quarta-feira, 15 de maio de 2013

Que libras é essa?


Imagem do site:http://www.trabalhoespecial.com.br



E no Brasil, como surgiu a Libras? Em 26 de setembro de 1857 foi fundado no Rio de Janeiro o Instituto Nacional de Surdos-Mudos (INSM, atual Instituto Nacional de Educação de Surdos- INES), por meio da Lei 839, assinada por D. Pedro II. Assim ficou marcado o início oficial da educação dos surdos no Brasil. Porém, de acordo com Reis, citado por Ramos em artigo escrito para o site da editora Arara Azul, em fevereiro de 2004, em 1835 um deputado de nome Cornélio Ferreira apresentou à Assembleia um projeto de lei com base na criação do cargo de "professor de primeiras letras para o ensino de cegos e surdos-mudos". Mas não obteve êxito, o projeto não foi aprovado.

 De acordo com Reis (apud Ramos, 2004, p. 05) o interesse de Dom Pedro II em educação para surdos viria do fato de ser a princesa Isabel mãe de um filho surdo e casada com o Conde D’Eu, parcialmente surdo. Houve realmente grande empenho por parte de D. Pedro II na fundação de uma escola para surdos, ele determinou, inclusive, que viesse para o Brasil em 1855 um professor e intérprete francês, Ernest (ou Eduard) Huet. Vindo do Instituto de Surdos-Mudos de Paris, ele garantiu que o trabalho com os surdos estivesse atualizado com as novas metodologias educacionais.

Por isso acredita-se que haja grande influência da Língua de Sinais Francesa sobre a Língua Brasileira de Sinais. O fato é que naquele tempo, a língua de sinais e o alfabeto datilológico[1] eram aceitos e até estimulados na educação dos surdos. Acreditava-se que podiam facilitar a integração entre professores e alunos.       

Muito tempo depois, em 1973, finalmente, foi escrito um livro brasileiro sobre a língua de sinais pelo estudante Flausino José da Gama. Intitulada Iconographia dos Signaes dos Surdos-Mudos, a obra é inspirada em livro de publicação francesa, o qual pesquisou na biblioteca do Instituto Nacional dos Surdos-Mudos (INSM). E em 1911 o INSM passou a usar a oralidade pura como método de ensino, a exemplo dos demais países. Mas ouve, mesmo que velada, uma luta contra a metodologia por parte de professores, funcionários surdos e os ex-alunos que sempre mantiveram o hábito de frequentar a escola. Não foi o suficiente, pois, ainda hoje, a comunidade surda contabiliza os prejuízos psicológicos, morais, intelectuais e financeiros da supressão de sua língua. Tal ato de mutilação identitária teve origem no Congresso de Milão e adesão no mundo inteiro. Sobre isso, Silva (2008) diz:

Diante da concepção medicalizada da surdez, as escolas pouco a pouco são transformadas em salas de tratamento. As estratégias pedagógicas passam a ser estratégias terapêuticas. Os professores surdos são excluídos e incluem-se os profissionais ouvintes. Os trabalhos pedagógicos coletivos são transformados em terapias individuais e, o que é mais grave, a partir dessa concepção entendeu-se que a surdez afetaria de modo direto a competência linguística dos alunos surdos, estabelecendo assim uma equivocada identidade entre a linguagem e a língua oral. Dessa idéia se infere a noção de que o desenvolvimento cognitivo está condicionado ao maior ou menor conhecimento que tenham os alunos surdos da língua oral. (SILVA, 2008 p. 32).

 Passados 91 anos, em 2002, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) é reconhecida como Língua oficial dos surdos no Brasil por meio da lei nº 10.436. Porém, a regulamentação se torna mais clara pelo decreto 5.626 de dezembro, 2005. Constam em Parágrafo Único que a Libras é uma língua visual-motora de estrutura gramatical própria e um “sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil”. E, mesmo com quase um século de atraso, essa ação representa um grande avanço na luta da comunidade surda por reconhecimento e respeito. As ações planejadas pelo governo impulsionam a sociedade a dar mais um passo rumo à devolução da cidadania surda, tolhida por anos na história.  Ramos (2006) confirma:

A Regulamentação da Lei nº 10.436 (conhecida também como a “Lei de Libras”) passará para a história como um marco positivo na luta pelos direitos de cidadania dos surdos brasileiros. O Decreto 5.626 prevê a inserção da língua de sinais como disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação de professores para o exercício do magistério, em nível médio e superior, e como disciplina curricular optativa nos demais cursos de educação superior e na educação profissional. Prevê também a formação de profissionais surdos e ouvintes para o ensino da língua de sinais, assim como a formação e avaliação dos Intérpretes e Tradutores de Libras, entre outras diversas e importantes ações. (RAMOS, apud MÜLLER DE QUADROS, 2006, p. 04).


Müller de Quadros e Massutti (2007, p. 244) ratificam tal afirmação e complementam: tal lei visa preservar e disseminar a Língua Brasileira de Sinais. Isso assegura o compromisso de formar professores de Libras e intérpretes e propõe curso superior bilíngue voltado a educação infantil. Além do mais, determina a inclusão da língua de sinais em todos os cursos que formam educadores no Brasil.

 Na teoria parece perfeito, mas, na prática a realidade é outra. Ainda não se pode dizer que com essa lei os surdos passam a compartilhar dos mesmos benefícios que o ouvinte. No interior das salas de aula nas universidades, nas agências bancárias, lojas ou quaisquer outros locais públicos, ainda esbarram nos entraves comunicacionais.

Camila Fonseca, 25, fez vestibular para o curso de Sistemas de Informação na Universidade de Cuiabá (Unic) e foi aprovada. Mas, quando passou a frequentar as aulas, percebeu a necessidade de ser auxiliada por um intérprete. A faculdade não dispunha dos serviços desse profissional, por isso Camila se viu obrigada a abrir um processo na justiça como último recurso para fazer valer seus direitos. Ela descreve um episódio em que, diante de uma câmera, precisou provar ao juiz, por meio da Libras, que realmente é surda. Ainda assim, somente após o prazo de um ano e oito meses ficou determinado que ela fosse acompanhada pelo intérprete, garantindo o seu direito a educação no ensino superior.

As barreiras da linguagem ainda são visíveis e difíceis de transpor. A língua de Sinais é pouco compreendida pela larga maioria da sociedade. Nesse contexto, vale ressaltar que, por não haver outra forma de compreender a língua falada, os surdos aprenderam uma técnica bastante funcional para facilitar a interatividade com os ouvintes: a leitura labial. Porém, essa prática é pouco eficiente em alguns ambientes porque é necessário manter a boca do falante no campo visual. Durante uma aula, por exemplo, em que o professor se desloca de um lugar para outro e vira de costas várias vezes, na função de escrever no quadro, é praticamente impossível aplicar a leitura labial.


[1] Alfabeto dos surdos, da Libras. Usam-se as mãos para soletrar.

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