sinais das comunidades surdas, associando-as à gestualidade primitiva e, portanto à inferioridade. (RAMOS, 2004 p. 03)

O filósofo Heródoto (485 – 420 a.C) achava que os surdos haviam sido amaldiçoados pelos Deuses que lhes tiraram a capacidade de se comunicar de forma humana. Já na China, eram jogados ao mar. Por volta de 485 – 483 a.C, os surdos eram dados em sacrifício ao deus Tautatis durante a festa do Agárico, na Gália. Na Grécia, por volta da mesma época, eram lançados aos leões. Em Atenas, eram retirados de suas famílias e assassinados na frente dos pais. De acordo com o psicólogo e professor Anderson Simão Duarte[1], tais ocorrências se davam pelo fato de o surdo não conseguir se comunicar com “os filhos de Deus”, ou seja, os ouvintes. O filósofo Aristóteles (384 – 322 a.C) desprezou os surdos por achar que, já que não se manifestavam pela fala, não tinham alma, visto que uma era a representação da outra. 

O silêncio tirava-lhes a capacidade de raciocínio, tornando-os animalescos. Tais afirmações explicariam o histórico de exclusão que acompanha os surdos e sua língua. Mas o homem somente considera uma língua como tal se houver uma cultura a ela ligada, por isso Ramos (2004, p. 01) afirma que sob esse ponto de vista, a comunicação por meio de Sinais, ou mímica, existiu desde que existe a língua oral humana. E os interesses científicos sobre essa linguística também são bastante antigos.

O início da comunicação dos surdos se deu na Idade Moderna, por volta do ano de 1453, por meio de um escritor e advogado chamado Della Marca D’Ancora, que dizia ser possível que os surdos se comunicassem através de gestos, “assim como alguns animais, mas de forma mais estruturada.” (Duarte, Libras UFMT 2012).  Em 1500, Girolamo Cardeno, médico e pai de surdo, afirmava que a surdez não era impedimento para o aprendizado e tal processo apresentava melhores resultados através da escrita. Em 1593 foi publicado o primeiro livro sobre línguas de sinais, em Madri e de autoria do monge franciscano Melchor Yebra (1526 – 1586). Tal obra teve publicação póstuma, sob o nome de Refugium Infirmorum, tinha desenhos de vinte e oito letras do alfabeto manual.
            
Pedro Ponce de Léon (1520 – 1584), monge da ordem dos beneditinos de Onã, foi o primeiro professor de surdos registrado nos anais da história. Fundou a primeira escola para surdos em 1584, no mosteiro de Valladolid, porém, não teve nenhuma publicação de autoria própria. Devido aos votos de silêncio, que os monges beneditinos tinham como fundamento imaculável, a comunicação com os alunos somente era feita pelo alfabeto manual. Tal recurso, posteriormente, foi inserido a vários sinais, palavras e vocábulos. E o método fez bastante sucesso em 1620, com Juan Pablo Bonet (1579 – 1623) que, fazendo uso do alfabeto datilológico, alfabetizou um único surdo e, com isso, ganhou o título de Marquês de Frenzo, do rei Henrique IV[2].

Data de 1644 o primeiro livro[3] escrito em inglês The Natural Language of the hand and the Art of Manual Rhetoricem, com autoria de J. Bulwer. Na obra, ele descreve a língua dos sinais, com métodos e recursos de comunicação entre surdos e ouvintes. John Wallis (1616-1700), matemático e teólogo, disseminava que os sinais fossem utilizados como ferramentas para oralizar o surdo. Ele acreditava que a comunicação oral era a única a merecer reconhecimento, por ser a maneira correta.  Um médico suíço chamado Johann Konrad Amman, que condenava a comunicação através das mãos e disseminava a oralidade, fazia uso da língua de sinais para ensinar os surdos a falarem. Dessa forma, associou as técnicas de Bonnet e Wallis.
             
Mais tarde, em 1860, na França, o abade l'Epée, a partir de trabalho desenvolvido com duas surdas acerca da língua utilizada nas ruas de Paris, desenvolve uma metodologia que ele chamou de “Sinais Metódicos”.  Sacks, (apud SOUZA 1995) conta que o abade se empenhava muito no uso dessa língua, mas ao contrário dos oralistas, não tentava a qualquer custo fazer os surdos falarem. Além do mais, L’Epée contava com o apoio de renomados filósofos da época, que consideravam sua chamada “mímica dos surdos” mais do que uma simples linguagem. Era arte de ensinar que até mesmo superava a fala.
           
Com L'Epée, a ideologia reabilitadora ganhou novo conceito. O que deveria ser corrigido era o modo de se comunicar, não mais a deficiência física do surdo (SACKS apud SOUZA, agosto de 1995). Essa teoria foi respeitada e aderida pelo Instituto de Surdos e Mudos (atual Instituto Nacional de Jovens Surdos), de Paris, para a educação dos seus alunos.
           
Enquanto isso, em 1817, foi fundada nos Estados Unidos pelo professor Thomas Hopkins Gallaudet e um dos seus melhores estudantes, a primeira escola permanente para surdos em Hartford, Connecticut. A Língua Americana de Sinais (ASL) foi completamente aceita como língua de instrução nas escolas dos Estados Unidos em 1835. E, de acordo com Ramos, (2004, p. 65) “houve em consequência dessa atitude uma elevação do grau de escolarização das crianças surdas, que passaram a atingir o mercado profissional de nível mais alto, a maioria delas optando por se tornarem professores de surdos.” A pesquisadora comprova que estudos realizados em 17 países da Europa mostram uma tendência à adesão da língua dos sinais na educação dos surdos, nessa mesma época e com os mesmos resultados positivos. 
            
 Já em contrapartida, no ano de 1880 ouve uma mudança radical e a língua de sinais passa a ser banida de forma progressiva das escolas de surdos.  Essa mudança ocorreu depois do Congresso de Milão, que reuniu 182 dos mais renomados professores de surdos. A maioria desses profissionais era de ouvintes, oriundos de países como Bélgica, França, Alemanha, Inglaterra, Itália, Suécia, Rússia, Estados Unidos e Canadá. Não há nenhuma explicação plausível para tal atitude, porém, Silva (2006) esclarece alguns pontos sobre o evento:

O objetivo foi discutir a educação de surdos e analisar as vantagens e os inconvenientes do internato, o período necessário para educação formal, o número de alunos por salas e, principalmente, como os surdos deveriam ser ensinados, por meio da linguagem oral ou gestual. Nesse Congresso, que no momento da deliberação não contava com a participação nem com a opinião da minoria interessada – os surdos -, um grupo de ouvintes impôs a superioridade da língua oral sobre a língua de sinais e decretou que a primeira deveria constituir o único objetivo do ensino. A discussão foi extremamente agitada e, por ampla maioria, o Congresso declarou que o método oral, na educação de surdos, deveria ser preferido em relação ao gestual, pois as palavras eram, para os ouvintes, indubitavelmente superiores aos gestos. (SILVA, 2006, p. 26).


 A partir desta data a maioria dos países optou por restringir a educação dos surdos a uma única língua: a oral, o que os afastou do processo educativo. Vários pesquisadores, entre eles Souza (fevereiro 2007) contam que muitas escolas especiais tiveram suas portas fechadas ou abandonadas por falta de subsídios para mantê-las. O temor era que essas escolas se tornassem pontos disseminadores da língua de sinais. “A orientação era que as crianças surdas fossem, preferencialmente, colocadas em escolas regulares junto com alunos ‘normais’ e que não tivessem nenhum contato com outras crianças surdas.” (Souza, fev. 1995).

Assim, se estabelece uma lacuna na história da LS que vai até a década de 1940, quando surgem indícios do retorno da língua às escolas. Dessa forma, entre trancos e barrancos, a LS resiste ao tempo até a atualidade. Vale ressaltar que os Estados Unidos continuam a ser a maior referência em pesquisa linguística no campo da Língua de Sinais. Empregam, inclusive, alguns pesquisadores surdos em suas equipes, o que é uma grande conquista.
           
A inserção desses estudiosos nos grupos de análise deverá gerar mudanças qualitativas nas pesquisas que vem sendo realizadas. Isso faz pensar na possibilidade de, talvez, as comunidades acadêmicas e políticas brasileiras copiarem este modelo. Seria uma revolução em prol do avanço rumo à inclusão dos surdos nos vários setores a que ainda são privados no país.


Nenhum comentário:

Postar um comentário