segunda-feira, 6 de maio de 2013

O SURDO PELO SURDO




 Até aqui foram expostas as formas verbais e não verbais de comunicar e os conceitos da surdez, quando tratada como patologia clínica. Agora será mostrado outro lado dessa questão: como a surdez é vivida e sentida. Apesar de algumas mudanças legais e conceituais no que se refere ao surdo, seguem em ritmo lento e, na maioria das vezes, pouco perceptíveis para quem vive a surdez e tudo que vem com ela. Um bom exemplo para ilustrar tal experiência é a história de Marcos Rosa Fonseca. Ele é do interior de Minas Gerais, tem 32 anos e sua mãe atende pelo nome de Iolanda, uma das personagens deste livro-reportagem (parte 2).

Marcos nasceu surdo numa família de ouvintes em que já havia um membro na mesma situação. Porém, a surdez não era seu único problema, depois de vários exames foi detectada uma disritmia cerebral[1] e raquitismo[2] que demandavam acompanhamento médico e remédios controlados. Desde criança ele conhece as limitações da surdez e o preconceito acerca dela.

 Quando saía na rua, Marcos era apontado pelas outras crianças como o doido. Elas corriam de medo, pois aprenderam com os pais que ele era “o mudinho doido” e iria pegá-los para fazer-lhes alguma maldade. Isso piorava ainda mais o quadro de Marcos. Ele não entendia a reação das crianças nem a agressividade dos adultos, que lhe viravam o rosto e o ignoravam como se tivesse alguma doença contagiosa.

Essa história parece incomum e cruel, mas está longe de ser um caso isolado. Vários cientistas apontam situações parecidas e tentam esclarecer a origem da discriminação. Rinaldi (1997, p. 15) explica que por muito tempo a surdez era confundida com deficiência mental e até mesmo possessões demoníacas. E, ao longo do tempo, quem não ouve tem sido taxado de “‘doidinho’, mudo ou surdo-mudo”. Como se a surdez estivesse irremediavelmente ligada à mudez.

 O estigma social acompanha o surdo desde os primórdios. Até onde se sabe, nunca ocuparam lugares de destaque na política ou cultura deste país. Müller de Quadros e Perlin (2007) confirmam essa afirmação:

A história nos colocou como deserdados [...] e toda sorte de estereótipos, menos valias nos colocaram todos com os mesmos caracteres, todos não constantes dos espaços de desenvolvimento do país, apesar da visibilidade de nossas diferenças. O triste espaço da deficiência foi o álibi para nos manterem “baixas do progresso”. Usurparam nossa diferença e disso sequer poderíamos sair pelos cadeados colocados aqui e ali. (MÜLLER DE QUADROS & PERLIN, 2007, p. 13)

  Fatos históricos, realmente, significaram um importante fator de atraso na trajetória de conquistas dos surdos. Regina Maria de Souza escreveu para o site popsic.com em agosto de 1995 que por toda a antiguidade “com o aval de filósofos como Aristóteles, até quase o final da Idade Média, os surdos eram considerados imbecis e, portanto, sem direitos legais ou civis.” Foi somente depois do código Justiniano de 529[3], que surgiu distinção entre surdos inatos e os que haviam adquirido a surdez após terem recebido educação. Apenas a estes era concedido o exercício da cidadania.

  Nesse sentido, a situação de Marcos se torna cada vez mais complicada, pois tem dois agentes do preconceito: surdez inata e doença mental. Ou seja, ainda que não portasse a disritmia estaria à mercê do julgamento, humilhação e isolamento da sociedade. A mesma que rotula e exclui indivíduos pelos mais variados motivos. Entre eles, a deficiência auditiva. Porém, muitas vezes, por falta de conhecimento ou desinteresse, o preconceito começa em casa. Quando isso acontece, o que pode ser feito?

 Dificilmente o surdo consegue ir contra a vontade dos pais. Quando se notou que Marcos não ouvia, encaminharam-no para um profissional em fonoaudiologia, como normalmente acontece com outros surdos. Esse fonoaudiólogo orientou Dona Iolanda, a mãe, a não deixá-lo usar mímica para se comunicar. A razão era tentar forçar a oralidade, já que o garoto tinha as cordas vocais em perfeito estado. Aliás, a maior parte da comunidade surda tem. Ela obedeceu e armou uma batalha incessante, acompanhada de mal-estar e estresse com o filho, que insistia em usar as mãos para facilitar a comunicação entre eles. O resultado foi que Marcos não aprendeu a Língua de Sinais (Libras) e hoje não se identifica com nenhuma das duas línguas. Consegue se comunicar com os mais próximos, mas, quando precisa falar com estranhos aparecem as dificuldades.

As técnicas usadas a fim de “arrancar” a fala dos surdos eram e ainda são questionáveis. Será que é mesmo necessário privá-los da comunicação manual para obrigá-los a usar a oralidade? Nesse caso, os prejuízos podem significar muito mais do que retirar dos surdos o direito a uma língua. Santana e Bérgamo (2005, pp. 03,04) afirmam que há uma perda de identidade, pois é preciso que haja contato com outros surdos que usem a língua de Sinais para que surjam novas formas de interagir. Eles descobrem formas de dialogar e aprender que não conseguem por meio da língua falada.  Os pesquisadores defendem que “ao tomar a língua como definidora de uma identidade social, ainda que se leve em conta as relações e os conflitos relativos às distintas posições ocupadas por grupos sociais, enfatiza-se o seu caráter instrumental.” Os autores creditam a natureza e significação dos surdos em sociedade às interações sociais que estão ligados.

SOUZA (agosto de 1995) confirma que os problemas afetivos dos surdos estavam fortemente ligados à privação linguística que imputávamos a eles. Por isso, grande parte dessas pessoas acabou por confirmar os argumentos em favor da necessidade de acompanhamento psicológico e médico. Fortaleceu-se a ideia de que era preciso métodos corretivos ou preventivos dos sintomas que a teoria esperava que emergissem. Assim, criou-se um círculo vicioso:

A privação linguística, provocada pelos preconceitos da sociedade e dos profissionais em relação à L.S., condicionava graves comprometimentos afetivos e cognitivos no surdo, o que, por sua vez, compelia o psicólogo a adotar uma praxis[4] ‘reabilitadora’. Não havia, aparentemente, outra saída. (SOUZA, agosto 1995)


Os surdos já possuem sua própria língua, que é reconhecida por lei. Porém, até então, pouco aderida e respeitada pela sociedade. Mas, por que ocorre a rejeição? Algumas suspeitas já podem ser levantadas: histórico de descaso com o surdo; por haver uma minoria de surdos na sociedade; falta de interesse em aprender a língua e interagir; pouca divulgação e oferta de cursos para habilitar os ouvintes; ou todas as alternativas acima. Müller de Quadros e Perlin (2007) apontam para uma rotulação dos surdos, colocando-os à margem da sociedade e desvalorizando sua cultura:

Nós surdos somos aquele grupo [...] de párias da sociedade. O que nos levou a ser classificados como isto, se estamos bem vestidos, comemos em restaurantes de classe e transitamos em qualquer ambiente como qualquer grupo, simplesmente a chamada normalidade? [...] Hoje os párias, os não normais, não irão para quaisquer países como nos tempos da colonialidade em que o rei determinava a criação de novas cidades e os deficientes eram jogados pelos despenhadeiros, por representarem um peso para a sociedade. A temporalidade daqueles feitos incautos mudou. Ficamos entre os homens e mulheres, pois assim a vida é possível. [...] Não nos importa que nos marquem como refugos, como excluídos, como anormais. Importa-nos quem somos, o que somos e como somos. A diferença será sempre diferença. (MÜLLER DE QUADROS e PERLIN, 2007, pp. 09-10).

 O fato apontado por vários teóricos: a Língua dos Sinais (Libras) é um fator que define e reforça a identidade e a cultura surdas. No entanto, outro elemento de relevância é a resistência social em acolher e integrar a comunidade surda e suas diferenças junto aos ouvintes. Antes de querer curá-los, é preciso respeitá-los como são. Os surdos vivem, trabalham e se divertem como qualquer pessoa. Não são iguais aos ouvintes, já que não ouvem e afirmam sua diferença, porém rejeitam o estigma da patologia. “Continuamos a dizer que somos normais com nossa língua de sinais, com o nosso jeito de ser surdos.” (MÜLLER DE QUADROS e PERLIN, 2007, p.10). E por isso lutam. Organizam-se em Associações e outros espaços onde formam grupos de resistência aos preconceitos e exclusão como esclarece Miorando (2006):

O Movimento Surdo, no mundo, proporcionou uma organização política que avança no sentido de superar a marginalização, trazendo esse sujeito para os espaços que o enxerguem como um cidadão. É uma organização que atua a partir de estratégias que buscam romper estereótipos que ameacem a sua acessibilidade a uma gama de direitos adquiridos, principalmente, a uma educação de qualidade. Nas camisetas que seus integrantes usam, está estampado o seu desejo de reconhecimento: “Pelo direito de ser surdo”, pela não obrigação de ser submetido a estratégias que o queiram ouvinte, como se não fosse normal. (MIORANDO, 2006 p. 78).




FIG. 8: Camiseta de protesto contra o preconceito
Fonte: site Zazzle.com


  Nota-se que a aceitação dos surdos pela sociedade fica intrinsecamente condicionada a algumas regras, uma delas é que o surdo se “oralize” e abandone sua língua. Condição que eles definitivamente não aceitam. Seria abandonar o que os define como seres sociais distintos, carregados de sua própria cultura. Agentes significantes, produtores de significados acerca da história de exclusão e lutas sociais nesse país. Por outro lado, tal condição encorajou os surdos a cunharem estratégias próprias para ter acesso a um direito que é inerente a todo cidadão, o exercício da cidadania: estudar, viajar, conviver em sociedade, trabalhar, ser feliz!




[1] Essa doença acarreta um conjunto de sintomas que se distinguem por fatos recorrentes e breves, capazes de distorcer a consciência. Podem se associar a alterações dos movimentos, convulsões e mesmo transtornos do sentimento, das emoções, da conduta, ou tudo isso junto.
[2] Deficiência de cálcio nos ossos, causada pela falta da vitamina D.
[3] Justiniano foi um imperador romano que subiu ao trono em agosto de 527 d.C., iniciando obra militar e legislativa. Reuniu comissão de dez membros para compilar as constituições imperiais vigentes e instituiu o que ele chamou de “Novus Justinianus Codex”.
[4] Termo que significa "ação" ou "atividade" e que foi introduzido por Aristóteles para, por oposição a theoria (teoria) e poiêsis (arte). Na linguagem comum, a prática é frequentemente entendida em oposição a teoria. (Dicionário de Filosofia, 2003).

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