Até aqui foram
expostas as formas verbais e não verbais de comunicar e os conceitos da surdez,
quando tratada como patologia clínica. Agora será mostrado outro lado dessa
questão: como a surdez é vivida e sentida. Apesar de algumas mudanças legais e
conceituais no que se refere ao surdo, seguem em ritmo lento e, na maioria das
vezes, pouco perceptíveis para quem vive a surdez e tudo que vem com ela. Um
bom exemplo para ilustrar tal experiência é a história de Marcos Rosa Fonseca.
Ele é do interior de Minas Gerais, tem 32 anos e sua mãe atende pelo nome de Iolanda,
uma das personagens deste livro-reportagem (parte 2).
Marcos nasceu surdo numa família de
ouvintes em que já havia um membro na mesma situação. Porém, a surdez não era
seu único problema, depois de vários exames foi detectada uma disritmia
cerebral[1]
e raquitismo[2]
que demandavam acompanhamento médico e remédios controlados. Desde criança ele
conhece as limitações da surdez e o preconceito acerca dela.
Quando saía na rua, Marcos era
apontado pelas outras crianças como o doido. Elas corriam de medo, pois
aprenderam com os pais que ele era “o mudinho doido” e iria pegá-los para fazer-lhes
alguma maldade. Isso piorava ainda mais o quadro de Marcos. Ele não entendia a
reação das crianças nem a agressividade dos adultos, que lhe viravam o rosto e
o ignoravam como se tivesse alguma doença contagiosa.
Essa história parece incomum e
cruel, mas está longe de ser um caso isolado. Vários cientistas apontam
situações parecidas e tentam esclarecer a origem da discriminação. Rinaldi
(1997, p. 15) explica que por muito tempo a surdez era confundida com
deficiência mental e até mesmo possessões demoníacas. E, ao longo do tempo,
quem não ouve tem sido taxado de “‘doidinho’, mudo ou surdo-mudo”. Como se a
surdez estivesse irremediavelmente ligada à mudez.
O estigma social acompanha o surdo
desde os primórdios. Até onde se sabe, nunca ocuparam lugares de destaque na política
ou cultura deste país. Müller de Quadros e Perlin (2007) confirmam essa
afirmação:
A
história nos colocou como deserdados [...] e toda sorte de estereótipos, menos
valias nos colocaram todos com os mesmos caracteres, todos não constantes dos
espaços de desenvolvimento do país, apesar da visibilidade de nossas
diferenças. O triste espaço da deficiência foi o álibi para nos manterem
“baixas do progresso”. Usurparam nossa diferença e disso sequer poderíamos sair
pelos cadeados colocados aqui e ali. (MÜLLER DE QUADROS & PERLIN, 2007, p.
13)
Fatos históricos, realmente,
significaram um importante fator de atraso na trajetória de conquistas dos
surdos. Regina Maria de Souza escreveu para o site popsic.com em agosto de 1995
que por toda a antiguidade “com o aval de filósofos como Aristóteles, até quase
o final da Idade Média, os surdos eram considerados imbecis e, portanto, sem
direitos legais ou civis.” Foi somente depois do código Justiniano de 529[3],
que surgiu distinção entre surdos inatos e os que haviam adquirido a surdez
após terem recebido educação. Apenas a estes era concedido o exercício da
cidadania.
Nesse sentido, a situação de Marcos
se torna cada vez mais complicada, pois tem dois agentes do preconceito: surdez
inata e doença mental. Ou seja, ainda que não portasse a disritmia estaria à
mercê do julgamento, humilhação e isolamento da sociedade. A mesma que rotula e
exclui indivíduos pelos mais variados motivos. Entre eles, a deficiência
auditiva. Porém, muitas vezes, por falta de conhecimento ou desinteresse, o
preconceito começa em casa. Quando isso acontece, o que pode ser feito?
Dificilmente o surdo consegue ir
contra a vontade dos pais. Quando se notou que Marcos não ouvia, encaminharam-no
para um profissional em fonoaudiologia, como normalmente acontece com outros
surdos. Esse fonoaudiólogo orientou Dona Iolanda, a mãe, a não deixá-lo usar
mímica para se comunicar. A razão era tentar forçar a oralidade, já que o
garoto tinha as cordas vocais em perfeito estado. Aliás, a maior parte da
comunidade surda tem. Ela obedeceu e armou uma batalha incessante, acompanhada
de mal-estar e estresse com o filho, que insistia em usar as mãos para
facilitar a comunicação entre eles. O resultado foi que Marcos não aprendeu a
Língua de Sinais (Libras) e hoje não se identifica com nenhuma das duas
línguas. Consegue se comunicar com os mais próximos, mas, quando precisa falar
com estranhos aparecem as dificuldades.
As técnicas usadas a fim de
“arrancar” a fala dos surdos eram e ainda são questionáveis. Será que é mesmo
necessário privá-los da comunicação manual para obrigá-los a usar a oralidade?
Nesse caso, os prejuízos podem significar muito mais do que retirar dos surdos
o direito a uma língua. Santana e Bérgamo (2005, pp. 03,04) afirmam que há uma
perda de identidade, pois é preciso que haja contato com outros surdos que usem
a língua de Sinais para que surjam novas formas de interagir. Eles descobrem
formas de dialogar e aprender que não conseguem por meio da língua falada. Os pesquisadores defendem que “ao tomar a língua como definidora de uma identidade
social, ainda que se leve em conta as relações e os conflitos relativos às
distintas posições ocupadas por grupos sociais, enfatiza-se o seu caráter
instrumental.” Os autores creditam a natureza e significação dos surdos em
sociedade às interações sociais que estão ligados.
SOUZA (agosto de 1995)
confirma que os problemas afetivos dos surdos estavam fortemente ligados à
privação linguística que imputávamos a eles. Por isso, grande parte dessas
pessoas acabou por confirmar os argumentos em favor da necessidade de
acompanhamento psicológico e médico. Fortaleceu-se a ideia de que era preciso
métodos corretivos ou preventivos dos
sintomas que a teoria esperava que emergissem. Assim, criou-se um círculo
vicioso:
A privação
linguística, provocada pelos preconceitos da sociedade e dos profissionais em
relação à L.S., condicionava graves comprometimentos afetivos e cognitivos no
surdo, o que, por sua vez, compelia o psicólogo a adotar uma praxis[4]
‘reabilitadora’. Não havia, aparentemente, outra saída. (SOUZA, agosto
1995)
Os surdos já possuem sua própria
língua, que é reconhecida por lei. Porém, até então, pouco aderida e respeitada
pela sociedade. Mas, por que ocorre a rejeição? Algumas suspeitas já podem ser
levantadas: histórico de descaso com o surdo; por haver uma minoria de surdos
na sociedade; falta de interesse em aprender a língua e interagir; pouca
divulgação e oferta de cursos para habilitar os ouvintes; ou todas as
alternativas acima. Müller de Quadros e Perlin (2007) apontam para uma
rotulação dos surdos, colocando-os à margem da sociedade e desvalorizando sua
cultura:
Nós
surdos somos aquele grupo [...] de párias da sociedade. O que nos levou
a ser classificados como isto, se estamos bem vestidos, comemos em restaurantes
de classe e transitamos em qualquer ambiente como qualquer grupo, simplesmente
a chamada normalidade? [...] Hoje os párias, os não normais, não irão para
quaisquer países como nos tempos da colonialidade em que o rei determinava a
criação de novas cidades e os deficientes eram jogados pelos despenhadeiros,
por representarem um peso para a sociedade. A temporalidade daqueles feitos
incautos mudou. Ficamos entre os homens e mulheres, pois assim a vida é
possível. [...] Não nos importa que nos marquem como refugos, como excluídos,
como anormais. Importa-nos quem somos, o que somos e como somos. A diferença
será sempre diferença. (MÜLLER DE QUADROS e PERLIN, 2007, pp. 09-10).
O fato apontado por vários teóricos:
a Língua dos Sinais (Libras) é um fator que define e reforça a identidade e a
cultura surdas. No entanto, outro elemento de relevância é a resistência social
em acolher e integrar a comunidade surda e suas diferenças junto aos ouvintes.
Antes de querer curá-los, é preciso respeitá-los como são. Os surdos vivem,
trabalham e se divertem como qualquer pessoa. Não são iguais aos ouvintes, já
que não ouvem e afirmam sua diferença, porém rejeitam o estigma da patologia.
“Continuamos a dizer que somos normais com nossa língua de sinais, com o nosso
jeito de ser surdos.” (MÜLLER DE QUADROS e PERLIN, 2007, p.10). E por isso
lutam. Organizam-se em Associações e outros espaços onde formam grupos de
resistência aos preconceitos e exclusão como esclarece Miorando (2006):
O
Movimento Surdo, no mundo, proporcionou uma organização política que avança no
sentido de superar a marginalização, trazendo esse sujeito para os espaços que
o enxerguem como um cidadão. É uma organização que atua a partir de estratégias
que buscam romper estereótipos que ameacem a sua acessibilidade a uma gama de
direitos adquiridos, principalmente, a uma educação de qualidade. Nas camisetas
que seus integrantes usam, está estampado o seu desejo de reconhecimento: “Pelo
direito de ser surdo”, pela não obrigação de ser submetido a estratégias que o
queiram ouvinte, como se não fosse normal. (MIORANDO, 2006 p. 78).
FIG. 8:
Camiseta de protesto contra o preconceito
Fonte: site Zazzle.com
Nota-se
que a aceitação dos surdos pela sociedade fica intrinsecamente condicionada a
algumas regras, uma delas é que o surdo se “oralize” e abandone sua língua.
Condição que eles definitivamente não aceitam. Seria abandonar o que os define
como seres sociais distintos, carregados de sua própria cultura. Agentes
significantes, produtores de significados acerca da história de exclusão e
lutas sociais nesse país. Por outro lado, tal condição encorajou os surdos a
cunharem estratégias próprias para ter acesso a um direito que é inerente a
todo cidadão, o exercício da cidadania: estudar, viajar, conviver em sociedade,
trabalhar, ser feliz!
[1] Essa doença acarreta
um conjunto de sintomas que se distinguem por fatos recorrentes e breves,
capazes de distorcer a consciência. Podem se associar a
alterações dos movimentos, convulsões e mesmo transtornos do sentimento, das
emoções, da conduta, ou tudo isso junto.
[2]
Deficiência de cálcio nos ossos, causada pela falta da vitamina D.
[3] Justiniano foi um
imperador romano que subiu ao trono em agosto de 527 d.C., iniciando obra
militar e legislativa. Reuniu comissão de dez membros para compilar as
constituições imperiais vigentes e instituiu o que ele chamou de “Novus
Justinianus Codex”.
[4]
Termo que significa "ação" ou "atividade" e que foi
introduzido por Aristóteles
para, por oposição a theoria (teoria) e poiêsis (arte). Na
linguagem comum, a prática é frequentemente entendida em oposição a teoria.
(Dicionário de Filosofia, 2003).


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