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Há relatos da existência de uma
língua de sinais (ou mímica, como era chamada) desde o homem primitivo, assim
foi descrito por Ramos (2004):
O
primeiro ponto de vista é defendido por cientistas como G. Révész, que, em seu livro
Origine et Préhistoire du langage (citado por Kristeva: 1981), aponta
para uma perspectiva evolutiva na qual, em seis etapas, traça uma linha desde a
comunicação animal até a linguagem humana altamente desenvolvida e complexa. O
homem em seu estado primitivo estaria associado à dêixis, aos gritos e aos
gestos. Essa visão, compartilhada durante muito tempo pela comunidade científica
trouxe, e traz ainda, uma boa dose de rejeição às Línguas de Sinais das
comunidades surdas, associando-as à gestualidade primitiva e, portanto à
inferioridade. (RAMOS, 2004 p. 03)
O filósofo Heródoto
(485 – 420 a.C) achava que os surdos haviam sido amaldiçoados pelos Deuses que
lhes tiraram a capacidade de se comunicar de forma humana. Já na China, eram
jogados ao mar. Por volta de 485 – 483 a.C, os surdos eram dados em sacrifício
ao deus Tautatis durante a festa do Agárico, na Gália. Na Grécia, por volta da
mesma época, eram lançados aos leões. Em Atenas, eram retirados de suas
famílias e assassinados na frente dos pais. De acordo com o psicólogo e
professor Anderson Simão Duarte[1],
tais ocorrências se davam pelo fato de o surdo não conseguir se comunicar com
“os filhos de Deus”, ou seja, os ouvintes. O filósofo Aristóteles (384 – 322
a.C) desprezou os surdos por achar que, já que não se manifestavam pela fala,
não tinham alma, visto que uma era a representação da outra.
O silêncio
tirava-lhes a capacidade de raciocínio, tornando-os animalescos. Tais
afirmações explicariam o histórico de exclusão que acompanha os surdos e sua
língua. Mas o homem somente considera uma língua como tal se houver uma cultura
a ela ligada, por isso Ramos (2004, p. 01) afirma que sob esse ponto de vista,
a comunicação por meio de Sinais, ou mímica, existiu desde que existe a língua
oral humana. E os interesses científicos sobre essa linguística também são
bastante antigos.
O início da comunicação dos surdos
se deu na Idade Moderna, por volta do ano de 1453, por meio de um escritor e
advogado chamado Della Marca D’Ancora, que dizia ser possível que os surdos se
comunicassem através de gestos, “assim como alguns animais, mas de forma mais
estruturada.” (Duarte, Libras UFMT 2012).
Em 1500, Girolamo Cardeno, médico e pai de surdo, afirmava que a surdez
não era impedimento para o aprendizado e tal processo apresentava melhores
resultados através da escrita. Em 1593 foi publicado o primeiro livro sobre
línguas de sinais, em Madri e de autoria do monge franciscano Melchor Yebra
(1526 – 1586). Tal obra teve publicação póstuma, sob o nome de Refugium Infirmorum, tinha desenhos de
vinte e oito letras do alfabeto manual.
Pedro Ponce de Léon (1520 – 1584),
monge da ordem dos beneditinos de Onã, foi o primeiro professor de surdos
registrado nos anais da história. Fundou a primeira escola para surdos em 1584,
no mosteiro de Valladolid, porém, não teve nenhuma publicação de autoria
própria. Devido aos votos de silêncio, que os monges beneditinos tinham como
fundamento imaculável, a comunicação com os alunos somente era feita pelo
alfabeto manual. Tal recurso, posteriormente, foi inserido a vários sinais,
palavras e vocábulos. E o método fez bastante sucesso em 1620, com Juan Pablo
Bonet (1579 – 1623) que, fazendo uso do alfabeto datilológico, alfabetizou um
único surdo e, com isso, ganhou o título de Marquês de Frenzo, do rei Henrique
IV[2].
Data de 1644 o primeiro livro[3]
escrito em inglês The Natural Language of
the hand and the Art of Manual Rhetoricem, com autoria de J. Bulwer. Na
obra, ele descreve a língua dos sinais, com métodos e recursos de comunicação
entre surdos e ouvintes. John Wallis (1616-1700), matemático e teólogo,
disseminava que os sinais fossem utilizados como ferramentas para oralizar o
surdo. Ele acreditava que a comunicação oral era a única a merecer
reconhecimento, por ser a maneira correta.
Um médico suíço chamado Johann Konrad Amman, que condenava a comunicação
através das mãos e disseminava a oralidade, fazia uso da língua de sinais para
ensinar os surdos a falarem. Dessa forma, associou as técnicas de Bonnet e
Wallis.
Mais tarde, em 1860, na França, o abade
l'Epée, a partir de trabalho desenvolvido com duas surdas acerca da língua
utilizada nas ruas de Paris, desenvolve uma metodologia que ele chamou de
“Sinais Metódicos”. Sacks, (apud SOUZA 1995) conta que o
abade se empenhava muito no uso dessa língua, mas ao contrário dos oralistas,
não tentava a qualquer custo fazer os surdos falarem. Além do mais, L’Epée contava
com o apoio de renomados filósofos da época, que consideravam sua chamada
“mímica dos surdos” mais do que uma simples linguagem. Era arte de ensinar que
até mesmo superava a fala.
Com
L'Epée, a ideologia reabilitadora ganhou novo conceito. O que deveria ser
corrigido era o modo de se comunicar, não mais a deficiência física do surdo
(SACKS apud SOUZA, agosto de 1995). Essa teoria foi respeitada e
aderida pelo Instituto de Surdos e Mudos (atual Instituto Nacional de Jovens
Surdos), de Paris, para a educação dos seus alunos.
Enquanto isso, em 1817, foi fundada
nos Estados Unidos pelo professor Thomas Hopkins Gallaudet e um dos seus
melhores estudantes, a primeira escola permanente para surdos em Hartford,
Connecticut. A Língua Americana de Sinais (ASL) foi completamente aceita como
língua de instrução nas escolas dos Estados Unidos em 1835. E, de acordo com
Ramos, (2004, p. 65) “houve em consequência dessa atitude uma elevação do grau
de escolarização das crianças surdas, que passaram a atingir o mercado
profissional de nível mais alto, a maioria delas optando por se tornarem
professores de surdos.” A pesquisadora comprova que estudos realizados em 17
países da Europa mostram uma tendência à adesão da língua dos sinais na
educação dos surdos, nessa mesma época e com os mesmos resultados
positivos.
Já em contrapartida, no ano de 1880 ouve uma
mudança radical e a língua de sinais passa a ser banida de forma progressiva
das escolas de surdos. Essa mudança
ocorreu depois do Congresso de Milão, que reuniu 182 dos mais renomados
professores de surdos. A maioria desses profissionais era de ouvintes, oriundos
de países como Bélgica, França, Alemanha, Inglaterra, Itália, Suécia, Rússia,
Estados Unidos e Canadá. Não há nenhuma explicação plausível para tal atitude,
porém, Silva (2006) esclarece alguns pontos sobre o evento:
O
objetivo foi discutir a educação de surdos e analisar as vantagens e os
inconvenientes do internato, o período necessário para educação formal, o
número de alunos por salas e, principalmente, como os surdos deveriam ser
ensinados, por meio da linguagem oral ou gestual. Nesse Congresso, que no
momento da deliberação não contava com a participação nem com a opinião da
minoria interessada – os surdos -, um grupo de ouvintes impôs a superioridade
da língua oral sobre a língua de sinais e decretou que a primeira deveria
constituir o único objetivo do ensino. A discussão foi extremamente agitada e,
por ampla maioria, o Congresso declarou que o método oral, na educação de
surdos, deveria ser preferido em relação ao gestual, pois as palavras eram,
para os ouvintes, indubitavelmente superiores aos gestos. (SILVA, 2006, p. 26).
A partir desta data a maioria dos países optou por restringir a educação dos surdos a uma única língua: a oral, o que os afastou do processo educativo. Vários pesquisadores, entre eles Souza (fevereiro 2007) contam que muitas escolas especiais tiveram suas portas fechadas ou abandonadas por falta de subsídios para mantê-las. O temor era que essas escolas se tornassem pontos disseminadores da língua de sinais. “A orientação era que as crianças surdas fossem, preferencialmente, colocadas em escolas regulares junto com alunos ‘normais’ e que não tivessem nenhum contato com outras crianças surdas.” (Souza, fev. 1995).
Assim, se estabelece uma lacuna na
história da LS que vai até a década de 1940, quando surgem indícios do retorno
da língua às escolas. Dessa forma, entre trancos e barrancos, a LS resiste ao
tempo até a atualidade. Vale ressaltar que os Estados Unidos continuam a ser a
maior referência em pesquisa linguística no campo da Língua de Sinais.
Empregam, inclusive, alguns pesquisadores surdos em suas equipes, o que é uma
grande conquista.
A inserção desses estudiosos nos
grupos de análise deverá gerar mudanças qualitativas nas pesquisas que vem sendo
realizadas. Isso faz pensar na possibilidade de, talvez, as comunidades
acadêmicas e políticas brasileiras copiarem este modelo. Seria uma revolução em
prol do avanço rumo à inclusão dos surdos nos vários setores a que ainda são
privados no país.

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